Para esquecer…

A pior decepção, a pior mágoa, a pior tristeza, a pior derrota, são aquelas que você tem de si mesmo. Perceber os próprios equívocos, saber que fez tudo errado, constatar que novamente seus instintos falharam e sua consciência o traiu é sempre desolador.

Olhar-se no espelho e saber que a vida é necessariamente reação de suas ações, somos vítimas de nós mesmos. Boicotamos nosso futuro, ignoramos as possibilidades, botamos os pés pelas mãos, não sabemos lidar com o tempo de cada coisa.

Queremos agora o que não podemos, queremos ter o que não é nosso, nos frustramos por tudo que obviamente nunca será. O que não foi, não é. Relutamos contra o óbvio, se adiantamos comemos cru, se esperamos demais, perde-se a oportunidade.

Não importa o que façamos, sempre acabaremos entre a cruz e a espada.
Ninguém sai ileso das escolhas e das consequências.

Infinitamente oco

Você pode até achar triste minhas palavras. Pode pensar que é drama, que é melancolia, tristeza e até pode pensar que é frescura. Mas se você pudesse ver as coisas que eu penso e que nunca disse, se pudesse ver o infinito vazio dentro de mim, ficaria surpreso com minha capacidade de acreditar naquilo que não existe, no vazio, no oco. Positivista não é aquele que compartilha momentos de felicidade ou ostentação. Positiva é aquela pessoa que acredita na luz, mesmo caminhando na escuridão.

Próximo de mim, distante de todos…

Em toda a minha existência até o momento, tenho me reinventado diariamente. Desde que entendi de forma clara, que manter perspectivas intactas não é sinônimo de caráter ou inteligência, quando enfim entendi que nossa única saída sã é a capacidade de adaptação, a vontade da mudança infinita e a necessidade de sentir-se em movimento, seja qual for a direção escolhida, sinto que estou fazendo algo certo.

Recentemente comecei a entender que quanto mais compartilhava minha vida com outras pessoas, menos sobrava de mim, para mim. Recentemente ouvi um psicanalista explicar a proeza de se tornar um individualista, alguém que precisa apenas de si mesmo para sentir-se completo. Essa visão que poderia ser confundida com egoísmo, na verdade é quase seu antônimo, segundo ele.

Quando você compartilha suas frustrações publicamente, tem a falsa sensação de um desabafo, de um conforto, de um alívio. O problema parece que se vai, junto com a avalanche de outras publicações inúteis da sua timeline. No entanto você deixou de consumir as lições que estes momentos poderiam lhe ensinar e evitar a repetição dos mesmos erros. Por isso parei de compartilhar minha vida, minhas conquistas, minhas alegrias e minhas tristezas.

Quero tudo para mim agora, o bom e o ruim. Porque somente eu sei o que fazer com meus pensamentos, eles só fazem o sentido correto, em mim. Somente eu sei a importância que dou as coisas que me fazem sorrir e as que me fazem chorar. E isso é particular e importante demais para dividir assim, a quem bem entender.

Das minhas palavras você pode fazer o que quiser: julgamentos, significados e até mesmo criar sua própria imagem sobre mim. Em geral resumem de forma rasa e simplória. No entanto, as coisas que registro aqui servem apenas para que não esqueça das coisas que vivi, vi, ouvi, senti. Coisas que passam pela minha cabeça, são os pontos que me fazem chegar até aqui, independente do que você queira tirar destes relatos.

Desculpe o individualismo e minha tentativa de ser mais do que isso que você está acostumado, mas a cada dia serei mais próximo de mim e mais distante de qualquer um.

Mudanças

Não sei se de fato alguém se importa em saber os motivos de minhas ausências no Gelo Negro, acredito que a maior parte das pessoas, venha atrás de um conteúdo específico, algum assunto que eu comentei por aqui, sem qualquer entendimento de quem mantém o site no ar. De qualquer forma, alguém deve se importar, ao menos quero acreditar que sim.

Mudei de cidade, não fui longe, mas enfim não estou mais onde morei nos últimos seis anos. A cidade na qual desempenhava efetivamente o meu trabalho como designer, no meu próprio estúdio de criação chamado The Moon Branding. Qualquer coisa que eu possa dizer agora, estará contaminada pelas mágoas que carrego de lá, mais precisamente das pessoas de lá, que tantas portas me fecharam, que tantas injustiças me fizeram, que tanto me discriminaram para deixar claro que eu ‘não era benvindo’.

