Vai uma lata de vida ai?

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É estranho que, passado-se muito tempo, grandes nomes da propaganda internacional, questionem a eficácia e relevância do que está sendo feito em marketing voltado para o ambiente digital. Apesar de certas particularidades, sempre acreditei que dividir o mundo em OFF e ON era uma ignorância e limitação ótica.

Hoje em um grupo do Facebook que deveria estudar Branding, me deparei com uma publicação sobre McDonald’s, Burger King e a criação de uma linha vegana de lanches. Em um dos comentários, um profissional dizia que comeria lá, se a chapa na qual preparasse o lanche não fosse a mesma dos lanches tradicionais. Ou seja, o conceito, a ideologia, o lifestyle pouco importa. Para livrar sua consciência de consumir o pobre boizinho morto, bastava uma chapa diferente.

Acredito que em propaganda, é exatamente assim que se faz. Sempre acreditei que a propaganda era dividida entre idealistas e todo o resto que apenas justifica o valor que empresas investem em propaganda, para justificar que sejam pagos por ela.

É como aquela chapa do pseudo-vegano, que acredita que nesse ilogismo da livre consciência, está se salvando do purgatório. O mundo da propaganda, na regra e na média, nunca se preocupou com os rumos do mercado em si, da qualificação ideológica de seus profissionais. Fazemos piadas de nossas mazelas profissionais e achamos graça. Nosso mercado está cada dia mais repleto de pseudo-interessados, o que justifica a quantidade de peças fantasmas ou falsamente interessadas em causas nobres, na última edição de Cannes.

Em comunicação, estamos ali, defendendo ações de marketing, investimento em internet, análise de métricas, estudo de SEO, criação do um BigData, mas não temos a mínima noção do motivo, dos rumos, do caminho e de onde queremos chegar com tudo isso.

Não precisamos mudar a forma das pessoas enxergarem o mundo e as relações humanas. Nos preocupamos com o que colocamos para dentro do corpo, mas não o que colocamos para fora de nossas bocas. Somos como aquele cara, que se sente vegano trocando carne por soja. Que vai à uma academia fazer Yoga.

Buscando sua vida natural em lata…

Para nossa alegria… – Os acasos da banda Catedral

A banda de rock Catedral tem uma história interessante, repleta de acasos. A banda que nasceu no Rio de Janeiro em 1987, passou desconhecida do grande público por mais de uma década. Focada no mercado gospel, a banda gravou nada menos que nove álbuns dentro do tema religioso, porém sempre com uma pegada pop/rock.

Em 1999 a banda então decide ampliar sua atuação e consegue assinar com a Warner Music, retira o título de música gospel e entra para o mercado ‘secular’, título que me soa bastante ignorante e preconceituoso por parte do público evangélico. Como ironia, provocação ou apenas simbolizando o momento, o Catedral lança o álbum ‘Para todo mundo’, uma clara referência ao fato de sua música estar agora, direcionada para todo tipo de público, sem os limites religiosos.

Um grande acaso acabou favorecendo a banda. A Legião Urbana havia perdido seu líder. Renato Russo morreu em 1996 e o ano de 1999 marcou o lançamento do álbum ‘Acústico MTV Legião Urbana’, onde Renato Russo cantava pela primeira vez na carreira da Legião, músicas de autoria de outros artistas, claro que Renato não esperava que estas músicas seriam lançadas em cd e dvd, tanto que a gravação havia acontecido sete anos antes, em 1992. As semelhança dos timbres vocais de Renato Russo e Kim, vocalista do Catedral criaram uma grande confusão. Durante um breve periodo, a canção ‘Eu quero o sol deste jardim’ foi confundida como alguma gravação inédita na voz de Renato Russo.

A confusão foi tão grande que muitas pessoas que não conheciam a banda Catedral, ou seja, a grande maioria, achou que Kim imitava o Renato Russo como alguma tentativa oportunista de embarcar na falta que os fãs sentiam do líder da Legião Urbana. Confusão desfeita, era tarde demais para desfazer o sucesso que a música alcançou, projetando o Catedral nacionalmente. Este álbum tem um lugar especial na minha memória. Comprei o cd de presente para a Lu, minha namorada na época e acabei levando para o trabalho, uma agência de propaganda que eu trabalhava na época, época que tenho muita saudade.

