Eu

Sempre acreditei que as respostas para todos os questionamentos que podemos fazer sobre a vida, sobre nossos propósitos, nossas escolhas, as consequências, nosso destino, nossa missão, enfim, essa conjuntura de fatos que amontoados formam nossa história, já nasce dentro de nós. Apesar de todas as experiências coletivas e sociais, um mundo muito particular existe em cada ser. Independente do quanto você se preocupe com o próximo, independente das filiações que você adquire automaticamente ao nascer em uma família, ao entrar em uma escola ou ingressar em um trabalho ou qualquer outro grupo de convivência, mesmo com a tentativa de entender o outro ou a própria humanidade, tudo faz parte do mecanismo de entendimento próprio.

Desvendar a si mesmo, entender as próprias fragilidades, desenvolver suas aptidões, encontrar o equilíbrio próprio, buscar aquilo que nos faz feliz de forma particular é a única maneira de entender os mistérios da vida e da própria morte. Este intervalo do nascimento e a consciência da finitude nos coloca em caráter de urgência, de alerta, de necessidade. na busca por preencher da maneira mais intensa e proveitosa estes keyframes. Encontrar o tempo certo de cada acontecimento. Saber dosar expectativas.

Nos últimos seis meses aproximadamente, tenho me encontrado muito comigo mesmo. Uma experiência que me revelou escolhas erradas, denotou minha falta de coragem, escancarou as consequências, das quais algumas impossíveis de reparo. Ao fechar algumas portas da sua vida, parte delas nunca mais voltam a se abrir, não há como voltar atrás, não existe a possibilidade de arrependimento. Apenas a aceitação de que passou e assim permanecerá.

E se acreditei por tanto tempo que é dentro de nós que residem problemas e soluções, comprovei ao longo destes solitários dias a sua veracidade. Por alguns momentos desejei o silêncio e a solidão, para necessariamente me concentrar nesta minha busca pessoal por aquilo que eu pensei que seria, por aquilo que realmente me tornei e a tentativa de me transformar no que de fato deveria ser. Passaram-se as primeiras noites, as primeiras semanas, alguns meses e a constatação inquietante de que pouco representamos dentro da coletividade, dentro das relações interpessoais. Somos definitivamente sopro, pó, poeira de estrela, somos conto, somos esquecimento, somos fragilidade, somos passado, somos insignificância, passamos despercebidos e quando alguém nota a falta, já foi, não existe. Somos? Não, sou. Eu sei que sou, pois eu descobri isso sobre mim.

Na minha solidão e silêncio, neste distanciamento coletivo, estranhamente encontrei minha relevância própria. A cada momento que passa, preciso mais de mim e menos dos outros. A cada momento espero menos, a instante quero menos, a cada passo aceito mais. Nada e nem ninguém me completa, são todos apenas gatilhos que disparam verdades dentro de mim. Chaves que abrem portas e gavetas que estavam trancadas dentro de mim, que guardam segredos somente meus.

Foi na solidão e no silêncio que encontrei e ouvi alguém gritando por ajuda. Estendi a mim, uma mão. Uma tentativa de salvar o que restou daquilo que eu queria ter sido.

J.R.Wills

Awakening

awakening-jrwills

Por vezes tenho a nítida sensação de que a cada vazio que tento preencher com palavras, torno-me cada vez mais solitário, oco e fragmentado. Levam mais de mim do que costumam me deixar. Em geral levam até o que trouxeram, sobrando apenas a lembrança do que perdi, de mim e dela.

Nesta troca sentimental em desequilíbrio me transformou em personagem. A placidez, a generosidade, a serenidade, o jeito calmo, que de forma mais jocosa poderia ser definido como ‘mosca morta’, revelam a minha própria transformação em um ser inanimado, torpor de mim.

Passei a existir como imaginário, me materializo em fantasias fugazes, me desfaço em um piscar de olhos. Sou o sonho bom que você lembra vagamente ao acordar e esquece por completo antes do próximo dia chegar. Você desperta, esquece e volta a viver seu cotidiano normal, sem graça, porém palpável.

Sou liberdade poética. Sou miragem. Sou improvável. Sou utopia. Sou conto. Sou fábula. Sou mentira conveniente.

Sou a história perfeita com o personagem errado. Sou aquele que você sonha e materializa em outro.

J.R. Wills

Breve

Eu estarei aqui por pouco tempo.
Entrarei em sua vida e lhe deixarei confusa.
Causarei questionamentos que você não havia se feito.
No início você desenvolverá uma certa admiração.
Um encantamento arrebatador pela minha capacidade de persuasão.
Porém, tudo irá se desfazer quando enfim, mostrar a que vim.
Vim para tirar você do seu estado normal.
Para lhe colocar em desconforto.
Para te empurrar adiante.
Automaticamente, o encantamento se desfará.
Você passará a rejeitar a minha presença.
Eu vou insistir ainda assim, vou abrir o jogo.
Direi verdades inconvenientes,
tocarei em assuntos que você não quer lidar.
Vou iluminar a sua sombra lhe causando
um desagradável constrangimento.
E quando você passar a me odiar por isso,
eu partirei de sua vida.
Mas ainda que ausente,
as sementes que espalhei,
germinarão.
E sem que você perceba,
parte de mim terá ficado ali.
O tempo passará.
A história se repetirá.
Até que um dia, não sobre nada de mim para dividir.
Porém, dos mil pedaços que me partirei,
mil realidades afetarei.
E assim me desfaço em cada uma.
Até não existir mais nada.
Eu não estarei aqui por muito tempo,
mas as sementes, espalhadas e germinadas,
se abrirão em flores e perfume,
lembrando que eu já passei por aqui,
e esta pequena parte de mim se perpetuará em você.
E assim vou eternizando minha brevidade.

