Memes, Para Nossa Alegria, Pc Siqueira, Aborto…

Hoje estava vendo a galera que foi ao programa da Eliana, por estar famoso na internet. Entre eles meu chará Jefferson, a Mara e a Suelen, que protagonizaram o vídeo ‘Para nossa alegria’. Ainda participaram a Ana do Tá e Daí?, o Mc Maloka, o Breno que fez um App para sua ex-namora Natasha e mais uma galera. Achei bacana ver todo mundo dançando e cantando a música Galhos Secos (para nossa alegria) e se divertindo com algo tão simples. Me senti mal de alguma vez ter criticado essa gurizada da internet, achei que poderia ser mais tolerante, pensei: ‘no fundo todo mundo só quer se divertir’.

Infelizmente meu arrependimento não durou cinco minutos. Entrei no Youtube e um novo vídeo do Pc Siqueira estava listado entre os últimos vídeos publicados. No vídeo o Pc Siqueira fala sobre a nova lei aprovada sobre o aborto no caso de bebês com anencefalia. Até aí tudo bem, o problema foi ele dizer que é favorável a aprovação da legalização do aborto sem qualquer pré-condição, pela simples escolha da mãe.

Para embasar sua opinião, usou a opinião de líderes religiosos que são contrários a prática do aborto. Temos que sempre ter cuidado com a recíproca. O fato do Pc Siqueira ser ateu, não pode fazer com que ele acredite que todas as opiniões de um líder religioso não devam receber crédito. Eu não pratico nenhuma religião e não acredito na legitimidade do aborto, independente de consequências religiosas. Se uma mulher que aborta vai para o inferno, isso pouco me interessa. Cada um acredita no que quiser acreditar, mas religião ou a falta dela, não pode passar por cima de uma questão simples: o aborto apenas pela escolha de não querer continuar uma gravidez é sim um assassinato. Tirar a vida de uma criança saudável apenas por vaidade ou por medo das consequências é inaceitável.

Pergunte para uma mulher com dificuldades para engravidar, o que ela pensa sobre o aborto. Pergunte para uma criança que foi adotada, se ela preferia ter sido abortada. Tão ridícula quanto a defesa usada pela igreja contra a prática do aborto é a defesa usada por quem o defende: ‘a mulher tem direito sobre o seu corpo’. Tudo na nossa vida possui prioridades e a defesa de uma vida certamente tem prioridade sobre a preservação do corpo de uma mulher.

Assim como se defende a ideia de que, ao beber e dirigir você assume o risco de matar alguém, ao transar sem camisinha ou qualquer outro contraceptivo, assume-se as chances de engravidar. Não consigo entender o que justifica a morte de uma criança, apenas pelo desejo de não levar uma gravidez adiante. Com a aprovação de uma lei legalizando o aborto, quantos namorados poderiam convencer suas namoradas a abortar. Quantos pais conseguiriam convencer suas filhas a abortar. Quantas mulheres poderiam agir por impulso e se arrepender depois.

Não é novidade os casos de mulheres que tentam abortar, não alcançam êxito em sua empreitada e em pouco tempo acabam aceitando sua gravidez. Fico decepcionado de ver um cara como o Pc Siqueira, falando qualquer coisa sem ao menos ponderar sobre o assunto, sabendo da idade de seus seguidores e não se preocupando com a influência que possui diante de crianças que estão formando seu caráter e seus valores. No fundo talvez essa nem seja de fato sua opinião, mas falar de aborto é sempre um assunto que rende e é de acessos que estes caras vivem.

Criar uma geração que acha normal o aborto é no mínimo terrível. Isso não tem nenhuma relação com religião, você não precisa ser temente a nenhum deus para acreditar na defesa da vida. Se existe ignorância por parte das religiões, existe uma ignorância ainda maior por parte daqueles que se intitulam ateus.

Em toda a história sobre ‘este tal Jesus’, contata nos evangelhos, sua mensagem era apenas de paz, amor e tolerância. Isso não impediu que guerras e massacres fossem comandados ao redor do mundo, em seu nome. Até hoje, não vi um relato que credencie a Jesus, o desejo de morte, de vingança. Por isso repito: ‘a recíproca nem sempre é verdadeira’. Ser favorável ao aborto por ser ateu é completamente ignorante. Temos que ter a capacidade de analisar o que é certo, diante de nossos próprios valores. Seguir cegamente uma religião é igualmente equivocado a acreditar que tudo que uma igreja defende, deve ser aplicado de forma inversa.

