Poderes Dominantes

Faz algum tempo que eu não escrevo, não significa que eu não tinha algo há dizer, eu até quis, fazer aquilo que sempre fiz, resumir dias de angustias em algum texto qualquer, na tentativa pouco eficaz de exorcismar sentimentos ruins. Posso garantir ainda assim, que quando eficaz para alguém, certamente não se tratavam de problemas relevantes.

Angústimas profundas não se desfazem no ar, apenas pelo ato de relatar este sofrimento em algum lugar qualquer. É bem provável que se a escrita tivesse esse poder expurgatório, pouco restaria para se falar da dor, da tristeza, da solidão. Pessoas que se sentem aliviadas após compor um texto, poderiam resolver seu problema com qualquer outra bobagem: um chocolate, uma viagem de férias, nada que o dinheiro não possa pagar.

Os fantasmas que assombram a minha mente, são certamente mais persistentes que isso. Não se vendem tão barato assim, não aceitam cheque e nem cartão de crédito. No fundo eu acredito que eles estão comigo desde que tive consciência da existência do sofrimento. Quase como uma catarse, você passa apenas a enxergar o que antes era apenas vulto e bruma.  Com o risco de parecer pessimista ou depressivo, os fantasmas que nos assombram, não aparecem, não passam a existir, são inerentes a natureza humana.

Situações que colocam nossa resistência em xeque, apenas arrancam da nossa consciência, aquilo que nos impedia de ver o todo. Numa espécie de camadas de véu, passamos a compensar nossos sofrimentos com uma capacidade mais apurada de enxergar com maior nitidez. A cada grande sofrimento, um véu cai, se desfaz. Quase como uma troca infinita de lentes, na busca constante de enxergar aquilo que no princípio é apenas percepção. Algumas pessoas trocarão muitas lentes ao longo de suas vidas, podendo entrever o sofrimento com muita clareza, em toda sua forma. Ainda assim, indiferente ao grau de nitidez que você é capaz de enxergar o estigma das mazelas humanas, de perceber o sofrimento alheio, mesmo que por vezes sutíl, a forma que você reage à esta consciência provavelmente trilhará seu destino.

A compreensão pode lhe servir de arma, outras vezes de escudo. Um escudo capaz de lhe esconder da verdade. Na falsa sensação de que aquilo que não podemos ver, não pode nos atingir. Ignorar o poder do mal, não faz ele deixar de existir. Ignorar o sofrimento do próximo, não eximi você de culpa. Escrever um texto não apaga a existência da dor. Você pode se tornar tolerante a ela, você pode até criar resistência, pode por outro lado, utilizar formas de anestesiá-la. Sob nenhuma hipótese poderá extingui-la , se quer malbaratar. Qualquer tentativa nesta direção só causará frustração.

Nos alimentamos da dor, da mesma forma que nos alimentamos da felicidade. Alguns mais, outros menos. Alguns convertem dor em determinação, outros em aceitação.

Os fantasmas responsáveis por todos os sentimentos ruins que possuímos, fazem parte da nossa existência. Cabe a cada um entender de que forma eles se manifestam. De que forma eles influenciam você. De que forma eles lutam contra você. Cabe a cada um aceitar o desafio da luta eterna, aceitando a derrota ou acreditando na vitória eminente.

Parece que ultimamente eles ganharam algumas batalhas de mim, mas continuo acreditando que todas estas derrotas, só preparam meu corpo e meu espírito para uma batalha maior. Deixam a pele mais grossa, o coração mais forte e os olhos mais atentos, rumo ao meu próprio Ragnarök.

J.R. Wills

Parênteses

Estava aqui pensando na vida, o que costumo fazer em grande parte do dia. Dormindo, sonhos e pesadelos atormentam, com desejos e frustrações. Por vezes sinto medo de enlouquecer ou pagar com saúde, física ou mental, pela incapacidade de desligar esse motor, girando a toda potência, que é minha mente. Os problemas de curto prazo que essa característica me traz, se traduzem em desatenção, desorganização e uma infinita incapacidade de lidar com o tempo.

