Muito mais que 10.000 destinos…

Foi nos pampas gaúchos que nasceu uma das melhores bandas do rock nacional, os Engenheiros do Hawaii. As músicas escritas por Humberto Gessinger fizeram parte da minha adolescência e como ele continua fazendo música boa, eu continuo fiel aos Engenheiros.

A banda iniciou em 1985. a primeira formação foi composta por Humberto (Vocal e Guitarra), Carlos Maltz (bateria) e Marcelo Pitz (baixo). Com esta formação a banda lançou em 1986, o LP “Longe demais das Capitas”, uma referência a origem gaúcha e o como nós dos estados do sul do país, estamos longes dos grandes centros urbanos. Os primeiros sucessos viriam com “Longe demais das capitais” e “Toda forma de poder”.

Marcelo Pitz deixou a banda antes da gravação do segundo LP “A Revolta de Dândis”* em 1987, no seu lugar Augusto Licks assume a guitarra, deixando para Humberto o baixo. O disco também marca uma grande mudança no estilo musical da banda. (*Dândis eram pessoas preocupadas com questões muito superficiais, dinheiro, status social, beleza. Eram pessoas que mesmo não sendo da realeza, se comportavam como tal).

O grande sucesso do disco e um dos maiores da banda foi “Infinita Highway” que além de uma música longa para a época, trazia citações de Sartre. (Jean-Paul Charles Aymard Sartre era um filósofo francês, existencialista do início do século XX).

Com este novo trio formado, os EngHawaii encontram seu rumo. Humberto assim como Renato Russo, escreve letras inteligentes, com referências de grandes pensadores, a grande diferença entre as duas bandas fica pela introspecção de Renato e a contestação de Humberto.

Em 1988 é gravado “Ouça o que eu digo: Não ouça Ninguém” que traz os músicas como: “Somos quem Podemos Ser”, “Cidade em Chamas”, “Tribos & Tribunais” e “Variações Sobre o Mesmo Tema”, uma homenagem ao Pink Floyd. A música além de um ‘ar’ progressivo é dividida em três partes, assim como Roger Waters fez com a música “Another brick in the wall”.

Em 1989 já morando no Rio de Janeiro a banda lança “Alívio Imediato”, o quarto disco da banda e o primeiro ao vivo.

Em 1990 vem “O papa é pop”, mostra a capacidade de Humberto de ver possibilidades onde ninguém enxergava. Com uma regravação da música “Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”, originalmente gravado por ‘Os incríveis(se você tem menos de 20 anos deve ter achado que estou me referindo ao desenho animado da DreamWorks®, mas não, Os Incríveis são uma banda brasileira que fez sucesso nos anos 60 e 70).

Humberto passa a tocar piano a partir deste disco e cria baladas como: A Violência Travestida Faz Seu Trottoir”, “O Exército de Um Homem Só”, “Pra Ser Sincero” e “Perfeita Simetria”. Aclamados pelo público e massacrados pela crítica, os EngHawaii fazem história no Rock in Rio II, sendo elogiados pela crítica do jornal americano “The New York Times”.

Em 1991 vem “Várias Variáveis” que conclui uma trilogia iniciada com no segundo e terceiro disco da banda. Há redução dos efeitos eletrônicos e a retomada de um som mais rock’n’roll, mas não repete o mesmo sucesso do anterior, mesmo tendo a canção “Herdeiro da Pampa Pobre”, regravação da música do Gaúcho da Fronteira bastante executada nas rádios. Este é um dos discos que contém as melhores letras do grupo, porém, o som não é o forte do álbum, sendo o mesmo questionado hoje até pelo próprio Gessinger. Pode-se dizer que foi um disco seminal, pois canções como “Piano Bar”, “Muros & Grades” e “Ando Só”, em regravações em outros discos, estabeleceram-se como algumas das melhores da banda.

Em 1992 é a vez de “Gessinger, Licks e Maltz” (GLM) uma referência a banda “Emerson, Lake & Palmer” (ELP) uma banda britânica formada nos anos 70. Os sucessos deste disco ficam por conta de “Ninguém = Ninguém”, “Pose” e “Parabólica”

1993 traz um disco semi-acústico, “Filmes de guerra, canções de amor”. A wikipédia faz referência a este disco como visionário por se tratar de um acústico, formato que se tornaria muito comum anos depois. A MTV já produzia estes acústicos desde 92, com Barão, Legião e João (Bosco), apesar claro, que o disco acústico da Legião saiu muitos anos depois, com a morte de Renato Russo e obviamente uma grande dose de oportunismo comercial.