Os canais de televisão estão cheios de pastores e padres em busca de suas realizações pessoais, usando o nome de Jesus como justificativa. Isso não precisa me impedir de acreditar na existência de um Deus.

Qual será o futuro de Charles Manson?

Caso você não saiba quem é Charles Manson, eu lhe explico. Manson ficou ‘famoso’ mundialmente após ser condenado à pena de morte pela morte da atriz Sharon Tate, então esposa do diretor de cinema Roman Polanski e mais quatro amigos que estavam em sua casa, após estes assassinatos, integrantes da seita criada por Manson, invadiram outra casa e matoram mais um casal.

Manson conseguiu provar que não se envolveu diretamente nas mortes, mas foi condenado como líder do grupo. Sua pena de condenação à morte foi reduzida para prisão perpétua por uma mudança na lei um ano após sua condenação em 1972.  Manson acreditava em algo que chamava de ‘Healter Skelter’, expressão que ele retirou da música homônima dos Beatles. Antes do crime que marcaria sua tragetória, Manson já havia passado praticamente a vida na cadeia por diversos outros crimes, solto aos 33 anos de idade.

Detalhe para a suástica que Manson tatuou na própria testa.

Nesta época Manson era um cantor e compositor que vivia à margem da indústria fonográfica de Los Angeles e era sócio de Dennis Wilson, fundador e baterista dos The Beach Boys. Após os crimes de assassinato e sua condenação, músicos famosos resolveram gravar suas músicas, entre eles: Guns N’Roses, White Zombie e Marilyn Manson, que inclusive tem este nome em sua homenagem. Axl Rose usou em diversos shows, uma camiseta com o rosto de Manson estampado.

A seita criada por Manson, em 1968, chamada ‘Healter Skelter’, ocupava duas fazendas abandonadas no deserto conhecido como Death Valley (Vale da Morte). Na primeira fazenda foram expulsos e na segunda, Manson convenceu a senhora que cuidava da fazenda, dizendo que os integrantes da seita eram na verdade músicos e lhe deu em contrapartida, um disco de ouro original do Beach Boys. Nesta época, Manson ficou obsecado com o lançamento do White Album, dos Beatles. Ele acreditava que o álbum trazia mensagens subliminares, que somente os integrantes de sua seita eram capazes de decifrar.

A seita mudou de sede, para um casa amarela em Los Angeles, que Manson apelidou de Yellow Submarine, outra referência aos Beatles. Eles aguardavam um apocalipse eminente. Segundo Manson, após a morte de Martin Luther King, os negros se revoltariam contra os brancos, promovendo um massacre étnico. Como todo doido varrido, suas ideias misturam inúmeras influências que não fazem sentido algum.

Manson já teve 11 pedidos de condicional negados. Em muitos deles Manson ofendeu ou ridicularizou os agentes de condicional, em outras ele nem apareceu. Este ano, Manson terá direito a um novo pedido, será que ele vai querer sair da cadeia?

De uma forma estranha, mas não menos óbvia, Manson se tornou símbolo da contracultura dos anos 60, após uma matéria de capa feita pela Rolling Stones em junho de 1970.  Sua história continua reverberando pelo tempo, eternizada em canções gravadas por bandas mais novas como Kasabian. O desenho South Park também já fez um episódio dedicado a Charles Manson. Seu registro como prisioneiro é 06660, o que muitos costumam relacionar com o número 666 da besta diabólica. Fato que só aumenta o folclore diante de sua história.

 

Põe no ‘mute’ e pega a letra…

Muitos pensamentos percorrem a minha mente a todo o tempo. Não sei se isto é um problema para mim, certamente é para os outros, quando tento verbalizar essa confusão mental. Desde que conheci o trabalho do Criolo, já escrevi algumas coisas sobre ele por aqui, mas me parece que este é só o começo de tudo, tenho tanta coisa a dizer sobre ele. Quando você pega o álbum ‘Nó na Orelha’ e o ouve do início ao fim, percebe que ele é um ramo central. Cada música, cada ritmo, cada estrofe inicia uma nova ramificação que se multiplica a cada caminho que você escolhe percorrer.

