Regina Spektor – Novo álbum

Eu já acompanho a carreira da Regina Spektor desde 2008 e podia jurar que já havia falado sobre ela aqui.

Bio

Regina Spektor ou Pernha Cnektop, no alfabeto cirílico*, nasceu em 18 de fevereiro de 1980, em Moscou. Regina é cantora, compositora e pianista. Hoje radicada no Estados Unidos, sua música é associada ao cenário antifolk de NY, no East Village. Regina nasceu ainda na extinta União Soviética e teve influência da família para escolher sua profissão. Sei pai era fotógrafo e violonista amador e sua mãe era professora de música da Universidade de Música Russa. Atualmente leciona em uma escola pública em NY. Suas primeiras influências musicais foram The Beatles e Queen, que ela ouvia em fitas cassetes que seu pai conseguiu.

Por questões políticas e religiosas, sua família emigrou para a Áustria, Itália e finalmente para os Estados Unidos. Inicialmente seu interesse era apenas pela música clássica, devido sua formação em piano clássico, depois vieram as influências de hip hop, rock e punk.

Regina se formou pelo Conservatório de Música no Colégio Purchase em apenas três anos, quando o tempo normal seria de quatro anos. Regina diz ter criado mais de 700 canções, sendo raras aquelas autobiográficas. Nas influências diretas de suas canções está uma verdadeira salada de frutas com folk, punk, rock, música judaica, russa, hip hop, jazz e claro, música clássica. Comparações musicais ficam por conta de Tori Amos e Fiona Apple, já nos vocais se assemelha mais a Björk.

A primeira tour da sua carreira foi abrindo shows do The Strokes, entre 2003 e 2004. O Kings of Leon também abriu shows do The Strokes e por isso, convidaram Regina para abrir shows da banda quando se tornaram mais populares. Em 2005 também abriu shows para a banda inglesa Keane. Apesar de tentar cantar apenas composições próprias, já fez covers do mestre Leonard Cohen e Madonna. Sua primeira tour com shows próprios foi em 2006 e 2007 passando pelos Estados Unidos e Europa, tocando um cover de John Lennon para a canção ‘Real Love’.

No Brasil ela ficou conhecida após a canção Fidelity ser adicionada à trilha de ‘A Favorita’, novela da Globo.

Discografia

1999 Demo Cassette – Não Lançado
2001 11:11 – Independente
2002 Songs – Independente
2003 Soviet Kitsch – Independente
2004 Soviet Kitsch – Relançado pelo selo Sire
2006 Begin to Hope – Sire
2009 Far – Sire
2010 Regina Spektor Live in London – Sire
2012 What We Saw from the Cheap Seats – Sire

Trilhas

As canções de Regina Spektor já embalaram alguns filmes e séries, entre ele:

2007 – Grey’s Anatomy
2008 – As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian
2009 – (500) Dias com ela
2009 – Uma Prova de Amor
2011 – Amor e outras Drogas
2011 – A Fera

What We Saw from the Cheap Seats

O mais novo álbum de Spektor foi lançado na última sexta, dia 25, com duas versões: normal e deluxe. Os destaques iniciais ficam por conta das canções Don’t Leave Me e All the Rowboats.

Playlist

  1. Small Town Moon 2:59
  2. Oh Marcello 2:36
  3. Don’t Leave Me (Ne me quitte pas) 3:37
  4. Firewood 4:51
  5. Patron Saint 3:38
  6. How 4:45
  7. All the Rowboats 3:33
  8. Ballad of a Politician 2:13
  9. Open 4:27
  10. The Party 2:25
  11. Jessica 1:44

Exclusivo da versão DE

Call Them Brothers (feat. Only Son) 3:07
The Prayer of François Villon (Molitva) [Cover Song in Russian] 3:33
Old Jacket (Stariy Pedjak) [Cover Song in Russian] 2:04

Download

Em breve disponibilizo um link para o download quem não usa iTunes e não tem onde comprar o álbum. Quem quiser comprar na AppStore é só clicar no link abaixo.

