Fora quem?

Um fato recente me fez pensar sobre como eu me coloquei até hoje sobre determinados assuntos. Falo da política do país, falo da realidade do Brasil, falo desta nossa ignorância de não entender absolutamente nada sobre como toda essa realidade se construiu ao longo de mais de 500 anos de história de colonização.

A gente fica inerte a tudo e quando de repente, sente que está errado, procuramos um algoz para anos de escravidão mental. Eu nunca gostei muito do PT como partido. Não costumo acreditar em paladinos da justiça. Não costumo acreditar em quem se auto intitula a cura. No fundo tudo é veneno, do qual ainda não acertamos a dose. Geralmente, quem muito se exalta, muito esconde.

Nunca acreditei que o poder deixaria de corromper as pessoas. São humanos e humanos são corruptíveis. São falhos, esquecem de onde vieram, esquecem o que acreditam. Os direitistas nunca conseguiram ser convincentes quanto a sua idoneidade, não seriam os esquerdistas os detentores do Cálice Sagrado.

Prefiro acreditar que o Santo Graal seja apenas história de Cruzadas e cavaleiros Templários. Qualquer um que se diz detentor de algum poder sagrado, incorre no erro de esquecer que não temos nada de divino em nós. Somos humanos e apesar de termos sido feitos à Sua semelhança, somos só uma cópia, daquelas de Xeróx meio apagada e torta.

Em contrapartida, postergar tudo que acontece à duas pessoas (Lula e Dilma), como se o afastamento deles fosse resolver algum problema, parece uma ignorância ou ingenuidade de entender como o sistema funciona. De como a banda toca. Sempre acreditei que os verdadeiros engenheiros dessa máquina de desvio de dinheiro público, são pessoas das quais nem sabemos o nome. Pessoas que estão lá e já estavam desde sempre.

Muitas vezes, para você alcançar um determinado lugar, na busca de implementar aquilo que se deseja, você é obrigado a entrar nas regras de um jogo. Que não significa que, por ter regras, sejam justas.

Nossa miopia política é tão grande, que muitos acreditam que o Aécio seria uma alternativa. Não só alternativa, mas solução. A discussão é mais profunda que dizer Fora Dilma. Fora PT. Enquanto ficarmos neste estado de ignorância desenfreada, vamos continuar sendo as vítimas de um sistema corrompido e doente.

A solução nunca passou pelo PT, pelo LULA, pela DILMA, pelo COLLOR, pelo FHC ou por qualquer que fosse o líder disso. A solução sempre esteve em nós mesmos. A maior corrupção deste país, começa em nossas cidades. Querem tirar a pontinha da pirâmide, como se isso fosse desestruturar alguma coisa. Uma casa não desmorona tirando o telhado. Você não derruba uma árvore cortando um galho.

Tem quem acredite que tirando todas as folhas, a árvore seca e morre. Funciona obviamente, mas nós fazemos parte desta árvore. E junto com eles, morremos também. Estamos cometendo um haraquiri social, econômico, ideológico e psicológico.

Já pensou nessa representação? Se você tirar a peça lá na ponta da pirâmide, você acredita verdadeiramente que sua estrutura vai se abalar? Que vai mudar alguma coisa? Vai continuar a mesma coisa, sem um pedaço apenas. Substituir essa ponta por outra então, mudará muito menos. Mudanças precisam ser feitas na base. Na estrutura. Se alguém rouba lá em cima é porque deixamos eles nos roubar aqui em baixo.

Nossa belíssima Ponte Hercílio Luz não me deixa mentir. Por trás do cartão postal iluminado, existe uma sombra de corrupção e de desvio. O esgoto sempre corre por baixo da nossa linha de visão. Abaixo de muita terra que precisa ser retirada.

Todo mundo sabe que a ponta do Iceberg que vara o nível do mar é uma pequenina parte que se esconde abaixo dele. Vamos nos respeitar em ideologias e crenças. Vamos dialogar. Vamos nos unir. Vamos encontrar uma solução juntos, ponderada, respeitosa, sensata, verdadeira e eficaz…?