Assistindo aos vídeos que encontro na internet, nas minhas incessantes buscas, comecei a perceber uma característica muito interessante. Apesar dos holofotes sobre o rap nacional, tendo justamente como representantes mais populares: Criolo e Emicida, é nítida a diferença entre ambos. Enquanto Emicida curte a fama, Criolo me parece entender que recebeu o chamado ao qual esperou por toda a vida. Lindamente ele não se omitiu e não ignorou a chance que tanto buscou.

Lhe deram o microfone, lhe deram voz e a hora chegou. Chegou o momento da convocação, da revolução nada silenciosa, ganhada no grito, o fim da escravidão mental. Quase como um evangelizador, Criolo usa todas as oportunidades que lhe são dadas, para ser porta-voz dos outros, nunca advoga em causa própria, mas sempre em causas coletivas, perdidas, esquecidas. Eu sinto que esse chamado que ele tenta promover, ainda não atingiu a todos na profundidade necessária para causar uma revolução efetiva, mas ao mesmo tempo não o vejo fraquejar. Por isso seu grito ficou silenciado por tantos anos. Criolo foi forjado em aço, mais afiado que todas as lâminas, mais certeiro que bala perdida.

Este levante não é contra o governo, não é contra uma classe social, é contra a ignorância e a desigualdade, não social, mas a desigualdade mental. Somos tão capazes quanto e precisamos enxergar o próximo da mesma forma, lhe dando oportunidade de alimentar o corpo, o espírito e a mente.

Verdadeiros líderes não se criam do dia para a noite, levam tempo, precisam envelhecer, maturar. O ‘Doido’, que desavisados poderiam confundir por ‘insano’, ‘descrontolado’, ‘maluco’, na verdade retrata o incompreendido. Sua confusão mental só incomoda os desatentos, os superficiais, os rasos.

Criolo é um sobro de esperança, na crença sobre a possibilidade por tantas vezes utópica, do incorruptível, do íntegro, do justo. Criolo se tornou o escolhido e tem consciência da importância que sua voz tem. A voz que é feita do coro de todos aqueles que prendem o grito, que sufocam, que suportam calados, silenciados pela desigualdade, pelo descaso, pelo esquecimento.

Cálice (música de Chico Buarque) na versão de Criolo

Corre pro trabalho sem levar um tiro
Volta pra casa sem levar um tiro
Se as 3:00 da matina tem alguém que frita
E é capaz de tudo para manter sua brisa
Os saral tiveram que invadir os butecos
Pois biblioteca não era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silêncio
E uma gente que se acha, assim, muito sabida
Há preconceito com o nordestino
Há preconceito com o homem negro
Há preconceito com o analfabeto
Mas não há preconceito se um dos três for rico, Pai!
A ditadura segue meu amigo Milton
A repressão segue meu amigo Chico
Me chamam Criolo, o meu berço é o rap
Mas não existe  fronteira para minha poesia.
Pai! Afasta de mim as biqueira
Pai! Afasta de mim as biat
Pai! Afasta de mim a cocaine
Pai! Pois nas quebrada escorre sangue
Pai! …

Eu espero de coração, que toda a afetação desse mundo torto não seja capaz de desviar mais um do nosso fronte…

Qual o futuro do rap?

Quando conheci o trabalho do Emicida, totalmente por acaso, assistindo um documentário, pensei: ‘Esse é o cara que vai mudar a cara do rap nacional, fazendo a sua revolução silenciosa’.

Revolução Silenciosa pode parecer contraditório, diante do fato que,  sua voz é seu instrumento de modificação, de evangelização, de conscientização.

Mas a cada apresentação do Emicida em um grande canal de televisão, conforme sua popularidade aumentava, crescia junto o meu receio, imaginando como ele sobreviveria com tudo isso, todos estes holofotes, todo este assédio. Como absorver e digerir todas essas mudanças? Já temos tantos casos para tomar de exemplo, talvez venha daí o receio.