Apesar de tudo, acredito que esta seja uma realidade comum para muitas pessoas, não me considero diferente ou especial por isso. Moro na região dos vales catarinenses, que apesar de sua beleza bucólica, esconde uma cultura muito pouco inclusiva, para não dizer discriminatória. Eu sempre fui o estereótipo de tudo que abominam. Não possuo sobrenome conhecido, tenho uma origem muito humilde, meu pai era paulista, nunca me submeti aos caprichos de nenhum rico babaca de família tradicional e nunca aceitei a ignorância. Nunca aceitei este estilo feudal de vida, quase como castas, fadando aqueles que não possuem um nome alemão, a uma vida de exclusão.

Essa minha insubordinação à todo este status quo, nunca foi vista com bons olhos e só piorou minha situação imposta de vassalo. Sempre fui liberto da escravidão mental que tanto afeta as pessoas que vivem nestes vales, que parecem delimitar horizonte e mentes. Meu pai foi um cara assim, dissonante do meio que vivia aqui, sonhando equivocadamente que um dia viveria aqui, do mesmo modo que vivia em São Paulo. Meu pai morreu em 2000 sem presenciar qualquer mudança de comportamento e hoje, quase doze anos depois, parece que estamos longe de qualquer mudança significativa.

Talvez por isso que minha mente e meu coração apontam sempre o caminho inverso, ao contrário dele, meu desejo é voltar para São Paulo e tentar fazer aquilo que ele não conseguiu, escrever um fim diferente. Talvez poucas pessoas entendam minhas motivações, nem mesmo minha família entende o quanto tudo isso me incomoda de forma tão particular.

Meus dias aqui me distanciaram um pouco do blog e de tudo que me faz vir até aqui escrever algo. A mudança física de endereço é infinitamente menor que a mudança mental que vem acontecendo a cada dia em mim, eu que estive sempre tão certo de tudo, agora pareço mais perdido que qualquer pessoa. Não sei de mim, não sei do futuro e pouco entendo meu presente…

Lago Negro…

É estranho como certas situações em nossas vidas se entrelaçam, um assunto resgata um pensamento aleatoriamente, remetendo a outro, passam a se repetir e lhe fazem pensar em algo que já estava perdido no tempo da memória. Recentemente uma situação me fez recordar de quantas vezes já fui classificado como alguém ‘pra baixo’.

De fato fui uma criança um tanto solitária, paradoxalmente ao fato de gostar de pessoas.  Meus irmãos mais velhos não compartilhavam do meu dia-a-dia. Fui um garoto circunstancialmente só, nunca fui distante ou anti-social. Drummond teria sintetizado: ‘Vai, Jeff! ser gauche na vida’.

Sempre vivi circunstâncias que me isolaram parcialmente, mudei muitas vezes de colégio e assim perdia constantemente as amizades que consquistava. Comecei a trabalhar aos quatorze anos, o que me afastou da possibilidade de encontrar os amigos depois do colégio. Aos quinze, quando iniciei o segundo grau, fui estudar em outra cidade, no segundo maior colégio do estado, onde necessariamente você acaba se sentindo um intruso, principalmente vivendo dentro de uma região de colonização européia, onde receptividade é artigo de luxo, com preço fixado.

Fiquei me questionando novamente, quanto deste ‘diagnóstico’ que me foi dado, por alguém que mal conheço, poderia de fato ser verdade. Então pensei nestes rótulos que nos são dados ao longo da vida, a bel-prazer. Refleti sobre a completa ineficácia de um pré-julgamento.

Todo rótulo, como a palavra sugere, é fixado no mesmo lugar onde são desenvolvidos: na superfície, na embalagem, no ‘lado de fora’ e inevitavelmente, apesar da tentativa de discriminar seu conteúdo, trata-se apenas de um rótulo, uma sugestão com pouca ou nenhuma garantia de assegurar seu conteúdo. Como somos mais complexos que uma fórmula química qualquer, rótulos não podem relatar todo seu contido.

A tentativa da pessoa em me colocar no balaio dos anormais, ironicamente usou como base os textos do Gelo Negro, olhou e disse: ‘Olha, o que eu disse? Tá aí, é depressão pura isso’.