* Alfabeto cirílico também conhecido como Azbuka, é um alfabeto cujas variantes são utilizadas para a grafia de seis línguas nacionais eslavas (bielorrusso, búlgaro, macedônio, russo, sérvio e ucraniano), além do ruteno, e outras línguas extintas. Para além disso é usado por várias línguas não-eslavas, faladas na antiga União Soviética – como o mongol, o cazaque, o uzbeque, o quirguiz e o tadjique, entre outras da Europa Oriental, do Cáucaso e da Sibéria.

alt-J (Δ)

Uma das grandes promessas musicais para este ano é o grupo Alt-J. Demorei para encontrar uma referência oficial sobre a banda, para ter certeza de não propagar bobagens, já que não existe nada sobre eles na Wikipedia por exemplo.

A Banda

O nome do grupo alt-J (Δ) precisa de um pouco de explicação. O nome oficial da banda é apenas o símbolo Δ (delta), mas a pronúncia é ‘alt-J’, já que este é o comando utilizado nos computadores Mac, para criar o símbolo. O símbolo tem ainda outro significado para a banda, o guitarrista e baixista Gwil Sainsbury define:

“em equações matemáticas o Δ é usado para mostrar a mudança”

De fato o nome representa um momento decisivo de mudança na vida dos seus integrantes.

Gwil, Joe Newman (guitarra e  vocal), Gus Unger-Hamilton (teclados) e Thom Verde (bateria) se conheceram na Universidade de Leeds em 2007. Gus estudou Literatura Inglesa, enquanto os outros três fizeram o curso de Artes. Em seu segundo ano de estudos, Joe apresentou para Gwil um punhado de composições próprias, músicas inspiradas por seu pai guitarrista e um tanto de alucinógenos. Os dois começaram a gravar em seus dormitórios com Gwil atuando como produtor de banda de garagem.

Desnecessário dizer que a resposta silenciosa de Joe aos falsetes, gritos e habilidades rudimentares de Gwil ficaram boas. Quando Thom foi apresentado às faixas, ele entrou para a banda imediatamente. “Eu não tinha ouvido nada parecido”, diz ele. “Foi a música que eu estava procurando, eu só não sabia que eu queria. Eu simplesmente adorei. “

Gus concluiu a formação da banda e, juntos – primeiro com o nome Daljit Dhaliwal e depois como Films – os quatro amigos passaram os próximos dois anos tocando em torno da cidade. Eles lançaram o apelido de Films em 2007, mas precisavam muda-lo, em parte para evitar confusão com a banda do punk californiano The Films, assim nasceu o alt-J (Δ), o que deu-lhes um nome exclusivo para se tornarem popular. O nome foi inventado no porão de uma casa em Cambridgeshire, condado da cidade de Cambridge na Inglaterra.

Clipe

O belo clipe produzido para a música Breezeblocks que consta do álbum de estreia da banda, certamente catapultou o alt-J para o sucesso. Está mais para um curta metragem que um clipe, do jeito que todo clipe deveria ser.

Diretor: Ellis Bahl
Produção: Jessica Bermingham
Produção Executiva: Tessa Travis
Produtora: Project Fathom
Selo: Infectious Music UK

An Awesome Wave

O alt-J acaba de lançar seu primeiro álbum, muito recentemente mesmo, ficou disponível na iTunes a partir do dia 25 de maio.

Playlist

  1. Intro
  2. Interlude I (Ripe & Ruin)
  3. Tessellate
  4. Breezeblocks
  5. Interlude II (Guitar)
  6. Something Good
  7. Dissolve Me
  8. Matilda
  9. Ms
  10. Fitzpleasure
  11. Interlude III (Piano)
  12. Bloodflood
  13. Taro
  14. Hand-Made

Se quiser ouvir o álbum todo em streaming, basta entrar no site oficial da banda:

www.altjband.com

Bon Iver – Sensação do Grammy 2012

Conheci o ‘Bon Iver’ quando conheci a cantora Birdy, ao citar seu nome na postagem onde conto um pouco da biografia desta jovem e talentosa artista. No mesmo dia comprei os dois álbuns da banda, por pura curiosidade. Gostei bastante e queria fazer um post sobre o assunto, demorei e agora serei só mais um blog ao redor do mundo que vai falar da banda que levou dois Grammys para casa (#fail).

