Antes de ti

Do seu amor sou mais uma vitima
Você me teve desde o primeiro dia.
E antes de saber como era sua voz,
já podia ouvir chamar meu nome.

Eu me deito para percorrer o caminho até você.
E ainda que não quisesse,
corri atrás deste amor,
como alguém que nunca se cansou.
Queria ser parte de um sonho seu,
para que fosse parte da sua realização.
Enquanto meu coração esteve ligado ao teu,
eu estava ao seu lado em qualquer lugar.

No silêncio eu podia te sentir aqui.
Quis desvendar o vazio que existe em ti.
Enquanto esperava que você ocupasse
o espaço que se abriu em mim.
Quando achei que estava só,
sua mão me acariciava.
Quando você ficou muda,
achei que se transformaria em flor.
E esse jardim que floresceu em mim,
esperava você voar até aqui.
Nada mais parecia real pra mim.

Mas eu já via o dia que você partiria.
E deixei que fosses nuvem,
que vai, a0 vento, se desfazendo no tempo.
Onde quer que estejas agora.
O que quer que sejas por hora,
Que encontres seu verdadeiro lugar.
Não mais como antes, dentro de mim.

E da tristeza que ficou,
tirei a lição para me curar,
entendendo que para nunca cair,
o importante é nunca parar.
De caminhar, de pensar, de se reinventar.

Meu coração antes cheio.
Tem agora o espaço que criei para você entrar.
Cada coisa já em seu lugar,
Me lembra que você esteve aqui.
Sou apenas mais uma vítima do amor.
Como tantos outros,
que você esqueceu de amar.

Nem seu adeus pode apagar.
Não sei como fazer para deixar.
Seu silêncio não me permitiu ficar.

Era mais fácil antes de ti.

A

A, ela, mulher.
Quando não, menina.
Feminina porém, sempre.
Ela é assim, delicada.
Na boca.
Na voz.
Na pele.
No toque da mão.
Podia ser Sol, preferiu ser a Lua.
No vento se tornou a brisa.
No mar se tornou a onda.
No céu se tornou a nuvem.
No temporal se tornou a tempestade.
Jamais poderia ser algo que não comece com a letra ‘a’.
No sorriso se tornou a risada.
No choro se tornou a lágrima.
No sofrimento se tornou a dor.
No amor se tornou a paixão.
No sempre se tornou a eternidade.
No desejo se tornou a excitação.
Porque ela só sabe ser A,
Só sabe ser ELA,
Só lhe resta ser MULHER.

J.R. Wills

Publicado originalmente em: 9 de abril de 2009 às 4:38

Contra Corrente

Eu sempre fui uma pessoa de grandes certezas e por elas sempre me senti alguém preparado, definido, preciso. Nunca acreditei que poderia encontrar algum desvio no caminho, ao menos nada ao ponto de me desviar significativamente do objetivo principal. Com o passar do tempo e de todas as variáveis que a vida fez questão de me apresentar, forçadamente, comecei a entender a ineficácia de ter aquilo que muitos chamariam de personalidade forte.

Em geral, a rigidez que por um lado traz a resistência, por outro traz a imobilidade, poucas vezes é previsível saber qual qualidade seria mais importante: força de resistência ou agilidade de adaptação.  Os últimos doze anos da minha vida tem sido marcados por inúmeras provações e uma inconstante e provavelmente infindável necessidade de mudança e resiliente adaptabilidade.

Seguir mudando para poder seguir.

Pra lembrar…

Esqueco pra lembrar.
Estranhamente existe, acredite,
coerência no ilogismo.
Serei dialético.

Esquecer é preciso, para recordar de algo que
a consciência nos impediu de lembrar.

Esqueço por exemplo,
das ofenças que me fizeram,
pra lembrar que existem gentilezas.

Esqueço das minhas falhas,
não por descaso,
apenas pra lembrar que existe
um jeito certo.

Tudo que nos parece tão errado,
possui de forma não clara e ainda
não explicada precisamente,
grande capacidade de reverberação e por isso,
tem efeito purificador dos sentidos e da mente,
essencialmente catártico.

Esqueço também de todos os olhares de desdem,
com a tentativa de diminuir meu espírito,
pra lembrar então, dos valores que levo comigo.

Esqueço dos maus e inconsequentes,
assim lembro daqueles que acreditam na bondade,
na compaixão e na nobreza de espírito.

Esqueço das promessas não cumpridas,
pra lembrar que promessas foram feitas,
para nunca serem quebradas.

Esqueço de todas as lágrimas que lhe causei,
pra lembrar do quanto é lindo seu sorriso.

Esqueço das mágoas que lhe fiz,
imaginando assim, lembrar porquê
me escolheu para ficar ao seu lado.

Esqueci das pessoas que já amei,
pra lembrar que meu coração,
poderia se apaixonar novamente.

Esqueço das vezes que meu coração foi partido,
acredite, não foram poucas, não pergunte quantas, esqueci.
Somente pra lembrar que encontraria alguém que quisesse respeitá-lo.