Sem dúvida, essa não é uma preocupação original, de fato talvez seja até a primeira questão levantada quando um artista da periferia conquista outras classes sociais.

‘Eu sou uma daquelas banda que ninguém bota fé
Até que um puto dá play e diz: Hey! legal né!’

Deixar de ser underground, deixar de ser ‘rua’, para frequentar o mainstream da música. Onde rola dinheiro e muito ego. Essa dúvida que paira no ar, não passou despercebida por ele mesmo, está em cada letra de música, em forma de resposta, em forma de defesa:

‘Uns rimam por ter talento, eu rimo porque eu tenho uma missão
Sou porta-voz de quem nunca foi ouvido
Os esquecidos lembram de mim porque eu lembro dos esquecidos
Tipo embaixador da rua’

‘Aqui cê tem que pedir desculpa por ter feito mais que os outros …’

É legítimo e inevitável o grito da conquista, a afirmação de: ‘eu cheguei lá’. Mas tão certo quanto isso, é a inevitável afetação que todas estas mudanças causam na mente de alguém. Seja você quem for, tenha você a origem que tiver, nos acostumamos muito fácil, é inerente ao ser humano. Nem se trata de princípios e nem importa seus valores, de fato é apenas a necessidade de adaptação. Assim como você um dia se adaptou na probreza, na falta, na dificuldade, agpra precisa se adaptar a fartura, ao dinheiro, ao meio, as pessoas, mentalidades, filosofias.

Tenho acompanhado dia a dia os passos do Emicida, cada declaração, cada apresentação, cada vídeo, cada registro. Me entenda, esta não é uma tentativa de cobrança ou condenação, não tenho esse direito, não sou juiz de nada e de ninguém, nem sei como seria na minha própria pele. No início todo mundo se garante, todo mundo diz que não vai mudar, mas infelizmente quando você percebe, é muito tarde para voltar atrás. É como atravessar um portal que se fechará após sua passagem. É inevitável e nem estou avaliando se esta mudança seja prejudicial, talvez, o futuro do rap nacional nunca esteve em melhores mãos. Talvez só achamos ruim, porque nós continuamos deste lado do portal.

O fato é que muito daquilo que foi dito, escrito e rimado, só continuará fazendo sentido para você e para mim, longes de toda essa afetação. Talvez, aquele Emicida que eu conheci e aprendi a admirar como porta-voz dos esquecidos, dos negligenciados, não seja mais o mesmo ou talvez não possa ser. Quem sabe aqueles que o cercam não sejam mais os mesmos, impedindo-nos de avaliar com mais clareza e justiça. O que sabemos com toda certeza é que será impossível continuar falando com a mesma profundidade e certeza, daquilo que antes era ferida aberta e agora é só cicatriz.

Será que perderemos mais um para o mundo fugaz? Hoje fiz um teste, sempre mandei recados para o Emicida, Lab Fantasma e Fioti. Até hoje, só fui replicado quando fiz algum elogio. Em todas as minhas perguntas ou em todos os emails que mandei, o silêncio prevaleceu. Nas atividades do twitter, vejo a cada dia estes perfis seguindo mulheres bonitas e gente famosa. Tudo bem, sabemos que as coisas acontecem assim, sabemos as regras do jogo, mas seria tão bom ver algo diferente acontecendo, vendo a mesma revolução das ruas sendo levada para a internet, tão carente de bons exemplos.

Usar toda a admiração conquistada, para de fato fazer a diferença, não só na ideologia e no discurso, mas nas atitudes, assim como o próprio clipe de ‘Então Toma!’ já profetizou. Escreve aí, hoje mandei um tweet, com a seguinte frase:

O poder, a fama e o dinheiro são implacáveis na sua missão de corromper mentes e corações. @emicida

Será que seguinte a cronologia normal do twitter, agora serei respondido?

Che Guevara disse uma vez: ‘A revolução se leva no coração, não na boca para se viver dela’. E agora José? Será que ficaremos novamente no discurso?

