Antes de ti

Do seu amor sou mais uma vitima
Você me teve desde o primeiro dia.
E antes de saber como era sua voz,
já podia ouvir chamar meu nome.

Eu me deito para percorrer o caminho até você.
E ainda que não quisesse,
corri atrás deste amor,
como alguém que nunca se cansou.
Queria ser parte de um sonho seu,
para que fosse parte da sua realização.
Enquanto meu coração esteve ligado ao teu,
eu estava ao seu lado em qualquer lugar.

No silêncio eu podia te sentir aqui.
Quis desvendar o vazio que existe em ti.
Enquanto esperava que você ocupasse
o espaço que se abriu em mim.
Quando achei que estava só,
sua mão me acariciava.
Quando você ficou muda,
achei que se transformaria em flor.
E esse jardim que floresceu em mim,
esperava você voar até aqui.
Nada mais parecia real pra mim.

Mas eu já via o dia que você partiria.
E deixei que fosses nuvem,
que vai, a0 vento, se desfazendo no tempo.
Onde quer que estejas agora.
O que quer que sejas por hora,
Que encontres seu verdadeiro lugar.
Não mais como antes, dentro de mim.

E da tristeza que ficou,
tirei a lição para me curar,
entendendo que para nunca cair,
o importante é nunca parar.
De caminhar, de pensar, de se reinventar.

Meu coração antes cheio.
Tem agora o espaço que criei para você entrar.
Cada coisa já em seu lugar,
Me lembra que você esteve aqui.
Sou apenas mais uma vítima do amor.
Como tantos outros,
que você esqueceu de amar.

Nem seu adeus pode apagar.
Não sei como fazer para deixar.
Seu silêncio não me permitiu ficar.

Era mais fácil antes de ti.

Nunca mais

nuncamais

Você nunca entenderá minhas atitudes.
Porque julgou como és e não como foram,
turvas, envoltas pela bruma do passado.

Você nunca entenderá minhas intenções.
Porque você as percebe através de outros,
levianamente deformada por desejos torpes e sórdidos,
de histórias e personagens que desconheço.

Você nunca entenderá minhas palavras.
Porque apesar de pronuncia-las,
você as sente ecoando em outras vozes.

Você nunca entenderá meu sentimento.
Porque você nunca o viveu.
Viveu outros, de outras formas,
em diferentes intensidades e intenções.
Tantos iguais, tão desiguais de mim.
Viveu outros, menos o meu.

Você nunca saberá como seria.
Porque profetizou sozinha,
misturando fragmentos sentimentais,
costurando retalhos de memórias,
voltando por caminhos dos quais,
nunca viram minhas pegadas.
Reviveu os fins, imaginou em mim.

Você nunca saberá.
Porque julgou como seria,
aquilo que nunca foi.
E que agora, já não será.

Um dia porém você perceberá.
Porque nunca deu certo.
Afinal nunca fui eu.
E a resposta para tudo,
não estava em ti, nem em mim.
Mas no que nos tornaríamos,
ao virar ‘nós’.

Você quis enxergar à frente olhando para trás.
Justo você, que julgou quem não esquece o passado,
quando na verdade era ele que trazia a certeza de
te querer em meu presente.

Do nós, restou você e alguns restos de mim.
Agora entendo e aceito que não será.
Nunca mais.

J.R.Wills

Âncora

ancora

Durante toda minha vida fui porto seguro. Ali na beira do mar da vida, resolvi repousar a espera de alguém que na solidão de seu barco, resolve-se aportar em busca de terra firme. Sempre achei romântica esta imagem de mim. Uma mão estendida a quem quiser que passasse.

Porém, ainda que diante do movimento das marés, fiquei estático vendo o tempo passar por mim. Grandes ondas tentaram de todas as formas me tirar dali, mas resisti, firme diante da minha vontade de ser não só porto, mas de fato seguro. Os anos se passaram, a madeira se desfez e ainda que na tentativa de me manter inerte, esqueci que tudo se desfaz nas brumas do tempo.