J.R.Wills

Conjunto vazio

holding-hands

Em certos momentos de sua vida, fica difícil explicar ou entender como acontecimentos se costuram diante do tempo. Aquilo que você gostaria que fosse diferente resolve deixar de existir, sem que alguém lhe peça permissão de lhe tirar algo tão precioso. E por mais que você busque não pensar, está em todos os lugares. No rosto de qualquer pessoa, no gesto de um estranho, no roteiro de um filme qualquer, na letra de uma canção que nem fazia tanto sentido no passado.

Aceitar o fim quando ele lhe é imposto e não uma escolha, causa um sofrimento diferente. Uma sensação incontrolável de sufocamento, desespero, incapacidade, anulação. Impossível não lembrar tudo que passou, os sonhos desfeitos, o futuro que não acontecerá, o tempo perdido. Perdido não no sentido de não ter valido a pena, mas de não ter terminado como deveria ou ao menos como se imagina que deveria terminar. Fica tudo assim, pela metade, inconclusivo, confuso, estranho. Então você se vê só, de uma forma que não havia planejado, sentindo coisas que não esperava sentir.

Alguns resumiriam de forma rasa como orgulho ferido. Outros dizem que é apenas a dificuldade de aceitar o fim. Para mim, a tristeza que me faz companhia a todo momento tem muito mais que isso. Tem tudo aquilo que nunca mais será, tudo que não foi, mas que dentro de mim já existia. Nunca, parece uma palavra forte demais. O tempo é tão longo para dizer ‘nunca mais’, porém existe algo imutável, algo que o tempo não apagará. A sensação da troca, de ser classificado como algo sem importância, de ser rebaixado a algo menor e indivisivelmente saber que perdeu valor, passou da validade, expirou o prazo.

Não sei mais,  quanto isso diz sobre o amor perdido ou sobre a parte de mim que deixou de existir juntamente. Temos que nos adaptar as perdas, mas neste momento é difícil viver sendo metade, sendo sobra. Para muitas coisas, a metade não é suficiente para funcionar corretamente. Um coração partido ao meio não bate pela metade, simplesmente não bate.

A Deriva

Os dias vão passando e dentro de mim cresce um oceano incongruente. Nenhuma rota a seguir e muito menos desconheço onde vim parar. Não importa para onde olhe, o horizonte me aprisiona no infinito de todas as suas imprevisões e incertezas. Completamente à deriva, me sinto solitário como poucas vezes, como nunca. Temo que a situação seja ainda mais complicada do que já se apresenta.

Acordo e durmo sem saber da hora. Passam os dias sem saber quais são, quantos foram. O ‘qualquer lugar’ se torna ‘lugar algum’. A ‘liberdade’ se torna ‘prisão’. O ‘infinito’ decreta ‘fim’. Quanto lamento e desespero inútil. Ninguém ouve gritos diante da realidade que soa como sussuros. A vida é, se não, uma provação constante, não importa quantas soluções você procure, novas dificuldades e  dilemas aparecerão como algo eterno e constante. No mar da nossa vida, problemas vem em ondas. Ainda que possamos passar por um momento de calmaria, sabemos que o silêncio precede o estouro, como a calmaria precede a tempestade.

Dizem que a única certeza que temos é a morte, tola ilusão. Se há certeza é que a vida não é lógica, é desforme, não respeita previsões e muito menos se importa com planos. Seu papel é nos manter ocupado em seus truques e ardilosidades. Pouco importa as peças do tabuleiro, pouco importa o adversário, pouco importa suas jogadas e estratégias. Ela apenas lhe envolve na sua artimanha de conflitos infinitos e recorrentes.

O sofrimento não é amenizável, muito menos evitável. Não importa qual sejam suas escolhas, você pagará o preço por elas. Os valores variam, mas a conta sempre chega. É exatamente aqui onde me encontro, no meio do nada que resolvi descobri que não sou ninguém, só mais um, mero qualquer. E quando percebo o passado, vejo que nunca fui importante para ninguém em motivações relevantes. Quem nasceu para ser um estepe sempre o será. Você substitui a peça avariada ou ausente por um tempo e logo volta a ser estepe. Por isso geralmente não combina com as outras peças, para que você não esqueça que você é apenas uma solução temporária.