Motivada pelo sucesso de vendas do álbum, a banda engatou o lançamento de ‘Mais do que Imaginei’ (2001) e ’15º Andar’ (2002), ambos pela Warner Music. Um detalhe interessante, 15º Andar foi produzido por ninguém menos que Carlos Trilha, que produziu vários álbuns da Legião e todos os álbuns solos de Renato Russo. Apesar disso o álbum foi muito pouco divulgado pela produtora. A queda de popularidade soma-se a outra reviravolta na história da banda, em julho de 2003, o guitarrista José Cézar Motta, morre em um acidente de carro aos 33 anos. Cézar não era apenas o guitarrista da banda, mas irmão de Kim e Júlio (baixista).

Não posso precisar se estes fatos tiveram alguma influência, mas foi o último álbum da banda lançado por uma gravadora multinacional, retomando o contato com uma gravadora gospel. Após ’15º andar’, a banda lançou outros seis álbuns. O último, M.I.M. é uma edição de colecionador com apenas 3.000 exemplares e custa nada menos que R$ 189,90. O preço tem sua justificativa, se trata de um livro de luxo com textos, partituras, letras, fotos e claro, o cd inédito.

Então, após uma década de ‘anonimato’ o acaso entre Legião e Catedral acabou ajudando na divulgação da banda. Agora, novamente após uma década novamente no ‘anonimato’, outro acaso coloca novamente a banda em evidência nacional. O vídeo mais comentado na última semana, ‘Para nossa alegria’, trata-se da música ‘Galhos Secos’, canção regravada pelo Catedral. Originalmente no entando, foi composta e gravada por outra banda de rock evangélico, considerada pioneira no país, a banda Exodos, que causou muita polêmica na época, cantando músicas de tema evangélico, em ritmo de rock com todo o estereótipo de roqueiro da década de 70: roupas extravagantes e cabelos compridos. Infelizmente o pioneirismo da banda não encontrou todo o reconhecimento que merecia e encerrou suas atividades em 1977. Não consigo entender essa manifestação de preconceito tão forte que nasce dentro de ambientes religiosos. Enquanto a mensagem maior de Cristo foi a tolerância, parece que esta não é uma característica das igrejas.

Você tem dúvida que o sucesso do vídeo ‘Para nossa alegria’ ajudou a deixar o Catedral em evidência? Então dê uma olhada nas músicas mais consultadas no site Letras.Mus.br

 

Renato Rocha e Legião Urbana

Hoje por acaso, vagando por vídeos no Youtube, fiquei sabendo da matéria que a Record fez com Renato Rocha, também conhecido por Negrete, baixista da Legião Urbana durante os três primeiros álbuns da banda. Na reportagem da Record, o Renato Rocha teria sido convidado para integrar a banda, para que Renato Russo pudesse ter mais liberdade para cantar, tese defendida pelo próprio Renato Russo na época.

Na realidade, todos sabem que Renato Russo havia cortado os pulsos e não conseguia mais tocar, por isso chamou o Renato Rocha para participar da banda de última hora, pois precisavam trabalhar com seu primeiro álbum. Negrete deixou a banda em 1989 de forma conturbada. Segundo Bonfá e Dado ele foi expulso por culpa de seus excessos e o descaso que conduzia a carreira. Sabe lá, talvez o Renato estava afim de voltar para o baixo. Posso estar enganado, mas ele sempre foi tratado como músico convidado e não como integrante da banda.

No fundo Bonfá e Dado nunca foram muito da onda do Renato e do Negrete, infelizmente tinham que se submeter aos caprichos de Renato, afinal era ela a alma da Legião. Já o Negrete era muito menos importante neste contexto e foi bem mais fácil entrar em um acordo (pé + bunda).