É como se eu não tivesse a capacidade de acompanhar o compasso da vida, a marcação de tempo imaginária, que para a grande maioria parece tão comum e para mim, tão distante. Sempre fora do ritmo, sempre desajustado. Esse desajuste sempre foi classificado por preguiça, insolência, desrespeito e inúmeras outras classificações pejorativas.

Então olho para trás e lembro do primeiro emprego aos 14 anos e percebo uma incompatibilidade das realidades, a minha e a de todo o resto. Durmo pouco, trabalho muito, mas isso parece ser insuficiente para que a percepção de todas estas pessoas que me desaprovam, mude diante da minha verdadeira realidade. É normal que um dos objetivos da vida de qualquer ser, esteja na busca do reconhecimento. O meu no entanto, quando não totalmente inexistente, sempre vem acompanhado de uma vírgula, aposto, (parênteses), um mas, um porém, …, “aspas”.

Essas considerações que invariavelmente acompanham qualquer visão de qualidade minha, tendem a superar o seu poder e importância. A balança de prós e contras sempre pesa para o lado sombrio. O mais estranho em tudo, é imaginar que estes problemas se tornam gigantes por algo que poderia passar despercebido, mas transforma minha existência em algo perto do insignificante, tudo porque minha mente funciona em outro ritmo, que culpa eu tenho? Por este motivo sempre me senti o peixe fora d’água, a forma redonda no buraco quadrado, o desajustado, o incompreendido e consequentemente o rejeitado. Me sinto como um objeto que não passou na certificação, sem avaliação de reutilização, reaproveitamento, remanejamento ou reciclagem. Por não estar dentro das especificações, impostas pela maioria, sou simplesmente descartado para um depósito de resíduo social, que não possui tratamento e tão pouco utilidade.

É como não se sentir verdadeiramente humano, como se nunca pudesse fazer parte disto. Como em um filme de ficção científica onde a tecnologia não consegue reproduzir emoções humanas, o que traz diante da realidade inalterável, a percepção lógica da própria máquina, da limitação de sua existência, onde o tempo e a imortalidade perdem utilidade diante daquilo que nunca poderá reproduzir, o sentir, que sempre pareceu tão óbvio e simplório.

Então você percebe que não existe saída simples. Você pode desistir ou aprender a ser todo torpor, aceitando os aparentes benefícios da falta de terminações nervosas. Este dilema pode tomar grande parte do seu tempo, em uma dúvida que pode durar toda uma vida, procrastinando uma escolha, até o momento em que a própria vida faz a escolha por você.

Em uma realidade onde você só existem dois caminhos, sabendo que no final ambos se convergem, dirigindo para o mesmo ponto, parece que a escolha de fato já foi feita. Se você está vivo, lhe resta viver, um paradoxo do livre arbítrio. Seja com lamento e tristeza ou felicidade e leveza, o fim é igual para todos nós. É por isso que precisamos acreditar na existência divina, na continuidade da vida, para que a escolha do caminho mais longo, justifique não o fim, mas a continuidade, a plenitude, a eternidade.

Reclamar do hoje pode se revelar um equívoco quando de fato você desconhece o amanhã, que pode ser pior, revelando que sua reclamação antecipada era desimportante. O amanhã também pode ser melhor que o hoje, provando que o sofrimento antecipado foi ineficaz, o que me leva a presumir que a reclamação em ambas realidades é sempre ignorante.

Talvez um dia, tudo o que sinto agora, se mostre equivocado, até bastante provável, mas por enquanto, isto é só o que sei sentir. Espero entender melhor como cada realidade se configura, não apenas para compreender o olhar alheio, mas me salvar daquilo que eu deixei de ser em consequência de tudo isso, que hoje me afeta e limita.