“Filmes de Guerra, canções de amor”, foi gravado ao vivo, por opção da banda que decidiu sempre gravar um ao vivo a cada três em estúdio. Na verdade uma idéia inspirada na banda RUSH que fazia a mesma coisa. O cd traz arranjos blues, música gauchesca e erudita, ressaltando a qualidade das letras de Humberto.

Em 1993, inicia uma grande briga entre Humberto+Maltz vs Licks. Ou iniciou ou terminou, pois Licks decide sair da banda, registra o nome “Engenheiros do Hawaii” onde se inicia um processo judicial. A justiça decide favoravelmente a Humberto e Maltz. Era o fim definitivo do trio GLM. Até hoje, Humberto e Licks nunca mais voltaram a ser amigos.

Com uma nova formação, composta agora por Gessinger, Maltz e Ricardo Horn (guitarra). Como ao vivo a coisa não ficou a contento, posteriormente, também ingressam na banda: Paolo Casarin (acordeão e teclados) e o guitarrista Fernando Deluqui (ex-RPM). Dois anos sem gravar, em 1995 é a vez de “Simples de Coração”, que traz “A Promessa”, “A Perigo”, “Lance de Dados”, “Ilex Paraguariensis” e “Simples de Coração”.

Obs.: Este disco possui uma versão em inglês, que nunca chegou a ser gravada, só pode ser encontrada em mp3).

Paralelamente a “Simples de coração”, Humberto ensaia escondido no estudio ao lado, com a ajuda de dois amigos, um deles o guitarrista dos EngHawaii. O trio se intitula “33 de espadas”. Muito longe de viver o mesmo sucesso de outros álbuns, a banda entra em crise e decide seguir outros rumos. Com o fim da turnê “Simples de Coração”, Humberto junto com Luciano Granja e Adal Fonseca gravam em 1996 o disco “33 de espadas”, que traz ótimas canções como “Vida Real”, “Freud Flintstone”, “De Fé” e “O Preço”.

Carlos Maltz descontente com a situação da banda e iniciando uma inclinação mística, abandona os EngHawaii e lança um novo trabalho com sua nova banda chamada “A Irmandade”, considerado um ótimo álbum.

O EngHawaii chegam a um fim definitivo.

O “33 de espadas” faz sua estréia abrindo o show da banda carioca “Surfista Prateado”. Já com a formação que viria se chamar “Gessinger Trio”, Luciano Granja (guitarra) e Adal Fonseca (bateria) e gravam o excelente disco homônimo em 1996. O clima enxuto do disco, basicamente com bateria, baixo e guitarra, lembra os primeiros trabalhos de Gessinger, como exemplificam as canções “Vida Real”, “Freud Flintstone”, “De Fé” e “O Preço”.

Na época os contratantes continuavam a anunciar o trio como “Engenheiros do Hawaii”. Para vender shows não existia a mínima possibilidade de usar um nome totalmente novo e desconhecido ao invés do famoso “Engenheiros do Hawaii”. (A lei da propaganda)

Gessinger admite que é inviável continuar insistindo em no nome Gessinger Trio e volta a usar o nome de “Engenheiros do Hawaii”. Para mostrar alguma mudança não só do nome, Humberto chama Lúcio Dorfman para integrar a nova formação, assumindo os teclados e trazendo um novo aspecto ao som da banda.

Minuano, lançado em 1997 marca definitivamente a volta dos “Engenheiros do Hawaii” em sua nova formação. O cd emplaca a música “A Montanha”.

1999 traz Tchau Radar, certamente um dos discos mais diferentes da banda. O cd traz ótimas músicas como “Eu Que Não Amo Você'”, “Seguir Viagem” e “3X4” além de dois covers: “Negro Amor” (“It’s All Over Now Baby Blue”, de Bob Dylan) e “Cruzada” (Tavinho Moura e Marcio Borges).

De Tchau Radar nasce o disco “10.000 Destinos” que traz grandes sucessos da banda em novos arranjos. Na minha opinião, um dos melhores discos da banda o destaque certamente fica por conta da participação providencial de Renato Borghetti o gênio da gaita (ouça “Refrão de Bolero” quando Humberto dá o comando “vai Borghetti…”).

A banda se apresenta no Rock in Rio III onde novamente mudaria sua formação. Lúcio, Adal e Luciano saem da banda e montam outro grupo, a Massa Crítica. Paulinho Galvão (guitarra), Bernardo Fonseca (baixo) e Gláucio Ayala (bateria) se tornam a nova formação dos EngHawaii.

