A Deriva
abril 17th, 2013 by Jeff, under para sempre.... No Comments
Os dias vão passando e dentro de mim cresce um oceano incongruente. Nenhuma rota a seguir e muito menos desconheço onde vim parar. Não importa para onde olhe, o horizonte me aprisiona no infinito de todas as suas imprevisões e incertezas. Completamente à deriva, me sinto solitário como poucas vezes, como nunca. Temo que a situação seja ainda mais complicada do que já se apresenta.
Acordo e durmo sem saber da hora. Passam os dias sem saber quais são, quantos foram. O ‘qualquer lugar’ se torna ‘lugar algum’. A ‘liberdade’ se torna ‘prisão’. O ‘infinito’ decreta ‘fim’. Quanto lamento e desespero inútil. Ninguém ouve gritos diante da realidade que soa como sussuros. A vida é, se não, uma provação constante, não importa quantas soluções você procure, novas dificuldades e dilemas aparecerão como algo eterno e constante. No mar da nossa vida, problemas vem em ondas. Ainda que possamos passar por um momento de calmaria, sabemos que o silêncio precede o estouro, como a calmaria precede a tempestade.
Dizem que a única certeza que temos é a morte, tola ilusão. Se há certeza é que a vida não é lógica, é desforme, não respeita previsões e muito menos se importa com planos. Seu papel é nos manter ocupado em seus truques e ardilosidades. Pouco importa as peças do tabuleiro, pouco importa o adversário, pouco importa suas jogadas e estratégias. Ela apenas lhe envolve na sua artimanha de conflitos infinitos e recorrentes.
O sofrimento não é amenizável, muito menos evitável. Não importa qual sejam suas escolhas, você pagará o preço por elas. Os valores variam, mas a conta sempre chega. É exatamente aqui onde me encontro, no meio do nada que resolvi descobri que não sou ninguém, só mais um, mero qualquer. E quando percebo o passado, vejo que nunca fui importante para ninguém em motivações relevantes. Quem nasceu para ser um estepe sempre o será. Você substitui a peça avariada ou ausente por um tempo e logo volta a ser estepe. Por isso geralmente não combina com as outras peças, para que você não esqueça que você é apenas uma solução temporária.
A vida neste seu jogo sarcástico, costuma colocar em pequenas caixas, partes de nossas vidas e personalidade que desconhecemos. De repente, apenas por deleite ela lhe entrega a chave que abre alguma delas. Em forma de catarse, você vê diante de seus olhos, um padrão estabelecido. Uma repetição cíclica, geralmente denotando uma fragilidade até então ignorada. Você passa a perceber em infinitos momentos de sua tragetória, que você sempre foi apenas a falta de escolha, o mal necessário, o genérico, o disponível para o momento.
Nem sei quando isso começou, mas sei que quanto mais você cava, constata o quão profundamente esta realidade está enraizada dentro da sua história. É difícil aceitar que você sempre foi a segunda opção. Quem sabe ainda a falta dela. Essa mania de bom samaritano, essa pose de bom moço, essa mania de ser amigo. É extremamente desesperador olhar para seu passado e perceber que você foi apenas consequência. Que você tapou buracos e vazios.
Sou uma triste, vergonhosa e patética peça sobressalente. Sou o protótipo, sirvo de molde. Não faço parte de nada, de ninguém ou coisa alguma. Sou a parte descartável, o refugo.
J.R. Wills
Incongruências do Coração
abril 3rd, 2013 by Jeff, under para sempre..., pensamentos, trovador templario. No Comments
Me arrisco a dizer sem temer o erro, que o amor é sem dúvida a ciência mais inexata conhecida. Inevitavelmente as pessoas não entendem as razões do coração, que se mostra cada dia mais inadequado e pouco harmônico em suas convicções. Somos vítimas de nossas conclusões equivocadas. Os motivos que nos aproximam de alguma pessoa, ainda que tivéssemos personalidades e intenções inertes ao longo da vida, se mostrariam pouco úteis a longo prazo. Em resumo, o que nos une hoje, nos separa no futuro e a recíproca se mostra verdadeira. O que repele pessoas hoje, fará falta no futuro.
Por isso tantos relacionamentos tomam rumos tão diferentes daquilo que eram no início. Por isso o amor parece virar ódio. Que fique claro, isso não é uma teoria de que devemos nos envolver com pessoas que nos desentendemos desde o início, para a coisa melhorar do meio para o final. Em geral, pessoas que brigam no início continuarão brigando ao longo do tempo de relacionamento. O que acredito ser fato é que as características importantes e relevantes no início do relacionamento, não são os mesmos no decorrer da vida.
Some a isto o tesão, que costuma limitar nosso campo de visão e deixar características decisivas em uma zona de desfoque. Por isso os cafajestes são grandes amantes e péssimos maridos. Como se não bastasse o comprometimento lógico sofrido pela tentação inicial, temos que lembrar das mudanças pessoais que cada parte sofre ao longo do tempo. Mudanças no relacionamento, causados pela rotina e mudanças pessoais, causadas pelas experiências de cada indivíduo, que necessariamente é diferente em cada ser. Ainda que ambos vivenciem a mesma vida, a mesma rotina, a resultante é individual e única. O que pode gerar uma desconexão com o outro. Passam a ver a vida de maneira diferente, muitas vezes conflitante.