J.R.Wills

Ironias

Sempre acreditei possuir a capacidade de fazer tudo aquilo que pudesse imaginar.
Usar todos os meus talentos e habilidades, e quando faltasse talento e habilidade,
compensaria com esforço e determinação, simples assim.
E enquanto olhava ao meu redor, imaginando grandes feitos,
dignos de serem retratados em um belo livro de capa bonita,
com viagens ao redor do mundo, aventuras e paixões avassaladoras,
fui pego de surpresa pela única situação que não fui capaz de imaginar.
Imaginar que tudo poderia não passar justamente de simples imaginação.
Sem mandar recado, a respiração ficou mais difícil, uma angústia no peito e
toda a habilidade à qual treinei habilidosa e meticulosamente minha imaginação,
para os tais feitos fantásticos, tiveram a mesma habilidade, veja você,
de gerar sentimentos de medo, inseguranção e fraqueza.

Sempre acreditei que usaria todo este talento para um dia,
escrever um romance que estaria entre os mais vendidos,
de alguma lista importante de livros mais vendidos.
E então percebi que sentimentos podem funcionar como uma doença auto-imune.
Uma batalha de imaginações passaram a perturbar meus dias e até as noites de sono.

Quem escolheu sentir demais está predestinado a viver a vida alheia.
Abnegando uma vida tranquila para ver em tudo e todos um problema a ser consertado.
Mesmo que minimamente, mesmo que a moldura e a pintura sejam perfeitos,
você ainda irá perceber que o quadro está torto em relação ao chão.
Uma tentativa inútil de ser o grande salvador, o exemplo, o mártir.
Deus, porque me deste tanta ignorância.
Como todo super poder, você não pode usa-lo em seu próprio benefício.
É o dilema de todo super-herói, mas na vida real, ninguém pode voar ou usar uma capa.
O mundo é redondo, não é? Se fosse para ser reto, linear, sem curvas,
ele já deveria ter sido feito em um formato diferente, não achas?
Talvez seja essa uma das principais ironias divinas.

Acredite em mim, não há glória no martírio.
Para cada nome que você aprendeu em algum livro,
milhões de martírios anônimos já povoaram este planeta.
Quando você se incomoda com o mundo e com as pessoas, é inevitável,
elas passarão a se incomodar com você também.
Vão encontrar em você uma deficiência, uma aberração,
algo que precisa de forma imediata, fria e inconsequente, ser expurgado.

Será que fica tão difícil de entender?
Enquanto você luta para mudar as pessoas e suas visões distorcidas,
você se coloca na zona de risco, no raio de atuação de sua própria destruição.
Qualquer tentativa de ajudar alguém, exige que seja você mesmo,
quem irá apertar o botão que detonará a catarse.
Você não confiaria tamanha responsabilidade a outra pessoa.

Também não ficaria de fora do melhor da festa.
Assistindo todas as mudanças no olho do furação, de camarote.
O incrível e decisivo momento onde uma idéia muda sua direção.
O que são homens-bomba se não, a concretização material,
da crença literal de todo este sentimentalismo idiota?
A materialização da idéia que será o martírio que trará a elevação do espírito.

Você também é filho de Deus, mas você não é Jesus Cristo.
Você não foi colocado neste mundo para morrer pelos outros.
E se caso você não tenha reparado, nem mesmo o martírio de Cristo,
morto na cruz em troca de um bandido sanguinário foi capaz de convencer à todos.

Outra ironia divina. Está ali, simples e direto, escondido nas entrelinhas,
das histórias que você ouve desde criança.
Jesus Cristo não morreu na cruz para que o mundo,
fosse coberto de paz e boa aventurança. A mensagem é clara:
‘Ninguém é capaz de mundar o mundo com seu martírio’.
Assim como Jesus Cristo, você será lembrado por alguns,
vai ser ignorado por outros, vai ser até ironizado por outros,
que transformarão tudo em chacota.
Ganharão dinheiro com as suas palavras.
E assinarão com seus nomes, lhe tirando até a última possibilidade
de receber algum tipo de crédito por tudo que fez.
Até um dia em que ninguém lembrará mais.
Era a missão dele, ninguém disse que era a sua.

Ninguém disse que era a minha.