Com a nova formação vem “10.001 destidos”. O disco traz ‘10.000 destinos’ + 1(cd) com regravações de estúdio de “Novos Horizontes”, “Freud Flinstone”, “Nunca Se Sabe”, “Eu Que Não Amo Você”, “A Perigo”, “Concreto e Asfalto” e “Sem você (É Foda!)”.

2002 é o ano de “Surfando Karmas e DNA” e de um retorno bem vindo pelos fãs mais antigos. Carlos Maltz, ex-EngHawaii faz uma participação na música “E-stória”.

Com influência de punk e pop rock, o disco traz também “Terceira do Plural”, “Esportes Radicais”, “Ritos de Passagem” e “Nunca Mais”.

O disco seguinte, “Dançando no Campo Minado”, 2003, mantém a sonoridade similar a “Surfando Karmas…” com músicas curtas, guitarras pesadas e poesia crítica de Gessinger denunciando os males da globalização, da desilusão política e ideológica e da guerra. Temas facilmente entendidos em “Fusão a Frio”, “Dançando no Campo Minado”, “Dom Quixote” (Uma das melhores letras de Gessinger) e “Segunda Feira Blues” (partes I e II, esta última novamente com a participação de Carlos Maltz), porém, convivendo com um certo otimismo na parte mais emotiva da vida. O sucesso nas rádios fica por conta de “Até o Fim”.

“Acústico MTV” (Turnê Acústica) (2004 – 2006)
Humberto Gessinger e seu bandolim durante turnê do Acústico MTV.

Para comemorar os vinte anos de banda, completados em 2005, os Engenheiros do Hawaii lançaram o CD e DVD Acústico MTV. O acústico tem as participações especiais dos músicos Humberto Barros (órgão hammond) e Fernando Aranha (violões). Este último já havia feito uma participação especial, tocando uma música do CD “Dançando no campo minado”.

O acústico conta com a participação especial de Carlos Maltz, que divide a voz com Gessinger na canção “Depois de Nós”, de sua própria autoria. Clara, filha do vocalista, faz uma participação em “Pose” (executada com grande parte da letra cortada, fato que se repete na história da banda). Também são gravadas canções do Gessinger Trio como “O Preço” e “Vida Real” (esta última música de trabalho). Por fim, acrescentam-se ainda as canções inéditas “Armas Químicas e Poemas” e “Outras Frequências”.

Fernando Aranha, assume o posto de guitarrista da banda. Humberto Barros, que não seguiu na turnê com os Engenheiros porque tinha compromisso com o Kid Abelha, foi substituído pelo jovem músico Pedro Augusto nos teclados. Este acaba sendo efetivado no disco seguinte.

“Novos Horizontes – Acústico II” (2007)

Gravado nos dias 30 e 31 de maio de 2007, em São Paulo, no Citibank Hall, foi lançado em agosto de 2007 com nove faixas inéditas, além de nove regravações. O disco quebrou a seqüencia de a cada 3 discos em estúdio, ser gravado um “ao vivo”. Também foi palco de novas experiências para Gessinger, como a viola caipira que usa em algumas músicas do álbum. Destaque para as faixas inéditas “Guantánamo”, “Coração Blindado”, “No Meio de Tudo, Você” e “Quebra Cabeça”.

No fim de 2007, o então baixista Bernardo Fonseca sai da banda e Humberto Gessinger assume o baixo. Desde então a banda voltou a utilizar guitarras em seus shows.

O fim do início

Em 2008 após shows pelo Brasil inteiro, a banda termina a turnê acústica, começada em 23 de julho de 2004 com o lançamento do Acústico MTV. Junto com a turnê termina, pelo menos temporariamente, os Engenheiros do Hawaii.

Frio no corpo, frio na alma. Entre muitas consoantes, poucas vogais

Os planos de retorno da banda são somente no ano de 2010, quando serão comemorados os 25 anos dos Engenheiros, talvez. Por enquanto Humberto se dedica ao seu novo projeto, POUCA VOGAL, ao lado de Duca Leindecker, líder da banda Cidadão Quem, que também fez uma pausa temporária. A Cidadão Quem apesar de não ser conhecida na mesma intensidade que os EngHawaii no restante do país, no sul eles ditam o rock no mesmo tom dos Hawaiianos. A Cidadão que fez sucesso nacional com a música “Os Segundos” incluída na trilha da Malhação em 1995, voltou aos palcos com o aclamado disco “Cidadão Quem no Theatro São Pedro”.