Agora não tem como um fã da Legião passar inerte ao fato de ver um cara que tenho na capa de inúmeros álbuns em minha casa, vivendo na rua. É chocante, é triste, é lamentável, é inaceitável. Eu sei que é difícil tirar alguém de uma situação como esta, mas certamente teria sido mais fácil evitar que acontecesse. Ao mesmo tempo que é aterrorizador, pareceria óbvio se não fosse a vida real. Um ex-músico famoso que acaba nas ruas, um filme com um roteiro assim nem chamaria muito a atenção. Me lembrou a história real de Nathaniel Ayers, o menino prodígio do violoncelo, retratado no filme ‘O Solista’ (The Soloist).

Já vivi uma situação muito parecida, com um produtor musical amigo meu. Pude presenciar seu começo, o sucesso das bandas que ele produziu, muito dinheiro entrando e saber que agora ele está na pior. Tentei falar com ele inúmeras vezes, seus telefones não existem mais, perdeu todas as bandas que atendia e a última notícia que tive dele não foi nada confortante. Queria poder fazer algo, mas não tenho condições financeiras de fazer nada. Moramos em estados diferentes e nem posso visitá-lo. Assim me sinto em parte, como fã, ao ver a condição atual do Negrete, impotente, desapontado.

Talvez a matéria o ajude de alguma forma. O que a fama lhe trouxe e lhe tirou, talvez lhe recupere de onde ele está hoje. E existem tantos mais exemplos assim que nem sabemos. Alguém já se perguntou que fim levou o Zina? Que por muito tempo gerou muita grana para o Pânico.

Não acho que precisamos apontar alguém que tenha responsabilidade sobre a realidade do Negrete. No fundo ele mesmo deveria ter sido senhor do próprio destino. Não cabe ao Dado, não cabe ao Bonfá, cabe a quem aceitar a missão, de quem acreditar que pode mudar esta realidade.

A vida e suas efemeridades…

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo…

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder…

Que Deus lhe proteja Negrete e que o futuro lhe reserve alguma redenção…

Ps: O ignorante do Tico Sta Cruz querendo dar pitaco na história. O Tico Sta Cruz falando de alguém? Sério? O Renato Rocha tá com 50 anos de idade, é um senhor já. Nem me interessa o que ele fez ou deixou de fazer, sou da opinião que: se não é para ajudar, não atrapalha. A última coisa que alguém precisa quando está no ‘fundo do poço’ é da opinião de um músico sem talento, babaca, frustrado e bon vivant dando pitaco. Nessa hora ninguém pode ajudar, ninguém pode fazer nada. Pior que o Tico Sta Cruzcredo é a Record querendo promover um encontro entre ele e o Negrete. Sério Record? Vocês acham que o Tico Sta Cruz é o que? Representante do rock nacional? Por favor… Um retardado que fica usando mascarazinha de filminho de Hollywood… Ah não… Ah não…

Vai lá Anonymous, revolucionar o mundo usando um Twitter e um iPhone sentado no sofá de casa…

 

Yoani Sanchez fez um apelo a nossa presidenta…

A jornalista e filóloga cubana Yoani Sanchez fez um apelo especial ao Brasil e a nossa presidente Dilma Rousseff, manifestando seu desejo de vir ao país, para participar do lançamento oficial do documentário em qual foi uma das personagens. O documentário “Conexão Cuba Honduras” foi produzido em 2009,  pelo documentarista brasileiro Dado Galvão. O lançamento do documentário foi adiado por duas vezes, em solidariedade à Yoani, pois seus pedidos feitos ao presidente Lula, não foram levados em consideração.

Yoani Sanchez (Havana, 4 de setembro de 1975) é licenciada em Filologiapela Universidade de Havana, ela alcançou fama internacional e numerosos prêmios por seus artigos e suas críticas da situação social em Cuba sob o governo de Fidel Castro e de seu sucessor, Raúl Castro. Ficou conhecida por seu blog ‘Generación Y’, editado desde abril de 2007, com dificuldades, porque não pode acessá-lo de casa e por isso definiu-se como uma blogueira ‘cega’.