J.R. Wills
Trovador Templário

 

 

Paz nos desaventos…

Sabe, há alguns anos escrevo aqui neste blog, mais precisamente desde novembro de 2006. Tento sempre trazer um pouco das coisas que eu gosto e que principalmente as quais me mantém vivo, que mantém minha lucidez, do meu jeito, torto talvez, mas foi o caminho que consegui trilhar. De fato, nada foi muito fácil para mim até hoje, minha vida é repleta de erros, lágrimas, tristezas profundas, mágoas, decepções, azares, seja lá qual nome podemos dar para os planos que dão errado. Vivo prometendo escrever um livro de todas as desventuras que enfrento, mas não sei o quanto sincero eu poderia ser, sem magoar algumas pessoas, sem que todos envolvidos saibam que trata-se apenas de pensamentos e lembranças.

Eu não sou nem de longe a pessoa que mais sofreu nesta vida, nem sei se minha história tem algo de realmente interessante para ser contado, passado adiante, eternizado em um livro. Talvez seja só desculpas para procratinar algo que não sei sua verdadeira importância, mas talvez o que mais me impede é que minha realidade não inspira o vislumbramento de um final feliz. Não é deste modo que todo livro deve acabar? Como diz a canção: ‘…se há sorte, eu não sei, nunca vi…’.

Eu não conheço as pessoas que acessam o blog todos os dias, mas me preocupo com cada um que chega até o blog, pelos caminhos mais diversos, buscando por tantas respostas, que talvez não encontrarão. Para ser totalmente sincero, eu nunca pensei em escrever um blog esperando que alguém tivesse interesse em ler, tento retribuir com uma dose de confiança, que paradoxalmente pareço ter tanto e tão pouco.

Você já se deparou com um momento em sua vida, em que você se pergunta porque está vivo? Sem conseguir encontrar algum motivo genuinamente válido. Ao mesmo tempo, teme encontrar uma razão a qualquer momento, justamente quando pode ser tarde demais. Algo como esperar tanto tempo pela felicidade que acaba esquecendo de viver com aquilo que a vida pode lhe dar. Queria apenas pensar menos em tudo isso,  ficar um pouco inerte, alheio, desligado, fora de área. Este não é um pensamento do Wills, ele pode nem fazer sentido, apenas queria pensar alto, escrevendo aqui um pouco das minhas inquietações, talvez assim minha cabeça pare de doer de tanto pensar, pensar e pensar, abrir um pouco de espaço.

Estou ouvindo uma música que acho muito bonita. Não sei exatamente o que ela tem de tão especial para mim. Me traz lembranças boas da infância. Da época em que acordava cedo, já que não precisa ir para a aula, aproveitava para assistir Globo Rural, vendo aquela vida que corria em uma velocidade diferente, de dias mais longos. De quem olha para o céu, de quem espera a chuva, de quem precisa de sol. Daqueles que precisam que a vida floreça para que a sua própria vida aconteça. Tudo aquilo que nos faz acreditar que existirá um dia melhor amanhã, de que a dor acaba e de que as lágrimas sempre secam.

Romaria

Renato Teixeira

É de sonho e de pó, o destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó, de gibeira o jiló,
dessa vida cumprida a só

Refrão
Sou caipira, Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

O meu pai foi peão, minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
Em busca de aventuras
Descasei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi

Refrão

Me disseram porém que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Coração de Lata

Hoje estava aqui, lendo alguns comentários deixados no blog, sempre carinhosos e delicados. Muitos com promessas de amizades ou ao menos algo que denote alguma empatia, o que geralmente é fator decisivo para que uma amizade aconteça. Estranhamente, o blog recebe uma média de 300 a 800 acessos diários e até hoje, não conheci ninguém que acessa o site, mesmo aqueles que deixaram seu recado.

Apesar de acalentar o espírito e nos trazer motivação de continuar escrevendo, é estranho pensar em tantas coisas que não acontecerão. As amizades que nunca existirão. Os elogios que serão para sempre, apenas elogios. Eu nunca me alimentei deles, aprendi a ser assim para nunca sentir fome. Para nunca viver de migalhas sentimentais que costumam sobrar em cima da mesa da vida.