Fórmula de Bhaskara

De uns tempos para cá, entenda que eu não sei precisar esse tempo. Me perdi entre dias, meses e anos. No fundo nem sei como cheguei até aqui.

Tenho me questionado sobre o quanto preciso para viver. Já vivi com tão pouco, que para tantas pessoas já era muito, enquanto para outras não era nada, que não sei fazer esta conta.

Poderia juntar os gastos mensais e estabelecer uma meta. Mas em determinados momentos precisamos mais do que este ‘mínimo’. Surgem gastos inesperados e você precisa resolver isto também.

Então estabelecemos que precisamos de mais. De uma reserva, um extra, uma garantia. Garantia do que? De quem? Para que? Como ter certeza que esta busca por algo mais, não transforme essa sobra no mínimo novamente. Nos acostumamos facilmente com o conforto. Como se manter inerte?

Me perdi entre a ideia de querer pouco, com a possibilidade da mediocridade de arriscar pouco. Será mesmo que me contento com menos do que a maioria ou apenas estou fugindo da realidade? Covardia ou simplicidade? É mais fácil lidar com pequenas expectativas. Pequenos tombos machucam menos.

Ou será que pulei esta etapa sem sentido que muitos vivem, na busca desenfreada em acumular riquezas para então descobrir que possuem mais do que o necessário, onde perderam tanto tempo em uma luta sem vencedores, que acabaram por trocar suas vidas por um punhado de papel?

A cada resposta que tento encontrar nesta direção, cem novas perguntas me faço. Saio para caminhar com um chinelo e uma roupa mal passada, tentando aproveitar essa morada em uma cidade que tantas pessoas sonham em viver, por conta de suas belezas naturais, mas o que vejo são prédios. Cada dia mais altos, robustos, imponentes. Toneladas de concreto e cimento, para ostentar uma conquista material que pouco me diz e muito me sufoca.

Me sufoca por que estamos caminhando para o lado errado ou apenas por uma espécie de recalque de não fazer parte deste mundo onde o dinheiro compra conforto e calma?

Quando cheguei aqui, em 2013, minha primeira ocupação fora do trabalho era ir até o posto de gasolina tomar um café e comer um salgado. Saia para esvaziar a cabeça, enquanto encontrava várias pessoas que já estavam na rua, buscando encher o estômago.

Eu definitivamente cheguei a um impasse. No fundo ainda ouço uma voz distante, sufocada, murmurando que erguemos muros que nos dão a garantia de que viveremos cheios, de uma vida tão vazia.

Queremos tantas coisas. Queremos um grande apartamento, bem localizado, com uma bela vista, duas vagas de garagem, para dois bons carros. E no fim desta história toda, nossa última morada física é uma caixa pouco maior que nosso corpo.

Tenho muitas dúvidas do que preciso para ser feliz. Por isso me dedico tanto para manter ao meu lado, quem eu preciso para ser feliz.

Talvez eu pense demais. Talvez eu viva de menos. Quem sabe, eu deveria ter prestado mais atenção às aulas de matemática. Preferi português.

Por isso só me resta escrever, sobre as contas que não aprendi a fazer…

J. R. Wills

Monoamor

Sabe estas pessoas que defendem poliamor? Que defendem a individualidade e a liberdade, como se qualquer forma de apego fosse aprisionamento?

Apesar de defenderem todas as formas de amor e a necessidade de dividir-se ao máximo, no fundo me parecem incapazes de se darem de verdade à alguém, profundamente, por inteiro. Será egoísmo ou uma dificuldade de se revelarem por completo?

Não existe nenhum erro em querer jogar sua âncora em algum lugar qualquer. Em querer aportar. Em pousar sobre algo.

A vida é sim um movimento constante, um eterno caminhar. Mas isso não significa que escolher em fazer essa caminhada ao lado de pessoas que amamos, seja uma forma de tornar a caminhada mais pesada. Basta você se certificar que as pessoas que estejam ao seu lado busquem uma proteção mútua.