A Banda

O Bon Iver nasceu em 2007 pela iniciativa do cantor e compositor americano ‘Justin Vernon’. Com ele vieram Michael Noyce (vocais, guitarra barítono, guitarra), Sean Carey (bateria, vocal, piano) e Matthew McCaughan (baixo, bateria, vocais). Noyce inclusive, foi aluno de guitarra de Vernon durante o colégio. Carey se aproximou de Vernon em um dos primeiros show do Bon Iver, dizendo que sabia cantar todas as músicas. McCaughan conheceu Vernon durante uma turnê que fazia com a banda de indie/rock ‘The Rosebuds’ em maio de 2007.

For Emma, Forever Ago

Vernon teve outra banda chamada DeYarmond Edison de 2002 a 2006. Após o fim da banda, o fim de um relacionamento e um ataque de mononucleose, Vernon voltou para Wisconsin, na Carolina do Norte, para passar os meses de inverno. Acamado pela doença, ficou assistindo a série ‘Northern Exposure’ em DVD. Um dos episódios mostrava pessoas desejando um ‘bon hiver’ do francês, que em português significa: ‘bom inverno’. Ele não tinha a intenção de gravar nada neste tempo, mas o isolamento forçado e um tanto catártico acabou ajudando em novas composições. Vernon gravou todas as canções sozinhas, inclusive todos os instrumentos. Desta gravação demo, foram prensados 500 cds. Os cds foram encaminhados para imprensa e blogs que acabaram divulgando o álbum.

Em fevereiro de 2008, ‘For Emma, Forever Ago’ foi lançado oficialmente no Reino Unido e Europa. Depois vieram novas críticas positivas, iTunes, séries de TV e todo aquele caminho de todo artista indie. Em 2011 chega o segundo e aclamado álbum, estranhamente homônimo. Posso estar enganado, mas é a primeira discografia que eu conheço, que o disco homônimo não é o álbum de estreia.

Bon Iver

Com seu álgum de 2011, o grupo ‘Bon Iver’ recebeu nada menos que quatro indicações ao 54th Grammy, nas categorias: ‘Artista Revelação’, ‘Melhor Álbum de Música Alternativa’, ‘Canção do Ano’ e ‘Gravação do Ano’. Levou dois: Artista Revelação e Melhor Álbum Alternativo, batendo ninguém menos que o aclamado Radiohead.

Discografia

2008 … Para Emma, Forever Ago
2011 … Bon Iver, Bon Iver

Gotye

Conheci este músico após a cantora Ingrid Michaelson regravar uma de suas canções, em seu projeto Army 3. A música em questão é ‘Somebody That I Used To Know’ e originalmente foi gravada por Gotye no seu álbum ‘Making Mirrors’, lançado no ano passado.

Wouter “Wally” de Backer nasceu em 31 de maio de 1980, em Bruges, Bélgica, porém hoje vive na Austrália. Além de cantor, Gotye é compositor e multi-instrumentista. Lançou três albuns independentes, porém somente dois deles são vendidos na iTunes. Na Austrália já recebeu cinco prêmios no ARIA Awards. Além da carreira solo, Gotye faz parte do The Basics, um trio de músicos com base na cidade de Melbourne.

Na realidade, de Wouter viveu apenas seus dois primeiros anos de vida na Bélgica, quando sua família se mudou para a Australia. Na escola era chamado de Walter, variação em inglês de seu nome belga ‘Wouter’. Talvez seja por essa ‘dupla personalidade’, que Gotye resolveu inserir mais uma variação do seu nome original. Gotye deriva de Gaultier, a tradução francesa para Wouter/Walter. Ainda na escola, Gotye formou uma banda com mais três amigos, sendo que um deles, Lucas Taranto, toca em seus shows até hoje. Suas influências musicais passam por Depeche Mode (ótima banda, se não conhece, procura conhecer) e Kate Bush.