Entenda com o seu sentimento mais puro, trocaria todos os 764 comentários escritos até hoje, por uma amizade que tivesse acontecido. Sempre me interessei por tudo e todos, se você olhar cada postagem deste site, elas tratam de assuntos completamente diferentes, todos os estilos musicais, todos os generos do cinema, sempre tentei falar para qualquer pessoa, nova, experiente, pobre, rica. Nunca me achei parte de um grupo e nessa inexistência de um lugar de conforto, escolhi por caminhar entre todos.

Meus preconceitos, se os tenho, não fazem distinção entre pessoas, das quais para mim, possuem o mesmo peso, tamanho, cor, valor e forma. Como diria Oscar Wilde: “a mim não interessa arquétipos, me interessam pupilas, o brilho no olhar, a bondade do coração”. O que me aquece o coração é um abraço forte. O que vale para mim é tudo que não se pode comprar, talvez porquê nunca pude comprar muitas coisas ou talvez seja simplesmente a constatação precoce de que nada verdadeiramente útil pode ter preço.

Enquanto o mundo inteiro se volta cada dia mais para as formas, principalmente corporais, para mim, tudo que é físico é fugaz. Hoje de um jeito, amanhã de outro. Para quem não se vale das aparências, o tempo é consequência e ensinamento. O que somos de fato, lá dentro, na alma e no coração, precisa mudar, não pode ser algo rígido, mas acredite, é inoxidável. Até um homem de lata sabia que um coração pode impedir que o seu corpo enferruje. A ferrugem que começa sempre de dentro para fora, autofágica, contamina a alma muito antes de se tornar aparente.

Sem conseguir entender as motivações, vejo a cada dia que relações aumentam em quantidade e superficialidade. Até aquele seu ídolo pode lhe responder uma pergunta na internet, mas ele nem faz idéia de quem você seja. Virou tudo tão instantâneo que 140 caracteres são suficientes. São? Para que? São suficientes para nos provar o quanto tudo é irrelevante. Nada que se diga em uma frase abreviada pode trazer algo significativo.

Relatamos o que fazemos porque não sabemos mais dizer o que queremos ser. Nossas intenções tortas vão nos desviando da possibilidade de dias melhores, dias mais humanos e menos divinos. Nos filmes de ficção, proféticos ou apenas análogos, perderemos a guerra para as máquinas, nossas mãos trocaram os lápis de cor, por teclas de computador, nossas ondas sonoras não são mais conduzidas pelo ar, são levadas por cabos. Trocamos as visitas por encontros em webcam, uma conversa rápida no msn.

Existe tão pouco de nós em tudo isso. Tudo que eu conheço de vocês são poucas letras digitadas. Por mais carinhosas que sejam, são apenas letras. Se for para ser digital, prefiro as dos seus dedos em um aperto de mão. Das emoções escritas prefiro um sorriso e um olhar amigo. Todos os 336 posts deste site, são o retrato de uma solidão que finjo não existir, criando nossas relações superficiais e momentâneas. Troco tudo por um piquenique e um pôr-de-sol.

J.R. Wills

Um homem chamado Almeida Junior

Blumenau

Em 1993, Blumenau era apenas uma cidade bonita, colonizada por alemães, sendo uma das mais importantes do Vale do itajaí e conhecida em todo país pela sua famosa Oktoberfest.

Há 18 anos, acredite, eu lembro deste momento com todos os detalhes, a sensação de entrar pela primeira vez naquele lugar, as cores, o sorriso das pessoas e até o cheiro daquela manhã de sábado. Eu estava no recém inaugurado Shopping Neumarkt. O mais ousado empreendimento que Santa Catarina havia visto até então. Ele me parecia muito maior do que é hoje, dizem que as crianças sentem isso quando crescem. Ele continua grande, mas era como se estivesse entrando em uma dessas histórias de aventura fantástica. Tudo era extremamente bonito e em grandes proporções. Quem me levou até lá foi meu tio Hilário, que nesta época era mecânico da Casa Royal, uma empresa que ficava a poucos metros dali.