Assim, pode não ser uma caminhada rápida, mas será facilmente longa. Na oposição de sentimentos apequenados, de egoísmo, de grosseria, de desamor, de posse, de inferiorização, acreditamos que o distanciamento de qualquer possibilidade de se aninhar, vira prisão. Ninho, não é gaiola.

Todos precisamos de um lugar para voltar. Independente de quão distantes sejam os caminhos quais vejam suas pegadas. Até que seja apenas como forma de medida, precisamos ter um ponto de partida, para medir o que é de fato longe. Longe do que? De quem? De onde?

Amor não é algo continuo e plural. Onde você pula de galho em galho tentando experimentar apenas o novo, o inédito. Proust sintetizou: “A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ver com novos olhos.”

O amor vem, diferente da paixão, para criar raízes, que sustentam. Não amarras, que sufoquem. Ele vem para se fazer presente nos momentos difíceis, pouco românticos, nada empolgantes.

Em um voo solo, continuo e sem direção, passamos a acreditar que qualquer pousar seja estagnação.

Pequena falha de interpretação, miopia ótica, estreitamento de nuances. Até quem pensa navegar em mar aberto, talvez não perceba que passou a vida inteira à deriva.

J. R. Wills

Dos dias que você não estava lá…

Você não estava lá no dia que dei meu primeiro beijo.  Nem eu queria estar lá, foi um fiasco, mas tive tempo de aprender depois.

Você não estava lá, quando fiquei de fato com a primeira garota. Ainda bem, pois você não aprovaria o porre de cuba que tomei, para ter coragem.

Você não estava lá, quando eu me formei no ensino médio. Ao menos você não viu as péssimas notas que eu tirei, pois eu chegava cansado demais no colégio e as vezes ficava difícil me concentrar. A situação financeira ficou mais difícil sem você.

Você não estava lá, quando a mãe se formou em Pedagogia. Mas eu sabia que você a apoiou nesta caminhada difícil, lhe dando forças para continuar.

Você não estava lá, quando apresentei a primeira namorada para a família. Foi um grande mico, tenho certeza que você deixaria tudo mais divertido com suas piadas.

Você não estava lá, quando resolvi morar sozinho. Ainda bem, eu tenho certeza que você jamais me deixaria fazer isso. Mas eu precisava crescer.

Você não estava lá, quando fiz meu primeiro cliente importante. Que bom, eu precisava ter a certeza de que eu era capaz de fazer algo grandioso sem você.

Você não estava lá, quando eu peguei um avião pela primeira vez. Eu nunca fui espirituoso como você, mas lembrei de ti e da história que você contava sobre essa sua mesma experiência.

Você não estava lá, quando o vovô e a vovó fizeram Bodas de Ouro, quando a Sheila se formou e nem quando a Uli e o Laio se casaram. Essa eu tenho que te contar pessoalmente, quero ver a tua cara. A Uli tem dois filhos. Quem diria, hein?

Você não estava lá, nos momentos mais difíceis. Quando tudo que eu precisava era de um conselho seu.

Você não estava lá, em todas as vezes que eu terminei um relacionamento. Para me dizer que isso passaria, que relacionamentos vem e vão. E nem para dizer um: pare de chorar, seja homem.

Você não estava lá, quando resolvi mudar de cidade novamente. Refazer a vida do zero. Você certamente teria sugerido outra alternativa.

Você não estava lá, em todas as vezes que citei seu nome. Em todas as vezes que lembrei de ti. Em todas as vezes que você me fez falta.

Você não estava lá, quando a Helena nasceu. É, você virou avô. Ainda bem que você não está aqui, pois eu iria te zuar um monte do quanto você estaria velho agora. Aqueles teu cabelos pretos já eram, estariam bem grisalhos, vovô Euclides.