Aos 21 anos seus pais resolveram se mudar e para que Gotye não deixasse os estudos, ficou morando com amigos na antiga casa de seus pais, foi então que um vizinho bastante idoso, após ouvir sua banda, Downstars ensaiando, deu a Gotye todos os LP’s de sua falecida esposa. A banda se separou e Gotye não sabia como continuar sua carreira, afinal ele não era o vocalista e sim o baterista da banda.

Um amigo lhe incentivou a tentar os vocais e ele seguiu em frente. No mesmo ano, em 2001, Gotye gravou um EP, fez apenas 50 cópias com capas escritas a mão e distribuiu uma a uma em diversas rádios da cidade. Neste tempo, Gotye encontrou o vocalista Kris Schroeder, viraram amigos e criaram o duo The Basics. Fizeram turnê e entre os anos de 2004 e 2010, gravaram quatro álbuns juntos. Ao seu EP, Gotye acrescentou mais duas canções e lançou o álbum ‘Boardface’, no fim de 2003.

Em 2004 seus pais resolvem vender a casa, obrigando Gotye a dividir um apartamento. Ele continuou se apresentando com o The Basics, além de trabalhar em uma biblioteca local. Ao longo dos anos, Gotye passou a mudar de casa constantemente. Desta colcha de retalhos nasceu o álbum ‘Like Drawing Blood’, uma referência as dificuldades que teve para gravar suas canções. O álbum fez bastante sucesso local e foi escolhido como o melhor de 2006, pelos ouvintes da rádio Triple J. O álbum recebeu ainda um disco de ouro pelas 35.000 cópias vendidas.

Seu sucesso internacional no entanto, viria com Making Mirros, de 2011. Com o sucesso do álbum anterior, Gotye finalmente pode ter uma casa permanente, no sul de Melbourne. Em 2010 ele montou um estúdio de gravação,  no celeiro da fazenda de seus pais. Em outubro de 2010 era lançado o single ‘Eyes Wide Open’, que foi indicado ao APRA Awads de 2011. Em março de 2011 ele enfim revelou o nome do novo álbum, que foi inspirado em um quadro pintado por seu pai, perdida entre coisas velhas. A arte pintada por seu pai, foi digitalizada e transformada na capa do álbum.

O álbum ficou no top #1 do ARIA Australiano. Na ocasião, Gotye igualou o feito de ter um álbum e um single como #1, simultaneamente, fato que somente o grupo Silverchair tinha alcançado até então. Foi nomeado para sete categorias do ARIA Awards.  A cantora que divide a música  ‘Somebody That I Used To Know’ com Gotye é a neo-holandesa Kimbra.

Discografia

Boardface (2003)
Like Drawing Blood (2006)
Hearts a Mess (Remixes 2009)
Making Mirrors (2011)

Afinal, quem foi Clarice Lispector?

Se você possui Facebook, certamente já se deparou com algum texto ou citação atribuida a Clarice Lispector. Certamente muito deste material, de fato nem foi escrito por ela, mas é comum este tipo de situação, por ignorância ou na tentativa de promover um texto, usando o seu reconhecimento como escritora. Mas apesar de ouvir tanto falar em Clarice Lispector, será que você sabe quem ela realmente foi? Quer descobrir?

Clarice Lispector, nascida Haia Pinkhasovna Lispector (Tchetchelnik, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora e jornalista brasileira, nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira.

O Início…

De origem judaica, Clarice foi a terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. Nasceu na cidade de Tchetchelnik enquanto seus pais percorriam várias aldeias da Ucrânia por conta da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921. Chegou ao Brasil quando tinha dois meses de idade e sempre que questionada sobre sua nacionalidade, Clarice afirmava não ter nenhuma ligação com a Ucrânia: – ‘Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo’. Dizia que sua verdadeira pátria era o Brasil.

A família chegou a Maceió em março de 1922, sendo recebida por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin. Por iniciativa de seu pai todos mudaram de nome, exceto Tânia, uma de suas irmã. O pai passou a se chamar Pedro, Mania passou a se chamar Marieta, Leia, sua outra irmã, passou a ser Elisa e Haia, por fim, se tornou Clarice.