A revista TIME  a incluiu em sua lista de ‘100 pessoas mais influentes de 2008’, relatando:

debaixo do nariz de um regime que nunca tolerou dissensão, Sánchez exerce um direito não garantido aos jornalistas que trabalham com papel: liberdade de expressão

Eu particularmente acompanho Yoani através do twitter e sua atitude de extrema coragem e cidadania é um exemplo que precisa ser reconhecido. Impossível imaginar que o Brasil não interceda por ela, sendo que seu trabalho já tenha reconhecimento internacional. Eu lhe pergunto: – Você teria coragem de contrariar um governo? Arriscar sua vida para defender os direitos alheios? Assumiria os riscos de mostrar a situação social do seu país em plena ditadura?

A petição on-line feita pela fotógrafa brasiliense Xenia Antunes tem apenas 700 assinaturas, das 100.000 necessárias. Nestes momentos me sinto envergonhado de ser brasileiro.

Por gentileza, já que estamos em um momento em que os olhos do mundo se voltaram para a internet, ajude a divulgar o vídeo e assim fazer sua parte para que o desejo de Yoani se realize. A realidade de Cuba nos parece muito distante, seus problemas não parecem nos afetar, mas devemos isso como humanos, como semelhantes, por compaixão e respeito.

Michel Teló mordeu a maçã do paraíso…

Há muito tempo eu queria escrever um artigo sobre o Michel Teló, que teria hoje, ares de profecia, demorei e agora se tornou apenas mais um relato fácil e provavelmente repetitivo e desnecessário.

Se alguém soube dar significado a expressão “bola da vez”, este foi o cara. Após emplacar um sucesso nacional com uma música rejeitada pelos próprios compositores Thiaguinho (Exaltasamba) e Rodriguinho (Ex-Travessos), no caso “Fugidinha”, então Teló ouviu uma versão de “Ai, se eu te pego”, cantada pela banda “Garota Safada” (uma das 350 versões já gravadas), que abriu um dos seus shows. Não existe qualquer possibilidade de tirar de Teló a capacidade de enxergar potencial comercial de uma música. Composta por Antônio Dyggs, em parceria com Sharon Acioly, acredite, a mesma do hit ‘Dança do Quadrado’, Teló resolveu fazer a sua versão da música.

Está em todos os sites, nas redes sociais, jornais e revistas pelo Brasil e mundo à fora, o sucesso de ‘Ai, se eu te pego’ chegou em todas as partes do mundo. Assim como eu inconsequentemente estou fazendo agora, milhares de pessoas teorizarão sobre como ele conseguiu alcançar este nível de “viralidade”. Publicitários e marketeiros transformarão Michel Teló em tema de estudo, teorias e cases. Facilmente explicarão como um fenômeno acontece, basta ligar os pontos, como fazia Steve Jobs, teorizando sobre sua vida e seus insights épicos.

Estranhamente ainda não vi ninguém fazer esta associação, que me parece a mais conveniente e óbvia. Mesmo não estando mais entre nós, o espólio de Jobs parece continuar produzindo virais no mundo da música, como fez com tantos e tantos músicos mundo a fora. Demorou, mas a iTunes chegou ao Brasil e com ela, Teló virou arquivo digital para ser comprado em qualquer parte do mundo, por meros $ 0,99.

O sucesso de Teló no Brasil é simples de explicar. Vamos começar por um ponto importante: Como músico, ele tem talento, uma voz agradável e moldou em onze anos à frente do Grupo Tradição, toda a desenvoltura e domínio de palco que Luan Santana levaria três reencarnações para aprender. Junte a isso uma conjuntura no cenário da música brasileira, favorável ao estilo musical que Teló faz e mais três decisões inteligentes ou oportunas que fez em sua vida:

1. Deixar o Grupo Tradição e expandir suas possibilidades musicais em uma carreira solo;
2. Gravar ‘Fugidinha’ quando os próprios compositores não tiveram coragem para isso;
3. Gravar ‘Aí, se eu te pego’, deixando de lado qualquer preconceito ou elitismo musical;