Flávio

Sair da pequena cidade de Pomerode onde morava, para ir até Blumenau, era sempre um grande acontecimento, apesar de não existir muitos motivos para isso, além de médicos, colégios, o Pão de Açúcar e a rua XV.

Junto comigo e meu tio naquele dia especial, minha irmã, então com 13 anos. Naquele tempo não fazíamos nada sozinhos. Não sei explicar exatamente porquê, mas me senti muito bem, seguro, como se realmente estivesse em casa. Mal sabia o quanto o Neumarkt faria parte da minha vida a partir de então. Passei os últimos dezoito anos frequentando o shopping e vivendo dentro dele, todas as principais fases da minha vida. Com onze anos de idade, você não podia fazer muitas coisas naquela época. Meus pais não me deixavam ir sozinho na casa do vizinho, mas estranhamente me deixavam ir até ao shopping, em um ônibus inter-municipal, junto com outro amigo, o Flávio.

Pegávamos o ônibus das 9:30hs da manhã, que leva cerca de uma hora até Blumenau. Assim já encontrávamos o shopping aberto. Munidos de alguns tickets de vale-refeição dados pela tia do Flávio, que era bancária e bem de vida, comprávamos um único refrigente. Pretesto para serem obrigados a nos darem o troco em dinheiro. Em 1994 já existia o real e ganhávamos dois tickets de R$ 50,00, o que para a época, dava para divertir duas crianças de montão. Era diversão pelas próximas onze horas. Exatamente, passávamos o dia inteiro no shopping.

O roteiro era sempre o mesmo, na parte da manhã ficávamos jogando Mortal Kombat e Daytona, obviamente as fichas não duravam muito (a gente era meio ruim), então na maior parte do tempo olhávamos os outros jogarem mesmo. Almoçávamos um McLanche Feliz demoradamente para passar o tempo e depois eram duas sessões de cinema. Faziamos isso todos os sábados.

Lembro dos filmes como A Chave Mágica, Mortal Kombat, Flubber.

São Paulo

Meu pai era paulista e arrumava todos os tipos de pretextos para voltar à cidade que amava. O mais intrigante em suas viagens eram as histórias que ele trazia na volta. O ônibus de São Paulo que passava em Pomerode chegava no início da manhã. Eramos acordados pelo cheiro do café que trazia do Mercado Municipal. Quando o aroma inconfundível invadia toda a pequena casa de madeira que morávamos, era a certeza que ele estava de volta, em segurança, e nossos corações estavam aliviados novamente. Sempre achei que um dia perderia meu pai em uma dessas longas viagens.

Então certa vez, retornando de mais uma passagem pela terra da garoa, me contou sobre um homem muito importante chamado Jaimes Almeida Junior. Me explicou que se tratava de um empresário de São Paulo, que nada mais era, que proprietário daquele shopping que eu tanto gostava. Me disse que era um homem muito corajoso por ter acreditado em nossa região. E foi assim, diante da importância ressaltada pelo meu pai, na minha opinião o homem mais importante da minha vida, que eu jamais esqueceria aquele nome, apesar de não saber até hoje como ele é. Alimentei minha vida inteira uma grande admiração por aquele homem que meu pai dizia ser muito importante. Naquela época, o logo do Shopping Neumarkt não ostentava as ainda desconhecidas iniciais ‘AJ’, hoje um símbolo de empreendedorismo do setor.

Cinco anos se passaram desde aquele dia e decidi que queria estudar em Blumenau, achava que seria importante para mim, conviver com pessoas com a mente mais aberta do que aquelas que eu encontrava no meu colégio em Pomerode. Mas para isso eu precisava pagar as passagens, meu pai não gostava da idéia e muito menos poderia custeá-la. Ele sempre achou que eu sucumbiria a qualquer tipo de vício ou ato ilícito. Mas acredito que no fundo ele confiava na educação que me deu. Até aquele dia, minha vida se resumia a música e desenhos.