Pedro passou a trabalhar com Rabin, já um próspero comerciante, porém com dificuldades de relacionamento com Rabin e sua família, Pedro decide mudar-se para Recife, então a cidade mais importante do Nordeste. Clarice Lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade do Recife, onde passou parte da infância no bairro de Boa Vista. Estudou no Ginásio Pernambucano de 1932 a 1934. Falava vários idiomas, entre eles o francês e o inglês. Cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno, o Iídiche, um idioma falado por algumas comunidades judaicas.

Sua mãe morreu em 21 de setembro de 1930, quando Clarice tinha 9 anos, após vários anos sofrendo com as consequências da Sífilis, supostamente contraída por conta de um estupro sofrido durante a Guerra Civil Russa, enquanto a família ainda estava na Ucrânia. Clarice sofreu com a morte da mãe e muitos de seus textos refletem a culpa que a autora sentia e figuras de milagres que salvariam sua mãe. Quando tinha 15 anos seu pai decidiu se mudar para o Rio de Janeiro. Sua irmã Elisa conseguiu um emprego no ministério, por intervenção do então ministro Agamemnon Magalhães, enquanto seu pai teve dificuldades em achar uma oportunidade na capital.

Clarice estudou em uma escola primária na Tijuca até ir para o curso preparatório para a Faculdade de Direito. Foi aceita para a Escola de Direito na então Universidade do Brasil em 1939. Se viu frustrada com muitas das teorias ensinadas no curso e descobriu um escape: a literatura. Em 25 de maio de 1940, com apenas 19 anos, publicou seu primeiro conto ‘Triunfo’ na Revista Pan. Três meses após uma cirurgia simples para a retirada de sua vesícula biliar, seu pai Pedro morre de complicações do procedimento.

As filhas ficam arrasadas com as circunstâncias da morte tão inesperada e como consequência, Clarice se afasta da religião judaica. No mesmo ano, Clarice chama a atenção de Lourival Fontes, então chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (órgão responsável pela censura no Estado Novo de Getúlio Vargas), provavelmente com o conto ‘Eu e Jimmy’ e é alocada para trabalhar na Agência Nacional, responsável por distribuir notícias aos jornais e emissoras de rádio da época. Lá conheceu o escritor Lúcio Cardoso, por quem se apaixonou (não correspondido, já que Lúcio era homossexual) e de quem se tornou amiga íntima.

Em 1943, no mesmo ano de sua formatura, casou-se com o colega de turma Maury Gurgel Valente, futuro pai de seus dois filhos. Maury foi aprovado no concurso de admissão na carreira diplomática e passou a fazer parte do quadro do Ministério das Relações Exteriores. Em sua primeira viagem como esposa de diplomata, Clarice morou na Itália onde serviu durante a Segunda Guerra Mundial como assistente voluntária junto ao corpo de enfermagem da Força Expedicionária Brasileira. Também morou em países como Inglaterra, Estados Unidos e Suíça, países para onde Maury foi escalado. Apesar disso, sempre falou em suas cartas a amigos e irmãs como sentia falta do Brasil.

Em 10 de agosto de 1948, nasce seu primeiro filho, Pedro, em Berna na Suiça. Quando criança Pedro se destacava por sua facilidade de aprendizado, porém na adolescência sua falta de atenção e agitação foram diagnosticados como esquizofrenia. Clarice se sentia de certa forma culpada pela doença do filho, e teve dificuldades para lidar com a situação. Em 10 de fevereiro de 1953, nasce Paulo, o segundo filho de Clarice e Maury, em Washington, D.C., nos Estados Unidos. Em 1959 se separou do marido que ficou na Europa e voltou permanentemente ao Rio de Janeiro com seus filhos, morando no Leme.

No mesmo ano assina a coluna ‘Correio Feminino – Feira de Utilidades’, no jornal carioca Correio da Manhã, sob o pseudônimo de Helen Palmer. No ano seguinte, assume a coluna ‘Só para mulheres’, do Diário da Noite, como ghost-writer da atriz Ilka Soares.

No dia 14 de setembro de 1966, Clarice provoca um incêndio ao dormir com um cigarro acesso e seu quarto fica destruído, além da escritora ser hospitalizada entre a vida e a morte por três dias. Sua mão direita é quase amputada devido aos ferimentos e depois de passado o risco de morte, ainda ficou hospitalizada por dois meses.