Além do sucesso da Cidadão Quem, Duca é um músico famoso e reconhecido. Já abriu a turnê nacional para Bob Dylan a pedido do próprio, que o viu tocar pessoalmente e se surpreendeu com o talento de Duca.

Além disso Duca escreveu dois livros que se tornaram best-sellers. Um dos seus livros inclusive está sendo adaptado para cinema. Além de músico, guitarrista premiado, escritor premiado e roteirista ele ainda é produtor musical. Produziu diversas trilhas sonoras para cinema além de recentemente ter produzido o clipe da cantora LUKA.

Mais sobre o Pouca Vogal – www.cidadaoquem.com.br www.engenheirosdohawaii.com.brwww.poucavogal.com.br

Ps.: Após anos acompanhando Engenheiros, Nenhum de Nós e Cidadão Quem, certamente as três melhores bandas do rock gaúcho, conheci pessoalmente a Cidadão Quem em 2004 e acabei produzindo os dois últimos sites oficiais da banda. “Theatro Sâo Pedro” (offline) e “7” (site atual).

O Preço – EngHawaii

O preço que se paga às vezes é alto demais
É alta madrugada, já é tarde demais
Pra pedir perdão…Pra fingir que não foi mal
Uma luz se apaga no prédio em frente ao meu
‘sempre em frente’ foi o conselho que ela me deu
Sem me avisar que iria ficar pra trás
E agora eu pago meus pecados
Por ter acreditado que só se vive uma vez
Pensei que era liberdade
Mas, na verdade, eram as grades da prisão
O preço que se paga às vezes é alto demais
É alta madrugada, já é tarde de mais
Mais uma luz se apaga no prédio em frente ao meu
É a última janela iluminada
Nada de anormal…Amanhã ela vai voltar
Enquanto isso eu pago meus pecados
Por ter acreditado que só se vive uma vez
Pensei que era liberdade
Mas, na verdade, me enganei outra vez
Eu pago meus pecados
Por ter acreditado que só se vive uma vez
Pensei que era liberdade
Mas, na verdade, era só solidão

Humberto Gessinger
Eng. do Hawaii

Eu tenho realmente fé na força do silêncio…

Hoje em dia realmente precisamos acreditar na força que o silêncio pode ter em meio a tanta banalidade, futilidade, mesquinharia e ignorância.
Vou aproveitar e postar no meu blog, porque aqui ainda é um espaço onde a democracia de ideias prevalece.
Passei na comunidade do EngHawaii e meu tópico convidando as pessoas para baixarem a música do post anterior foi deletado por duas vezes.

Talvez as bandas não dêem importância para a internet ainda, mas deveriam escolher melhor as pessoas que são mediadores de uma comunidade, que muitas vezes usam o nome de ‘Oficial’, o que subentende-se que trata-se de algo do conhecimento da banda ou do artista, quando é uma inverdade.

Talvez passe pela cabeça dessas pessoas que, ser mediador da comunidade, seja algum tipo de ‘status’ e que deletar um post seja alguma ‘prova de poder’. Ledo engano. Espero um dia ver o respeito ser algo intocável. Espero que um dia nosso país e nosso povo, saibam respeitar o direito individual, principalmente o direito de expressão.

O Orkut a cada dia se mostra um lugar onde ignorantes se encontram. Bom, nós, pessoas ‘pensantes’, que exigem respeito, façamos um minuto de silêncio e deixamos a IDIOCRACIA se sentir superior. Você sabe que a sua maior arma contra o inimigo é deixá-lo acreditar que é melhor que você.

A arrogância enfraquesse o espírito.

Duca Leindecker e Humberto Gessinger

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Tá aí uma das uniões do século, pelo menos para mim.
Os dois melhores vocalistas e compositores do rock nacional atual.

Duca Leindecker, vocalista da Cidadão Quem e Humberto Gessinger, vocalista dos EngHawaii. E para a satisfação das pessoas que gostam de rock inteligente e de qualidade, eles resolveram juntar as suas grandes cabeças pensantes e escrever ‘A Força do Silêncio’, a música que só pelo nome já vale a pena ouvir.

Eu resolvi então, gravar em mp3 o som da transmissão ao vivo que a TVE fez dos dois cantando juntos no prêmio Açorianos 2007.
A versão original da música está no novo cd da Cidadão Quem (detalhes: www.cidadaoquem.com.br).

Download da música 

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