Novos desafios

Ontem encaminhei meu primeiro texto escrito para uma finalidade profissional. Apesar de me dedicar de coração para escrever algo realmente relevante e não somente mais alguma filosofia barata de Facebook, não está envolvendo a busca por resultados, o que torna a tarefa mais simples. Inclusive, em uma espécie de movimento contrário pela busca de acessos, já pensei diversas vezes em eliminar o sistema do contador, pois percebo a diferença que essa consciência nos traz. Tento não moldar meus assuntos conforme aquilo que notoriamente traz mais acessos, me soa falso, forçado.

Ontem no entando, tive que sentar para escrever meu primeiro artigo que será avaliado profissionalmente. Coincidentemente, foi ontem que comprei um teclado novo, baratinho, que encontrei no setor de eletrônicos do supermercado. Minha realidade financeira não permitia esse luxo de R$ 47,00, mas algum impulso dizia que valeria o esforço. Se este texto me trouxer uma resposta positiva para aquilo que estou buscando, vou achar que ele é ‘pé quente’. Um dia vou pendurar ele na parede, como lembrança da minha mudança de vida, será?

Não sei se alguém está interessado em saber sobre os acontecimentos da minha vida, grande parte dos acessos do site se dão por pesquisas de trilhas sonoras, filmes ou algo que não seja da minha autoria. De qualquer forma, como disse anteriormente, não posso me moldar pelos números. Quando escrevo qualquer coisa aqui, não espero que isso faça a diferença para milhares de pessoas, é fácil entender que a grande maioria dos internautas não possui tempo para perder, lendo qualquer bobagem na internet.

Escrevo necessariamente para mim, para lembrar destes sentimentos que nos invadem, motivados pelas circunstâncias e que talvez não façam o completo sentido depois. Se tudo correr como deveria, talvez em breve eu esteja vivendo uma realidade muito diferente da atual. Se não der certo essa tentativa, vou continuar na busca que iniciei há algum tempo, na tentativa de viver uma vida mais entusiasmante.

É estranho, mas um teclado novo nos traz a vontade de escrever coisas novas. Se lançar em novos desafios. As teclas suaves parecem ajudar na tentativa de transcrever de forma mais instantânea o que fervorosamente havia minha mente, que não para nunca, refletindo, pensando, analisando, lembrando, tentando encontrar respostas que só o tempo pode responder, no exato momento em que achar conveniente.

Nunca me imaginei vivendo da escrita, passei os últimos vinte anos vivendo das cores, dos traços, dos gráficos. De uma forma ainda pouco clara, me parece que acontecimentos recentes vieram afirmar a necessidade de arriscar, de tentar um novo caminho, menos provável, menos óbvil. Quem sabe este seja o meu momento de recomeçar, de voltar a acreditar, reconstruir minhas expectativas diante da minha vida, que parecia tão inerte. Assim como em um ambiente sem gravidade, preciso apenas de uma força propulsora para dar início a uma nova jornada.

Queria que Deus me olhasse por um segundo e dissesse: Fica tranquilo que este é apenas o começo. É chegada a hora, vá e cumpra o seu destino.

 

 

50 ANOS A MIL – Lobão

Sempre acreditei que um bom livro, uma boa música, enfim, começam com um bom título. Ou você nunca se convenceu a comprar algum livro ou ouvir algum canção pela curiosidade de encontrar uma justificativa, um significado que soe particular?

A minha história silenciosa com o Lobão, silenciosa porque ele nunca fez e provavelmente nunca fará ideia da minha existência, aconteceu na mesma intensidade de suas declarações. Me recordo de um epísódio bem particular. Acredito realmente que meu gosto musical tenha sido forjado as custas da minha realidade financeira, afinal um pobre querendo adquirir cultura, precisa escolher com precisão o único cd que eu podia comprar a cada mês. Era 1999 e Lobão era uma metralhadora (sendo cliché), mirando na cabeça da hegemonia das gravadoras, lançando algo que parecia apenas anarquia ou ressentimento, que mais tarde se revelou algo extremamente coerente. De maluco a visionário, talvez o caminho de todos eles.