Em 1975 foi convidada a participar do ‘Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria’, em Cali na Colômbia. Fez uma pequena apresentação na conferência e falou do seu conto ‘O ovo e a Galinha’, que depois de traduzido para o espanhol fez sucesso entre os participantes. Ao voltar ao Brasil, a viagem de Clarice ganhou ares mitológico, com jornalistas descrevendo (falsas) aparições da autora vestida de preto e coberta de amuletos. Porém, a imagem se formou, dando a Clarice o título de ‘A grande bruxa da literatura brasileira’.

Seu próprio amigo Otto Lara Resende disse sobre a obra de Lispector: – ‘não se trata de literatura, mas de bruxaria’.

O Fim…?

Clarice foi hospitalizada pouco tempo depois da publicação do romance ‘A Hora da Estrela’, com câncer inoperável no ovário, diagnóstico desconhecido por ela. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos. Foi enterrada no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro, em 11 de dezembro. Até a manhã de seu falecimento, mesmo sob sedativos, Clarice ainda ditava frases para a amiga Olga Borelli. Durante toda sua vida Clarice teve diversos amigos de destaque como Fernando Sabino, Lúcio Cardoso, Rubem Braga, San Tiago Dantas e Samuel Wainer, entre diversos outros literários e personalidades.

Ilustração: By Jubran

Obras

1943 – Perto do Coração Selvagem – Romance
1946 – O Lustre – Romance
1949 – A Cidade Sitiada – Romance
1960 – Laços de Família – Contos
1961 – A  Maçã no Escuro – Romance
1964 – A Legião Estrangeira – Contos
1964 – A Paixão Segundo G.H. – Romance
1967 – O Mistério do Coelho Pensante – Infantil
1968 – A Mulher que Matou os Peixes – Infantil
1969 – Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres – Romance
1971 – Felicidade Clandestina – Contos
1973 – Água Viva – Romance
1974 – Onde Estivestes de Noite – Contos
1974 – A Via Crucis do Corpo – Contos
1974 – A Vida Íntima de Laura – Contos
1977 – A Hora da Estrela – Romance

Póstumos
1978 – Para Não Esquecer – Crônicas
1978 – Um Sopro de Vida – Romance
1978 – Quase de Verdade – Infantil
1979 – A Bela e a Fera – Contos
1987 – Como Nascem as Estrelas – Infantil

Copilações
2002 – Correspondências – Org. Teresa Montero
2004 – Aprendendo a Viver – Crônicas – Org. Pedro K. Vasquez
2005 – Aprendendo a Viver – Imagens
Ed. de Textos: Teresa Montero
Ed. de Imagens: Luiz Ferreira

2005 – Outros Escritos – Org. Lícia Manzo e Teresa Montero
2006 – Correio Feminino – Org. Aparecida Maria Nunes
2006 – A Hora da Estrela – Ed. Especial c/ Áudio Livro
2007 – Clarice Lispector Entrevistas
2007 – Minhas Queridas – Org. Teresa Montero
2008 – Só para Mulheres – Org. Aparecida M. Nunes
2008 – A Descoberta do Mundo – Crônicas
2009 – Clarice na Cabeceira – Contos – Org. Teresa Montero
2010 – De Amor e Amizade – Crônicas para Jovens
2010 – De Escrita e Vida – Crônicas para Jovens
Organização (ambos): Pedro Karp Vasquez

2010 – Clarice na Cabeceira – Contos – Org. Teresa Montero
2010 – O Mistério do Coelho Pensante e Outros Contos – Infantil
2011 – Do Rio de Janeiro e Seus Personagens – Crônicas para Jovens
Organização: Pedro Karp Vasquez

2011 – Como Nasceram as Estrelas – Infantil
2011 – Clarice de Cabeceira – Romances
Organização: José Castello

Mistério do Planeta – Física e Arte

Não me recordo ao certo o que me levou a conhecer o álbum Acabou Chorare, provavelmente uma entre milhares de referências na internet, sobre este incrível trabalho dos Novos Baianos. Confesso que já fui extremamente preconceituoso quanto ao trabalho deles, principalmente por essa coisa hippie dos anos 70.