Esqueço por vezes dos erros do passado,
pra lembrar que não importa o que se faça,
sempre há tempo para se arrepender,
olhar para frente e escrever páginas mais sinceras.

Esqueci tudo o que eu gostaria de lhe dizer agora,
talvez seja uma reação involuntária,
pra que eu possa lembrar,
de sempre lhe dizer alguma coisa.

Assim terei tempo de esquecer o que lhe disse antes,
para lhe aconselhar algo totalmente diferente.
Talvez lembre você, de nunca esquecer.

Como garantia, escreverei num canto de jornal.
Só pra lembrar…
E não esquecer…

de mim.

Escrito por J.R. Wills
Ilustração por Cameron S. Reutzel

 

Pudores

Os últimos dias estive longe do Gelo Negro, me espanto quando conto os dias e percebo que passou uma semana. Tenho me dedicado a mim um pouco. Como já disse aqui, por algumas vezes, eu sou diretor de arte, na verdade não sou diretor de nada, sou um criador apenas, buscando a cada dia encontrar uma forma para sobreviver disso. Neste tempo, passei a olhar um pouco mais para dentro de mim e para fora também. Olhar minha vida, tentar entender o que aconteceu até aqui, em meus vinte e nove anos de vida. É estranho como tudo me parece tão confuso.

Recebi um convite, muito generoso, de uma estudante de São Paulo (sou de SC), para participar de um documentário que ela está produzindo, para seu curso de Relações Internacionais. Aceitei o convite, mesmo com todos os pudores que eu sabia que teria que superar. Achei interessante a definição de ‘pudor’ do dicionário:

Talvez seja esta, a principal preocupação. É estranho você aceitar fazer parte de algo que fale de você, sem que isso afete seu sentimento de modéstia, sua vontade de ser muito menos significativo do que sua obra. Talvez eu tenha aceitado o desafio de me confrontar com meus receios, por saber, mesmo que de forma inconsciente, que isso me levaria por novos caminhos, abrindo novos horizontes. Nossa fé inoscente de que tudo que é novo, tem o poder de modificar o status quo. Incrivelmente uma nova perspectiva se abriu. Larissa, a até então desconhecida estudante paulista, estranhamente interessada em saber da minha vida, da minha relação com a arte, das minhas opiniões sobre estes assuntos, queria saber tudo o que nunca me foi questionado. Ninguém até hoje, havia tentado encontrar alguma relevância nas coisas que eu faço.

Venho aqui de tempos em tempos, colocar em textos os sentimentos que invento, das vivências que eu tenho, movidos pelas experiências que me acontecem, mas no fundo eu não sei para quem eu escrevo e pouco sei sobre a relevância daquilo que faço. É humano deixar reverberar por mais tempo e de forma mais intensa, as críticas mais contundentes. Em algum grau lógico, me parece dois lados de uma balança. Quem muito se importa com elogios, acaba por se envaidecer. O caminho da vaidade, é certamente o que esconde mais perigos, ao mesmo tempo que ele te traz confiança e se torna propulsor de seu próprio destino, você facilmente pode perder o controle da direção, fazendo seu caminho desviar por completo.

Em contrapartida, se importar com as críticas e desacreditar de si mesmo, criar uma incapacidade muitas vezes engessante. A vida é definitivamente complexa. Sabemos que o melhor caminho nisso tudo, é seguir o equilíbrio, o ecletismo, o problema é saber em que ponto do espaço e da mente ele está. Diante de críticas, elogios e nossas próprias convicções, perdemos facilmente o referencial, usamos uma bússula de vida, completamente sem norte, pouco confiável e pouco precisa. Me parece mais aceitável, uma combinação homogênea entre percepção, vigilância e sorte.

Parte do vôo é orientado por ventos que nunca sabemos para onde soprarão. Nestes últimos dias, a Larissa passou a ler, grande parte de tudo que escrevi aqui. Levantou dúvidas sobre mim que eu não soube explicar, lembrou de momentos que eu havia esquecido e me despertou um sentimento interno de estranheza. Será que eu me perdi entre as histórias que vivenciei e as que eu inventei? Enquanto tentava responder suas perguntas, tentava na verdade responder para mim mesmo: Afinal, quem é você?

Designo Divino

Hoje estava aqui, assistindo mais um vídeo, entre tantos outros com alguma história emocionante.  Repleto de clichés como: ‘Seu exemplo de vida nos faz perceber como nossos problemas são pequenos’. Tente ler cada frase deste texto com prudência. Talvez um caso emblemático seja o de Susan Boyle, uma jovem senhora de 48 anos, desempregada e solitária, que tem como única companhia um gato chamado Peebles. Susan nunca casou, na verdade nunca beijou ninguém. Susan vive na pequena cidade de Blackburn, Escócia. A aparência um pouco descuidada e a avançada idade diante da média dos participantes do programa ‘Britain’s Got Talent’ forçou uma baixa expectativa dos jurados, que se viram diante de uma atitude preconceituosa, quebrada pelo ‘inesperado talento de Susan’.