Do velho porto, sobraram alguns pedaços de ferro. Destes restos de mim, de pedaços distorcidos e enferrujados, que nem ao longe lembrariam o antigo porto, me fiz âncora. Ainda incapaz de entender a ineficácia e irrelevância de ser um lugar seguro. Não sou mais um lugar para aportar, para sentir a terra firme e para então partir. Deixando para trás, lembranças daquelas pessoas que passaram por ali. Não tenho mais um lugar onde ficar, não tenho endereço de mim, não sei nem ao certo onde vou parar.

Vou seguindo as marés, no rumo das correntes, sendo levado aonde o vento sopra mais forte. Me perdendo em um oceano de possibilidades, na vastidão da solidão, nas profundezas dos próprios medos, no espaço entre céu e terra. Sou âncora, sou segurança, sou firmeza, sou esperança nos desaventos, sou salvação nas tormentas. Ao contrário do meu passado porto, hoje sigo adiante em mar aberto.

J.R. Wills

Pó de mim

Sempre fui julgado por pensar. Por perguntar por que? E insistir no: por que não?
Fui julgado ainda mais por verbalizar minhas opiniões e o que dizer de eterniza-las em escrita?
Nunca tive medo de viver, nunca tive medo da experimentação, nunca tive medo da derrota.
Jamais reneguei a tristeza, a decepção, o coração partido.
Para mim, aqueles que vivem sob o pretexto da ponderação escondem-se.
No fundo, viver em equilíbrio é se não apenas o medo de cair.
Ou ainda o receio de não conseguir se levantar da queda.

Eu no entanto sempre quis experimentar os limites da minha fé sobre mim mesmo.
Quando amei, me entreguei ao sentimento assumindo todos os riscos de perder.
Quando senti, falei sem rodeios, de coração aberto, sabendo que as pessoas preferem aqueles que jogam, que omitem.
Não sei ser pela metade, não sei ser meio termo, não sei ficar sobre o muro, ou é lá ou é cá.
Eu nunca voltei para o lado seguro da rua, do rio ou da ponte. Quando dei um passo a frente fui até o fim.

Ainda não entendo porque nós somos tão temidos.
Nós, os que ignoram quantas cicatrizes nos marquem.
Nós, os que quebrarão seus corações em migalhas até que sobre apenas pó.
Se foi dele que viemos, voltaremos na mesma forma.
Quero terminar pó de mim.

Quero terminar minha vida tendo experimentado todas as decepções.
Quero um dia ter a certeza que presenciei toda a capacidade humana de fazer sofrer.
Quero acreditar que suportarei tudo isso e assim, no fim,
eu possa lhe dizer o que você precisa evitar em sua vida.
Caso você seja uma destas pessoas com medo de sentir.

Deve existir um propósito simples e óbvio para lembrarmos mais de lágrimas que sorrisos.
Justificariam ser a característica humana de ser pessimista.
Prefiro acreditar que estes momentos guardam as melhores experimentações.
Afinal, você já chorou de felicidade, mas nunca sorriu de tristeza.

Apesar da minha tentativa de lhe parecer equilibrado e ponderado.
Apesar da minha adaptabilidade em disfarçar sentimentos rapidamente,
minha natureza continua intacta, apenas hoje mais controlada.
O importante definitivamente é isso. Indefere a sua natureza mais primitiva.
Evolução é saber controlar ela e não fazer com que ela deixe de existir.

Diante de tudo isso, sempre chego a conclusão de que ainda não superei
minha dificuldade de entender os covardes sentimentais.
Se escondendo atrás de sua placidez superficial a tentativa de parecer feliz.
Acontece que a vida só acontece em alta velocidade, grande emoções e inconsequências sentimentais.

John estava certo. Também tenho medo desta coisa de ser normal.
Prefiro queimar ou morrer de frio. Escolho o desconforto.
Prefiro a falta de fôlego do que a falta de ar.
Enquanto você se esconde atrás de sua vida normal,
vou seguir provando todas as formas de me decepcionar,
de me entristecer, de me arrepender, de querer voltar atrás,
de ser julgado, mal compreendido, descartado e vilipendiado.
Porque eu sei que suporto tudo e aprendo a ser outro.