A banda teve início ainda na Bahia, com a participação de Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo, Moraes Moreira, Luiz Galvão, Dadi e Jorginho Gomes. O grupo durou apenas dez anos. De 69 a 79. Viveu de maneira quase anárquica, em pleno regime militar. Após um álbum e dois compactos, o que hoje chamaríamos de EP, lançou o álbum ‘Acabou Chorare’, considerado pela revista Rolling Stones como o melhor álbum brasileiro já lançado. Não acho este tipo de classificação relevante, mas de qualquer forma demonstra a sua importância para a música brasileira.

Entre as canções do álbum de 1972, está a indefectível ‘Mistério do Planeta’, que segundo o que reza a lenta, faz inúmeras referências científicas. Eu pesquisei bastante na internet, tentando encontrar referências sobre isso, para fundamentar estas explicações, não achei nada mais técnico ou documentado, então não posso garantir que a música realmente faz referência a estes acontecimentos. Quer conhecer a música e suas referências? Vamos lá…

Mistério do Planeta

(Novos Baianos. Acabou Chorare. Som Livre, 1972)

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
(O eu lírico não apenas explora esse aspecto da imutabilidade do tempo, como também se embasa nas teoria da Relatividade de Einstein, em ‘andando por todos os cantos’, refere-se ao fato de que não podemos andar por todos os cantos sem que tal asserção seja puramente relativa, ou seja, em um universo paralelo onde seja possível sair andando pelo teto, sem que tal comportamento seja classificado como anormal).

E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
(Descreve o princípio da ação e reação, embasada nos conceitos básicos da física Newtoniana)

E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
 (Aqui uma referência a astrofísica renascentista, quando se descobriu o mistério da rotação do planeta através da observação dos astros ‘aos olhos nus ou vestidos de lunetas’)

Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta
(Aqui temos a referência aos parâmetros clássicos de não-linearidade temporal, presente nos pensamentos de filósofos gregos, pré-aristotélicos, tendo sido modificado pela visão ocidental de tempo como uma seta linear rumo ao futuro)

O tríplice mistério do “stop”
Que eu passo por e sendo ele
(O tríplice mistério do stop, seria uma referência as três fases da vida humana: nascer, crescer e morrer) 

No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
(Aqui muito provavelmente, se refere ao que restará em cada um de nós, no fim de nossas vidas e a sequência do caminho, a vida após a morte) 

E no ar que fez e assistiu
(Referência a Deus? Que fez o ar e que nos observa o tempo todo) 

Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do brasil
Que peço e dou esmolas,
(Agora um detalhe importante, após todas essas refências, abra um parênteses para lembrar que ele não passa de um ser humano como outro qualquer, com seus problemas, defeitos e mortalidade)

Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola
(Andar e pensar com mais de um cérebro, ou pensamento, mostrando que não existe apenas uma única forma de acreditar ou ver a vida e o mundo) 

Composição: Luiz Galvão e Moraes Moreira

O início, o auge e o fim

A história do grupo começou em 1969 com o espetáculo ‘O Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal’, no Teatro Vila Velha, em Salvador, Bahia, onde pela primeira vez juntos, se apresentaram Luiz Galvão, agrônomo formado, Paulinho Boca de Cantor, ex-crooner da “Orquestra Avanço”, popular nas noites de Salvador, Moraes Moreira, a única não-baiana do grupo, a niteroiense Baby Consuelo, e Pepeu Gomes. Moraes Moreira foi apresentado a Tom Zé, que era amigo de Galvão. Baby Consuelo conheceu os dois (Moraes e Galvão) em um bar, enquanto passava as férias em Salvador. Mais tarde, Paulinho Boca de Cantor conheceu os três, e se uniu a eles. Dos membros que formariam o grupo mais tarde, apenas Pepeu Gomes era músico e havia passado por diversas bandas. Nas apresentações em palco e gravações, o grupo era inicialmente um quarteto, acompanhado pelo grupo ‘Os Leifs’, que depois teve seu nome mudado para ‘A Cor do Som’, do qual faziam parte o baixista Dadi, o baterista/percussionista baxinho José Roberto Martins Macedo, o guitarrista Pepeu Gomes e seu irmão baterista, Jorginho Gomes. Pepeu Gomes se casou com a vocalista da banda, Baby Consuelo e é incorporado definitivamente ao grupo ao lado de Moraes Moreira, colabora de maneira como arranjador musical do grupo.