A vida neste seu jogo sarcástico, costuma colocar em pequenas caixas, partes de nossas vidas e personalidade que desconhecemos. De repente, apenas por deleite ela lhe entrega a chave que abre alguma delas. Em forma de catarse, você vê diante de seus olhos, um padrão estabelecido. Uma repetição cíclica, geralmente denotando uma fragilidade até então ignorada. Você passa a perceber em infinitos momentos de sua tragetória, que você sempre foi apenas a falta de escolha, o mal necessário, o genérico, o disponível para o momento.

Nem sei quando isso começou, mas sei que quanto mais você cava, constata o quão profundamente esta realidade está enraizada dentro da sua história. É difícil aceitar que  você sempre foi a segunda opção. Quem sabe ainda a falta dela. Essa mania de bom samaritano, essa pose de bom moço, essa mania de ser amigo. É extremamente desesperador olhar para seu passado e perceber que você foi apenas consequência. Que você tapou buracos e vazios.

Sou uma triste, vergonhosa e patética peça sobressalente. Sou o protótipo, sirvo de molde. Não faço parte de nada, de ninguém ou coisa alguma. Sou a parte descartável, o refugo.

J.R. Wills

Incongruências do Coração

francine-gelo-negroMe arrisco a dizer sem temer o erro, que o amor é sem dúvida a ciência mais inexata conhecida. Inevitavelmente as pessoas não entendem as razões do coração, que se mostra cada dia mais inadequado e pouco harmônico em suas convicções. Somos vítimas de nossas conclusões equivocadas. Os motivos que nos aproximam de alguma pessoa, ainda que tivéssemos personalidades e intenções inertes ao longo da vida, se mostrariam pouco úteis a longo prazo. Em resumo, o que nos une hoje, nos separa no futuro e a recíproca se mostra verdadeira. O que repele pessoas hoje, fará falta no futuro.

Por isso tantos relacionamentos tomam rumos tão diferentes daquilo que eram no início. Por isso o amor parece virar ódio. Que fique claro, isso não é uma teoria de que devemos nos envolver com pessoas que nos desentendemos desde o início, para a coisa melhorar do meio para o final. Em geral, pessoas que brigam no início continuarão brigando ao longo do tempo de relacionamento. O que acredito ser fato é que as características importantes e relevantes no início do relacionamento, não são os mesmos no decorrer da vida.

Some a isto o tesão, que costuma limitar nosso campo de visão e deixar características decisivas em uma zona de desfoque. Por isso os cafajestes são grandes amantes e péssimos maridos. Como se não bastasse o comprometimento lógico sofrido pela tentação inicial, temos que lembrar das mudanças pessoais que cada parte sofre ao longo do tempo. Mudanças no relacionamento, causados pela rotina e mudanças pessoais, causadas pelas experiências de cada indivíduo, que necessariamente é diferente em cada ser. Ainda que ambos vivenciem a mesma vida, a mesma rotina, a resultante é individual e única. O que pode gerar uma desconexão com o outro. Passam a ver a vida de maneira diferente, muitas vezes conflitante.

Então o relacionamento enfim chega a uma encruzilhada decisiva. Tentar recriar uma motivação para um motivo novo para se amar a mesma pessoa, viver em um relacionamento de comodidade e nenhuma relação afetiva ou decidir pela separação e a busca de uma nova história. História que sofrerá todas as dificuldades encontradas em qualquer outra, amenizadas e muitas vezes ignorada pela comparação do novo com o velho ou ainda a esperança vã de que aprendemos como se constrói uma relação melhor, evitando os erros anteriores, evitando a rotina, evitando as brigas, as ofensas.

O fato é que não importa o quanto mudamos, vamos recorrer em outros erros. Além de tudo, cada ação possui necessariamente uma reação, que é diferente em cada ser. Portanto, pouco da relação anterior será útil na nova. Parece uma equação sem resolução e de fato é. Todo este cenário desconexo, ainda não inclui aqueles que mentem, que fingem ser, que manipulam e acabam machucando a todos que se entregam de verdade.

Para transformar tudo em algo mais infundado é preciso acreditar, fazer planos, se entregar, criar expectativas, o que inevitavelmente nos traz decepções. E se tudo desse certo, você poderia encontrar a pessoa certa, no momento errado. Seu, dela ou de ambos. Sempre disse isso, não queira encontrar lógica no ilogismo. Não queira estatizar sentimentos e pessoas. Não busca encontrar receita para aquilo que costuma desandar ainda que com ingredientes e medidas certas. Talvez essa instabilidade sentimental que vivemos, seja a regra normal imposta e necessária para o amor acontecer. Talvez ele sempre foi assim e o único erro que cometemos, que torna essa fórmula inexata é a tentativa de eternizar o que necessariamente é passageiro. Independente do tempo de sua passagem. O amor é intensidade e duração. A altura pode determinar a distância percorrida ou apenas o tamanho do tombo.

A vida é um desencontro de tempo e o amor é consequência desta desordem. Buscamos o eterno e esquecemos que até mesmo nós somos fim.

Texto: J.R. Wills – Foto: Jeff Skas

Previous Posts Next Posts