Crescendo

Meu pai então me disse que se eu queria ter o direito de estudar em um grande colégio, em outra cidade, teria que assumir outras responsabilidades. Ele conseguiu então uma vaga de emprego, em uma agência de propaganda. Isso mesmo, aos 15 anos eu já me aventurava por esse mundo. Eu gostava de desenhar, mas propaganda ainda era algo vago em minha mente. A intenção era conseguir uma independência dos meus pais e poder comprar meus próprios cds.

Foi no Neumarkt que eu vi o maior fenômeno dos cinemas mundiais e as espantosas filas para assistir ‘Titanic’. Eram tão absurdas, que toda forma de descrever a situação não seria justa o suficiente. Pessoas que nunca haviam colocado os pés em uma sala de cinema, foram arrastadas para assistir ao amor impossível entre Jack e Rose. A aposta era saber quem conseguiria sair do cinema sem chorar. Eram poucos.

No início de 200o eu perdi meu pai. Era um garoto enturmado, mas relacionamentos com garotas ainda era um bloqueio. Meu pai era bastante centralizador, o que me tornou um garoto bastante inseguro quando era necessário tomar certas decisões. E foi novamente lá, no Neumarkt, que dei um passo importante, rumo a aceitação do fato de que meu pai não estaria mais ali para me dizer o que era certo fazer.

Diante da perda da pessoa que decidiu todos os rumos da minha vida, eu sabia que eu teria que tomar coragem se quisesse me declarar para a menina que estudava em meu colégio, que também havia perdido um parente próximo, seu irmão e que naquele momento, ao meu ver, era a única que sabia realmente o que eu sentia.

Convidei ela para ir ao shopping, em um dia de aula cancelada, subimos até o então, recém inaugurado novo piso do shopping, onde haviam as novas salas de cinema e uma nova praça de alimentação. Sentei em uma das mesas, aleatoriamente, lembro de sentir as mãos trêmulas e não saber o que dizer, mas eu sabia em seu olhar que qualquer coisa que eu pudesse falar, seria o suficiente para o que ela queria ouvir de mim. Foi lá novametne que outra parte da história da minha vida se escrevia, meu primeiro beijo.

Aprendizados

Também descobri rapidamente o que é ter o coração partido, uma semana depois ela me trocava pelo ex-namorado, um cara mais velho, que tinha seu próprio carro, que trocou ela para sair com outra garota, se arrependeu da aventura e a pediu novamente em namoro. Bom, o que eu poderia esperar que ela fizesse? Eu era só um garoto idiota.

Durante os três anos do colégio, o shopping se tornou ainda mais importante para mim. Quando não tinha aula, o destino era certo, seguir a pé do Colégio Pedro II até o Neumarkt. O Pedro II passava por grandes problemas com professores, então digamos que frequentei muito o shopping naqueles anos. Tenho saudade de muitas coisas daquela época. A antiga Lojas Americanas, no formato que aprendemos a gostar dela: como um hipermercado. Havia também uma simpática lanchonete da própria Americanas na entrada. Sinto falta da equipada área de fliperamas, das primeiras salas do Cine 1 e 2. Que serviram de pretexto para ficar com algumas meninas.

O tempo passou novamente e continuei frequentando quase todas as semanas o shopping. Hoje quando penso nas mudanças que aquele lugar causou na minha vida e  de tantas outras pessoas, imagino como teria sido diferente a minha história sem ele. Acredito que seu nome,  tenha um significado mais especial: Neumarkt é uma palavra em alemão, que em português significa Mercado Novo. Naquele ano de 1993, foi traçado um rumo diferente para a vida de todos que por ali passaram.

Imagino tantas histórias que aquele shopping presenciou. Quantos namoros e casamentos começaram ali. Quantas pessoas se encontraram em seus corredores. Quantos sorrisos foram dados. Quantas amizades foram feitas. Quantos filmes foram assistidos. Quantas pessoas se alimentaram. Quanta história foi alterada pela atitude de uma pessoa, que desconhece a importância pessoal que indiretamente teve em nossos futuros.

Tudo isso jamais teria acontecido sem a interferência de um único homem. Um homem chamado Almeida Junior.

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