Após a gigantesca repercussão mundial, inúmeras outras histórias passaram a aparecer no mesmo programa e em outros do mesmo segmento. Mas não precisamos ir até o Reino Unido para encontrar outros programas que de certa forma, exploram algumas histórias comoventes. Seja na reconstrução de uma casa, a reforma de um carro ou na própria aparência física, estamos cercados de exemplos por todos os lados.

Compadecer do próximo, de uma vida que agoniza diante da sua, está muito longe de ser algo elogiável. É notório que a indiferença diante da dor alheia é um ato de indolência, o que não tranforma o seu oposto em ideal. Na realidade, a compaixão que necessita de exemplo, denota uma personalidade ignóbil.

Toda vez que vejo uma história como esta, de alguém pobre, atrás de um sonho aparentemente impossível, agradecendo apresentadores de tv por seus corações generosos, sempre me pego fazendo uma reflexão sobre essa realidade. Luciano Huck é um dos apresentadores que mais explora essas histórias. Segundo ele, histórias de vida o fascinam. E ele até se considera um caçador de belas histórias de vida. Talvez ignore ou seja apenas parte do show, fingir que cada uma delas, se trata de um grande achado, coisa do destino, designo de Deus.

Na realidade, a cada esquina, em cada bairro, de qualquer cidade do país, milhares de outras histórias iguais ou mais dramáticas, aumentam um estatística ignorada, negligenciada.  Agora mesmo, alguém próximo, um amigo, um familiar ou até mesmo você, poderia me contar uma história de luta e provações. Das contas que sobram no final do mês, da comida que faltou na mesa, dos sonhos frustados, do diagnóstico médico, da perda de alguém próximo, da falta de dignidade. Ao contrário da visão torpe de quem não conhece o sofrimento, agora, neste exato instante, alguém está morrendo, alguém está sofrendo, alguém sente falta, alguém sente fome, alguém sente a dor daquilo que não pode ter. Você não precisa presenciar o sofrimento esfregado na sua cara, para ter a certeza que a todo momento, o mundo torto que criamos, faz mais uma vítima do nosso descaso, da nossa capacidade de nos sentir tão distante do problema que não é nosso.

Definitivamente, não existe nenhuma atitude altruísta. Mesmo que você tende encontrar uma forma de contrariar essa afirmação, buscamos em todas as nossas atitudes de benevolência, algum tipo de compensação, de mérito, de reconhecimento. Nem mesmo que seja apenas para nos sentirmos diferente diante do habitual, afirmarmos nossa nobreza de espírito. Ah, que revigorante uma atitude de honestidade. Somente a impercepção das consequências pode tornar um ato legitimamente altruísta, o que nos coloca em um paradoxo: Podemos chamar o acaso de altruísmo?

Se você recordar do filme ‘Forrest Gump’, baseado no romance homônimo escrito em 1986 por Winston Groom, poderá confirmar essa possibilidade. De todas as histórias que Forrest conta sobre sua vida, para diferentes pessoas que sentam ao seu lado em um ponto de ônibus, independente das consequências positivas e generosas, ele não era capaz de entender sua parcela de contribuição ou talvez não era capaz de identificar mérito em qualquer uma delas. Para ele, a vida era vivida apenas porque assim deveria ser. Ajudar uma pessoa, era a única atitude a se tomar, sem julgamentos entre certo ou errado. Apenas deveria ser assim, pois este foi o ensinamento de sua mãe. Para ignorar a bondade, ignorava também a maldade. O preço de não ter ódio dentro de si, salvo em breves momentos, o impedia de entender de forma concreta, o que era o amor.

A compaixão deveria ser, por excelência, o usual, o óbvio. Toda vez que nos chama a atenção uma atitude de bondade, é preciso entender que algo está na contramão. Nos tornamos indiferentes ao sofrimento e nos orgulhamos do que deveria ser apenas rotina. Não é.

Meu querido Luciano Huck, que representa tantos outros casos semelhantes. Você não é bondoso. Você não é sensível. Ao contrário de tudo aquilo que o dinheiro pode lhe comprar em vida, pouco ou nada pode lhe comprar no céu. Se você acredita que as poucas histórias de vida que você conta, lhe transformam em uma pessoa melhor, saiba que está na hora de baixar os vidros blindados e olhar mais para os lados. Quem sabe trocar um helicóptero por uma ajuda mais substancial. Quem sabe tentar de alguma forma, ajudar alguém, sem que isso se torne uma matéria para a televisão, nem um tweet no seu iPhone. Não sofrem apenas as pessoas que você tão generosamente conserta um carro sem garagem ou uma casa financiada por patrocinadores, sofre toda a humanidade. Você está na área vip mas, apesar do que possa parecer, não existe nenhum mérito.

‘I dreamed that God would be forgiving’

 

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