Então o relacionamento enfim chega a uma encruzilhada decisiva. Tentar recriar uma motivação para um motivo novo para se amar a mesma pessoa, viver em um relacionamento de comodidade e nenhuma relação afetiva ou decidir pela separação e a busca de uma nova história. História que sofrerá todas as dificuldades encontradas em qualquer outra, amenizadas e muitas vezes ignorada pela comparação do novo com o velho ou ainda a esperança vã de que aprendemos como se constrói uma relação melhor, evitando os erros anteriores, evitando a rotina, evitando as brigas, as ofensas.
O fato é que não importa o quanto mudamos, vamos recorrer em outros erros. Além de tudo, cada ação possui necessariamente uma reação, que é diferente em cada ser. Portanto, pouco da relação anterior será útil na nova. Parece uma equação sem resolução e de fato é. Todo este cenário desconexo, ainda não inclui aqueles que mentem, que fingem ser, que manipulam e acabam machucando a todos que se entregam de verdade.
Para transformar tudo em algo mais infundado é preciso acreditar, fazer planos, se entregar, criar expectativas, o que inevitavelmente nos traz decepções. E se tudo desse certo, você poderia encontrar a pessoa certa, no momento errado. Seu, dela ou de ambos. Sempre disse isso, não queira encontrar lógica no ilogismo. Não queira estatizar sentimentos e pessoas. Não busca encontrar receita para aquilo que costuma desandar ainda que com ingredientes e medidas certas. Talvez essa instabilidade sentimental que vivemos, seja a regra normal imposta e necessária para o amor acontecer. Talvez ele sempre foi assim e o único erro que cometemos, que torna essa fórmula inexata é a tentativa de eternizar o que necessariamente é passageiro. Independente do tempo de sua passagem. O amor é intensidade e duração. A altura pode determinar a distância percorrida ou apenas o tamanho do tombo.
A vida é um desencontro de tempo e o amor é consequência desta desordem. Buscamos o eterno e esquecemos que até mesmo nós somos fim.
Texto: J.R. Wills – Foto: Jeff Skas
AOREDOR
janeiro 8th, 2013 by Jeff, under para sempre.... No Comments

Todas as manhãs, pela fresta da janela da sala, vejo a mesma paisagem. Inicialmente inerte, com o céu, o sol e as nuvens, em uma espécie de plano de fundo, lhe concede novas cores e contornos.
Na repetição rotineira, olhando sempre a mesma paisagem, através da mesma janela, de forma inquietante e reveladora, hoje percebi o quanto este fato pode sintetizar nossa forma de enxergamos nossa própria vida. Somos em geral, inertes. Mudamos o corte de cabelo, o estilo das roupas, engordamos, emagrecemos, mas em geral essas mudanças alteram muito pouco da percepção de nós, afinal são graduais e consequentemente, pouco perceptíveis por nós mesmos.
Na contramão do nós, o nosso redor. Pessoas, oportunidades, perdas e ganhos, nos concedendo ainda que involuntariamente, novas cores e contornos. Pare e pense por alguns segundos nesta perspectiva, facilmente entenderá que ainda que tentamos nos manter inertes em nossos pensamentos, atitudes e convicções, nosso plano de fundo muda: constante e involuntariamente.
Esta falta de controle do externo poderia nos causar algum desespero, pela óbvia incapacidade de sua manipulação. Por outro lado, se hoje sua vida parece mais um dia nublado ou chuvoso, por outro, um grande dia ensolarado e cheio de possibilidades pode nascer amanhã, ainda que involuntariamente.
Acredite no inesperado.
Escrito por J. R. Wills
Foto: Window Sunset by ~macetool
A
dezembro 31st, 2012 by J.R.Wills, under jr wills, para sempre..., pensamentos, trovador templario. No Comments

A, ela, mulher.
Quando não, menina.
Feminina porém, sempre.
Ela é assim, delicada.
Na boca.
Na voz.
Na pele.
No toque da mão.
Podia ser Sol, preferiu ser a Lua.
No vento se tornou a brisa.
No mar se tornou a onda.
No céu se tornou a nuvem.
No temporal se tornou a tempestade.
Jamais poderia ser algo que não comece com a letra ‘a’.
No sorriso se tornou a risada.
No choro se tornou a lágrima.
No sofrimento se tornou a dor.
No amor se tornou a paixão.
No sempre se tornou a eternidade.
No desejo se tornou a excitação.
Porque ela só sabe ser A,
Só sabe ser ELA,
Só lhe resta ser MULHER.
J.R. Wills
Publicado originalmente em: 9 de abril de 2009 às 4:38Contra Corrente
dezembro 30th, 2012 by Jeff, under jr wills, para sempre.... No Comments
Eu sempre fui uma pessoa de grandes certezas e por elas sempre me senti alguém preparado, definido, preciso. Nunca acreditei que poderia encontrar algum desvio no caminho, ao menos nada ao ponto de me desviar significativamente do objetivo principal. Com o passar do tempo e de todas as variáveis que a vida fez questão de me apresentar, forçadamente, comecei a entender a ineficácia de ter aquilo que muitos chamariam de personalidade forte.
Em geral, a rigidez que por um lado traz a resistência, por outro traz a imobilidade, poucas vezes é previsível saber qual qualidade seria mais importante: força de resistência ou agilidade de adaptação. Os últimos doze anos da minha vida tem sido marcados por inúmeras provações e uma inconstante e provavelmente infindável necessidade de mudança e resiliente adaptabilidade.
Seguir mudando para poder seguir.