Eu até poderia concordar, se misturado à toda essa ‘melancolia introspectiva’, não tivessem tanto conteúdo mais ‘suave’, como as belas canções, os belos vídeos, as histórias, os filmes, as fotografias. No fundo me considero uma pessoa de coragem e brio, afinal, mexer no seu lado mais obscuro e dar voz à coisas que você sente lá no fundo de sua alma, não é para qualquer um. Pode ser para qualquer um, mas poucos estão dispostos à isso.

Young explicaria melhor que eu…

Acredito que grande parte da sociedade em geral, esconde seus medos, frustrações e psiques em um lugar muito profundo, preferencialmente inalcansável.

De uma maneira prática, as possibilidades de eu desenvolver um surto psicótico, é menos potencial que naqueles que preferem ignorar sua própria sombra. Possuem medo de lidar com o desconhecido, como se tivessem um lado ‘sociedade secreta’. Um caminho que temem entrar e nunca mais voltar. Não sei precisar quais os benefícios desta fuga, talvez a recusa e anulação que muitas pessoas mantém sobre seu lado mais obscuro, seu lado socialmente não aceito, seja importante para lhes dar a classificação que todos desejam: ‘os normais’. Quem sabe, ignorar o ‘todo’, seja a maneira eficaz encontrada para sobreviver à algo que não conseguiriam suportar.

Partindo da ideia que pensamentos e traços de personalidade ficam escondidos em algum lugar inacessível, tentar entender-se por completo é como um mergulho apnéico em um lago de águas paradas e profundas (alguém já deve ter dito isso). Tão profundas que se tornam escuras, talvez esta tenha sido a origem da expressão ‘lado negro’. Um mergulho ao seu lado negro em seu fito, exige fôlego e a preocupação de manter a consciência durante a descida e seu retorno, qualquer distração ou inconsciência em um mergulho apnéico, pode fadá-lo a nunca voltar para a superfície.

Eu nunca me escondi de meus medos, sentimentos, angústias e depressões. Tentei me manter consciente em todas estas ‘viagens internas’, na tentativa camicase de sair delas: fortalecido, preparado, consciente, senhor de mim mesmo. É uma forma interessante de aperfeiçoamento pessoal, porém, lembre-se que em meio a tudo isso, estará o julgamento de quem não lhe conhece (e até de quem parece lhe conhecer), de quem enxerga apenas a superfície da escuridão de seu lago sentimental.

Este julgamento inevitavelmente virá daqueles quem possuem medo de enfrentar tudo aquilo que rejeitam. Por isso tentarão lhe colocar em uma posição afastada, classificando você de diferente, lunático, depressivo, melancólico e atormentado.

Indiferente do rótulo que vão lhe dar, como deram a mim, tudo não passa de uma busca desesperada de afastar de si mesmo, aquilo que acreditam não possuir.

Seu lado negro, seu lago negro, seu gelo negro…

O tempo do tempo…

Sempre que passo por aqui, sinto uma leve decepção. Passo dias sem escrever e fico imaginando a frustração de alguém que se dá ao trabalho de abrir uma página de internet, digitar o endereço do Gelo Negro e simplesmente não encontrar nada de novo para ler.

Ao mesmo tempo, tento entender que este blog, apesar de possuir uma forma muito dinâmica de comunicação, está vinculado a velocidade dos meus sentimentos, das minhas vivências, que definitivamente caminham a passos mais lentos. Tudo aqui é de verdade, nunca publiquei algo apenas para preencher espaço, para manter a rotina, porque de fato a vida não funciona deste jeito. Existem dias que você resolve um milhão coisas, em outros mal consegue sair da cama. Tem dias que você acha tudo possível, mas existe aqueles momentos em que parece que a humanidade não tem mais jeito e você até gostaria que a profecia de 2012 se cumprisse finalmente.

Não sei se você também sente isso. Talvez seja apenas eu. Quem sabe eu sofra de algum tipo de bipolarismo, porém prefiro acreditar que minha euforia intercalada com meus momentos de reclusão, seja apenas minha capacidade de reação, diante de uma realidade que não se altera com frequência. Ainda não descobri qual o meu normal, ainda não sei como equalizar isso tudo. Confesso que a vida se torna mais estranha a cada dia e vivo uma realidade atualmente, onde tenho consciência de que não sou a melhor companhia.

Não quero transformar este espaço em um depósito de mágoas. Quero vir aqui para dizer que apesar de tudo, ainda existe uma saída. Sempre existe.

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