Enquanto você. Bom, você pode ficar aí, sendo a mesma coisa de sempre.

Quebra-cabeça

quebra-cabeca

Acreditamos e olhamos para a vida como se ela fosse um grande quebra-cabeça. Cada pessoa representando uma de suas peças. Um gigantesco quebra-cabeça de 7 bilhões de peças.

Como peças deste quebra-cabeça, temos um local exato para estar, uma forma exata para nos encaixar em outras peças que nos rodeiam. Um quebra-cabeça não pode ser algo aleatório, sem regras, sem organização. Ainda que você seja uma peça azul dentro de um oceano de outras peças azuis, seu espaço está reservado, um único e específico espaço. Não nos encaixamos em qualquer lugar e quando encontramos o local certo para o qual fomos designados, ficamos ali: parados, estáticos, imóveis.

Nos sentimos felizes por fazer nossa parte neste enigmático quebra-cabeça da vida. Talvez por isso muitas vezes você se sinta deslocado, como se não fizesse parte do meio em que vive, não combinando com seu redor, sem encaixe.

Ah, como eu gostaria que a vida fosse mais parecida com um Lego. Todos meio parecidos, porém com a capacidade de se combinarem entre si para criarem novas realidades. Infindáveis e criativas formas. Sem lugar exato para estar, sem função específica para cumprir, sem importar qual cor ou formato você tem, mais quadrado ou mais comprido. Afinal, nos encaixamos da mesma forma, independente das nossas características.

Que bom seria se entendêssemos que ainda que individualmente semelhantes, na coletividade é que criamos as nossas variações, podendo nos transformarmos no que quisermos e ainda assim, ter a capacidade de desmontar uma realidade, quando ela simplesmente não funcionou e se reconstruir, com as mesmas peças ou até mesmo com outras diferentes. Em nova forma, com nova função, para um novo objetivo.

Felizes os que agem como Lego no mundo das peças de quebra-cabeça.

J.R. Wills

Observador

É interessante e ao mesmo tempo empolgante observar os movimentos particulares, inquietantes e inconclusivos que a vida vai trilhando, serpenteando o tempo, as improbabilidades, o ilogismo, a aparente desconexão.

Virei observador de mim, intercalando momentos de ação e momentos de inércia, deixando a poeira assentar, esperando os movimentos do vento, a mudança das marés, a formação das nuvens. Trilhando o próprio caminho, mas aproveitando a correnteza e as correntes para seguir o fluxo, aproveitando o empuxo e mudando de direção apenas quando é conveniente, para encontrar o rumo adequado.

É estranho concluir que quanto mais tempo você deixa o destino no controle de sua vida, mais tempo ele te proporcionar para que tudo acabe bem. A sensação eterna de que tudo está em renovação, em iniciação, em transformação, em metamorfose. A vida é cheia de altos e baixos, isso todo mundo sabe. Mas talvez você não se ateve ao fato que pode escolher entre ser vítima das consequências dessa realidade volátil ou se tornar observador. Atento e admirado com a capacidade de mudança e reformulação de cada dia, revelando a magica e aterrorizante sensação da imprevisibilidade.

Você pode reclamar do dia quente, da chuva que não para de cair, do frio que castiga, do vento forte que devasta. Mas pode também dar-se o direito de observar a relevância e a coexistência que faz o equilíbrio. Sol e chuva, lua e sol, vento e calmaria, calor e frio, dia e noite, felicidade e tristeza, amor e solidão, euforia e melancolia.

Virei observador, ainda que agente, ainda que afetado, questionando menos, absorvendo mais. Reclamando menos e aceitando mais. Sorrio sem motivo aparente, sem vitórias significativas. Sou feliz ao ouvir uma música boa, sentir o vento frio no rosto, caminhar com o som das ondas ou aproveitar o silêncio do apartamento vazio, para ouvir tudo que ecoa dentro de mim.

A solidão nunca me caiu tão bem e nunca me foi tão necessária. Tenho a mim e assim tenho tudo que preciso agora.

Next Posts