Em 1969 se inscreveram para o V Festival de Música Popular Brasileira com a canção ‘De Vera’. A origem do nome surgiu em decorrência a uma apresentação na Rede Record, quando ainda sem nome definido para o grupo, o coordenador do festival, Marcos Antônio Riso gritou ‘Chama aí esses novos baianos!’. Os Novos Baianos nunca foram controlados por gravadoras e empresários, tanto que, quando foram para São Paulo, se apresentaram em diversos programas de televisão, extrapolando o tempo previsto.

O primeiro empresário do grupo foi Marcos Lázaro, e a primeira gravadora foi a RGE, onde lançaram um compacto simples, ‘De Vera’/’Colégio de Aplicação’. Em 1970 o primeiro long play, intitulado ‘É Ferro na Boneca’, que além de trazer as canções do compacto, foi tema dos filmes ‘Caveira My Friend’ e ‘Meteorango Kid’. Apesar de tudo, o número de cópias vendidas do disco não foi tão extensa.
Com a desclassificação de ‘Vera’ do Festival da Record, Os Novos Baianos resolveram seguir para o Rio de Janeiro. Lá, moravam todos juntos em quatro cômodos

Em 1971, gravaram o segundo compacto simples, ‘Volta que o Mundo dá’, recebendo a visita de João Gilberto. Após a grande fusão de gêneros brasileiros, sugerida por João Gilberto e a guitarra de Pepeu Gomes, surgiu o mais consistente e lembrado disco do grupo, ‘Acabou Chorare’, pela Som Livre, considerado o melhor álbum brasileiro da história segundo a revista Rolling Stone.

Em Jacarepaguá, alugaram um sítio apelidado de ‘Sitio do vovô’. Viviam de forma quase anárquica em pleno regime militar. Em uma nova gravadora, a Continental, lançam seu terceiro álbum de estúdio, Novos Baianos F.C., com inovações rítmicas e líricas. O disco ganhou um filme homônimo de Solano Ribeiro. Os Novos Baianos se mudam novamente, desta vez para uma fazenda em São Paulo, a convite de um executivo da Continental. Lá gravaram o quarto disco, ‘Novos Baianos’, mais conhecido por ‘Alunte’. O disco não vendeu tanto quanto os anteriores, o que levou ao desentendimento com a gravadora.

A crise começou, Moraes Moreira, principal letrista da banda resolveu partir para a carreira solo. Desfalcados de Moraes Moreira, letrista principal ao lado de Galvão, o grupo faz de Pepeu Gomes o exemplo instrumental. O disco seguinte, Vamos pro Mundo, foi lançado ainda em 1974 pela Som Livre e tinha como foco as faixas instrumentais em choro, baião e samba. Em 1976, o grupo assina seu contrato mais longo, de dois anos com a gravadora Tapecar. O primeiro álbum na gravadora, ‘Caia na Estrada e Perigas Ver’, investiu no samba, rock e pandeiro e ‘Brasileirinho’ de Waldir Azevedo. Em 1977 lança ‘Praga de Baiano’, já enfraquecidos pelo processo inicial das carreiras solo de Paulinho, Pepeu e Baby. O disco trazia o trio elétrico, frevo, e bastante música instrumental. Tornaram-se atração dos trios-elétricos e Baby Consuelo foi a primeira cantora desse tipo de evento.

O último trabalho, ‘Farol da Barra’, pela CBS, homenageia os compositores Ary Barroso e Dorival Caymmi, regravando ‘Isto Aqui O Que É?’, e ‘Lá Vem a Baiana’. O principal destaque do disco era a faixa-título, uma parceria entre Galvão e Caetano Veloso. No ano seguinte o grupo encerra suas atividades.

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