Eu com minha sensação de inadaptável, de incompreendido, achei o máximo aquilo tudo. Um suicídio profissional e social ao mesmo tempo, é tudo o que alguém que se sente injustiçado e subestimado quer: performático, dramático, cinematográfico, sempre insólito.  Não restava dúvidas, no outro dia estava comprando ‘A Vida é Doce’, que acompanhava uma revista, quase uma espécie de encarte em formato A4. Quem não se recorda do episódio, Lobão lançou um formato de distrubuição de cds ainda inédito no país, através de banca de revistas e livrarias, segundo ele, nenhuma gravadora estava interessada em lançar seu trabalho. O formato independente que hoje deu vida a inúmeras carreiras, naquela época era quase um mundo paralelo.

Entranhamente, diante da morte do meu pai (2000), ironicamente uma canção com o título de ‘A vida é doce’ era uma das poucas que eu ouvia, na vivência consumista do meu luto. Suas apresentações completamente performáticas, recheada de gritos e revolta traziam um trecho que sinteticamente dizia: ‘que morreram, que fugiam, que nasciam, que perderam, que viveram tão depressa, tão depressa, tão depressa’. A música conta um pouco das vidas que se vão em vão, como eu achava que foi a perda do meu pai e para mim, aquilo fazia todo o sentido.

Ouça:

Depois vi uma entrevista do Lobão criticando o rock nacional e resolvi jogar o cd fora da janela, no terreno baldio que havia ao lado de casa, no único ato de rebeldia que me restava. Desde lá nunca mais ouvi nada dele e nunca me interessei em saber nada também. Sete anos depois, em 2007 ele lança seu Acústico MTV e fiz exatamente como todo mundo (leia-se muita gente), pensei: ‘Mas não era você o incompreendido? O revolucionário? Agora se rendendo para o maior celeiro de idiotices musicais? Quem diria, até tú, Lobão…?’

Fui voltar a ouvir Lobão após uma apresentação dele no Altas Horas, no mesmo ano, após trocar ‘ninguém pensaria que ela quer namorar’, por um silábico ‘ninguém pensaria que ela quer FUDEEEEERRRRR’, impedindo até que o programa colocasse um ‘píííííí’ gigante. Se faz algum sentido eu não sei, mas em volto a tantas críticas, vi que ele continuava o mesmo Lobão de sempre ou quem sabe o Lobão que eu queria parecesse para mim. Depois vi outras entrevistas dele e diante de tantos acontecimentos na minha vida, passei a entender que de fato, não existe nada incoerente em tudo isso. No fundo, um dia você acaba aprendendo, como ele mesmo disse, que é totalmente ingênua a esperança em querer mudar o mundo.

Não existe nenhum mérido em se tornar um mártir, você não vai desfrutar nada que vier in memoriam. Ninguém deveria enxergar qualquer mérito em ser póstumo, até porque não existe dificuldade alguma em se tornar santo depois de partir daqui. Não deveríamos nos importar tanto com as escolhas e ideologias alheias. Nossas escolhas são individuais e cabe a cada um pagar o preço por elas.

Todo o caminho que o Lobão conseguiu trilhar com o fim das drogas (?!) e com uma atitude mais tolerante, lhe deu a oportunidade de estar em muito mais lugares e propagar de forma muito mais eficaz alguns de seus pensamentos e existe muito mais mérito em fazer isso em vida do que esperar alguém fazer isso por você depois, corre o risco de nunca fazerem e além de incompreendido em vida, será um anônimo em morte. Escrever uma autobiografia como ele fez, com ’50 anos a Mil’, ajuda a colocar os pontos nos ‘is’, recontar a história segundo ele mesmo, reconstruindo a percepção das pessoas ou embasando algumas. Ele poderia ter feito tudo diferente, continuar vestindo a capapuça do algoz, continuar gerando conteúdo para um jornalista aqui e outro ali, aproveitando a sua possível ingenuidade de ser tão previsível. Quer polêmica? Entrevista o Lobão.

Não que ele tenha virado um cordeiro, no máximo uma sagaz raposa com pelo macio e branquinho. Agora suas críticas são muito mais colocadas, direcionadas e intencionais. Quando eu tiver condições ($) de comprar seu livro, quero muito ler e conhecer um pouco mais sobre tudo que aconteceu em 50 anos a 1000km/h.


‘As intempéries são meus halteres’

Next Posts