Tudo isso no entanto só foi possível provavelmente, porque a simplicidade e maturidade musical de Teló o impediram de fazer qualquer plano mais ambicioso. Como disse  Tico Sta Cruz sobre a notícia de Michel Teló ter mais downloads na europa do que Adele e ColdPlay:

a internet e a maneira de disseminar conteúdo definitivamente se estabeleceu como “ANARQUICA”, fora do CONTROLE e isso é o suficiente para ter minha admiração

Independente de todas as teorias que se façam sobre quem tem mais participação neste sucesso, nunca alcançado por outro artista brasileiro (em números), para mim não existe uma explicação melhor do que o acaso, que juntou a música, o artista, o talento, o estilo musical, o cenário nacional, os humoristas como ‘O Pânico’, Neymar, Cristiano Ronaldo, mas ainda assim, no grau maior de importância, não do fenômeno ou mérito, mas de viabilizador de tudo isso, por incrível que pareça, novamente está nosso saudoso:

Steve Jobs

Sem o iTunes, não existiria nenhuma possibilidade desta quebra de fronteiras. Não existiria nada além de um viral do Youtube.

Ps.: Não posso esquecer de outro detalhe. Não podemos esquecer de agradecer Roberto Leal, que apesar de ter inspirado o penúltimo corte de cabelo de Michel Teló, cortou seu cabelo mais moderninho e inspirou Teló a fazer o mesmo. Podem discordar desta teoria, mas eu tenho certeza que ela é verdadeira.

Verdades que você precisa saber sobre a internet e ninguém teve interesse de contar…

Existem muitas coisas que acontecem na internet, que talvez você nunca parou para pensar como se desenvolvem. Você alguma vez já acessou algum vídeo, vlog, blog ou twitter com algum conteúdo nerd e se sentiu completamente idiota, pensando: “Mas do que é que eles estão falando?”. Já estranhou todo esse saudosismo com o Mário Bros., games, personagens de desenho animado que você só conhece por nome, histórias em quadrinhos ou detalhes de filmes que você só assistiu no canal aberto:  Robocop, Star Wars, Táxi Driver entre tantos outros?

Provavelmente você não é menos inteligente por não entender esse fanatismo todo. Quem sabe, assim como eu, você seja apenas pobre. Você parou para imaginar que nerds na média de 20 a 35 anos, são apenas pessoas que tiveram uma infância confortável financeiramente? Se hoje você acha difícil comprar um iPhone hoje em dia, tente imaginar como era ter um vídeo game há 20 anos. Tente imaginar quanto custava uma câmera fotográfica ou o preço da mensalidade da tv por assinatura.

Toda a tecnologia que eu tive acesso só aconteceu quando já era algo popular e acessível. O vídeo cassete foi inventado na década de 70, me recordo quando meu pai comprou o nosso, quando eu já tinha uns 14 anos, ou seja, 24 anos depois. Tínhamos duas televisões em casa, uma na sala e uma pequena na cozinha. Eu fui ver uma família com tv nos quartos, quando comecei a namorar minha atual noiva, com 18 anos de idade.

Meu primeiro computador foi comprado aos 18 anos, em um consórcio (acredite, consórcio, igual de carro, onde você tinha que esperar ser sorteado), em 24 vezes, onde eu e minha mãe dividíamos a parcela, pois eu já trabalhava desde os 14 e tinha meu salário. O meu salário aliás, que ajudava nas despesas de casa, pagava meu ônibus para o trabalho e escola, além de pagar meu almoço, quando eu podia almoçar.

Para quem mora no interior, ter acesso a canais de televisão, só aconteceu com a criação das antenas parabólicas. Minha infância inteira foi assistindo Globo e SBT. Por isso talvez, hoje os programas que lembram a minha infância seja Globo Rural, Pequenas Empresas, Grandes Negócios, Jô Soares.

Você também se sente deslocado por não ter um Playstation 3 ou XBOX? Sente-se ignorante por não falar inglês e nunca ter viajado para fora do país? Não se preocupe, você não é menos inteligente que ninguém, você apenas não teve acesso a toda informação e entretenimento que o dinheiro pode proporcionar. Antes de existir a Wikipédia, conhecimento era algo limitado para quem podia pagar por ele. Um bom colégio particular, livros, enciclopédias, viagens culturais.

Você gostaria de ter um blog com muitos acessos? Um vlog com muitos views? Um twitter com muitos seguidores? Alguma vez você parou para analisar que grande parte da galera que detém os maiores números de acessos no Brasil, são pessoas que em parte, ainda moram com os pais e são no mínimo de classe média, ou seja, podem perder muito tempo na internet, pesquisando inutilidades e gravando vídeos, enquanto ‘pessoas normais’ estão trabalham.

Antes de querer se tornar o mais novo Felipe Neto, você já imaginou se sua realidade é compatível com a realidade da internet?

Você que assim como eu, trabalha desde a adolescência e passou grande parte da sua vida trabalhando e estudando, não pode se dar ao luxo de perder horas jogando algum player qualquer. Eu não tenho um computador e uso internet por inclusão social e digital, trabalho com criação gráfica desde os meus 15 anos de idade e  somente por isso eu tenho um blog e um computador para postar nele. Se isso não fizesse parte do meu dia-a-dia, provavelmente eu não estaria aqui, o Gelo Negro não existiria e eu teria usado o dinheiro para alguma necessidade básica mais urgente.

Para piorar a situação, a internet transferiu todo o elitismo da vida real para as redes sociais. Gente ‘famosa’ só possui amigos famosos. Blogueiros, vlogueiros e twitteiros famosos, só trocam conteúdo entre si. Não se promove nada de qualidade na internet, o que importa são os números. Se você possui muitos acessos, talvez entre para o ‘clube vip da internet brasileira’, mas se tem apenas um conteúdo interessante, tá fora. Salvo quando alguma destas ‘webcelebrities’ enxergam em você alguma forma de acumular mais acessos. Não existe mais inoscência, cada atitude, cada palavra, cada link, cada tweet tem um preço, pagos em reais, em troca de falta de caráter.

Enquanto nós continuamos a nos sentir ‘estranhos no ninho’, estamos criando e alimentando monstros, colaborando para construir muros e grades invisíveis, porém igualmente intransponíveis. Estas pessoas esqueceram os princípios que fundamentaram a internet, só promovem conteúdo inútil ou aquilo que lhe agradam de forma pessoal. Você tem dúvida da existência deste elitismo? Quantas vezes você já ouviu frases como:

‘Orkut é coisa de pobre’
‘Culpa da inclusão digital’
‘O Facebook é o novo Orkut’

Fazem a associação: pobreza = ignorância. Se incomodam com alguém que faz uma foto em baixa resolução na favela, enquanto vlogs como do Galo Frito, falam de sexo para internautas de 8 anos de idade, o Rafinha Bastos pode escrotizar tudo e todos, o Felipe Neto pode falar de modinhas adolescentes, o Pc Siqueira pode reclamar das coisas inúteis de seu cotidiano, o Não Salvo pode publicar os vídeos mais bizarros da internet, como uma garota passando maionese nas partes íntimas, o Jacaré Banguela junto com o Kibe Loco podem publicar o que quiserem, inclusive capitalizando números através de todas as escatologias possíveis, o Chongas pode copiar artigos de sites mundo afora, tentando se passar por autor. Porém, quem está errado é o pobre coitado que tenta se virar para não se sentir excluído do mundo digital, já que do mundo real ele já foi.

– Não se preocupe se você não entender alguma piadinha nerd, você simplesmente fez mais da sua vida do que passar o dia inteiro em casa vendo tv.
– Não se preocupe se seu vídeo no Youtube não passou de 100 acessos, a maior parte destes acessos são de pessoas que você nem gostaria de conviver.
– Não se preocupe com seu status na internet, você pode e provavelmente tem uma vida mais real do que qualquer perfil famoso.

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