Você não estava lá, sentado na mesa, fazendo um churrasco, uma pizza, um quibe, vendo Jô Soares comigo, assistindo Fórmula 1 ou gritando com a tv nos jogos do Corinthians. Sei que você nunca vai me perdoar por isso, mas nunca mais tive interesse em se quer saber a escalação do time. E pouco me importa em que posição do Brasileirão eles estejam. Eu também nunca mais voltei a jogar futebol. Me desculpe por isso.

Você não estava lá em todos os momentos que eu queria que você estivesse. Mas eu sei que de alguma forma, as coisas boas que aconteceram até aqui, tiveram um dedo seu. Que todas as vezes que me livrei de algo ruim, você preferiu adiar nosso encontro, pois você sempre quis o nosso bem acima de tudo.

Aliás, me desculpe não usar meu sobrenome inteiro, resolvi abreviar para ‘Skas’, pois cansei de ter que soletrar ele em todo lugar. De me perguntarem a origem do nome. Se é polaco. De explicar que é Lituano e todo mundo me perguntar onde é a Lituania. Desculpa, mas porra pai, que droga de nome complicado (Desculpe pelo porra, mas eu já tenho 32 anos agora).

Amanhã era o dia de você ganhar um presente meu, mas como sempre, você não virá. Pelo menos economizei uma bela grana nestes últimos 15 anos.

Mas o dia em que eu for ai, eu espero de verdade que você esteja lá me esperando. Temos muita conversa para colocar em dia.

Um dia a gente se encontra de novo.

Saudades pai.

Romance em doze linhas

Quanto tempo falta pra gente se ver hoje?
Quanto tempo falta pra gente se ver logo?
Quanto tempo falta pra gente se ver todo dia?
Quanto tempo falta pra gente se ver pra sempre?
Quanto tempo falta pra gente se ver dia sim dia não?
Quanto tempo falta pra gente se ver às vezes?
Quanto tempo falta pra gente se ver cada vez menos?
Quanto tempo falta pra gente não querer se ver?
Quanto tempo falta pra gente não querer se ver nunca mais?
Quanto tempo falta pra gente se ver e fingir que não se viu?
Quanto tempo falta pra gente se ver e não se reconhecer?
Quanto tempo falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu?

 

Por Bruna Bebber – Retirado do livro Rua da Padaria

Só por interesse

Sim, eu também sou um cara interesseiro.
Me interessa a fé, a gentileza, a generosidade e a compaixão.
Me interessa caminhar lado a lado.
Me interessa olhares, sorrisos e voz calma.
Me interessa gargalhadas bobas e abraços demorados.
Me interessa enfrentar tudo.
Me interessa suas dificuldades, para que eu possa me sentir útil ao teu lado.
Me interessa suas conquistas pessoais, pois gosto de celebrar suas vitórias.
Me interessa conhecer você inteira. O que a faz sorrir, chorar e o que lhe causa insegurança.
Me interessa ir até o fim, de outra forma não estaria aqui.
Me interessa me entregar por inteiro e que você também faça o mesmo.
Me interessa acreditar deliberadamente no amor, ainda que eu o desconheça.
Me interessa sermos sempre sinceros, para que nunca reste dúvida.
Me interessa que você tenha medo de coisas banais.
Me interessa que você não possa viver sem livros, música e filmes.
Me interessa que saiba retribuir e agradecer,
pois quero lhe fazer tudo que estiver ao meu alcance.
Me interessa que caso queira entrar em minha vida,
que nunca mais queira sair dela.
Me interessa que tenha dúvidas sobre tudo,
mas que tenha certeza sobre nós.
Me interessa que esqueça um pouco as obrigações,
e que queira apenas perder tempo ao meu lado.
Me interessa que goste de conversar,
pouco importa o assunto, apenas para que eu ouça sua voz.
Me interessa que veja em mim um suporte, um apoio, mas nunca uma desculpa.
Me interessa que consiga rir em momentos complicados.
Me interessa que tenha orgulho de mim, que me ache bonito, que sinta minha falta.
Me interessa que esteja comigo quando eu quiser desistir,
pois sabe que não passará de alguns instantes.
Me interessa que deite em meu peito para dormir.
Me interessa que goste de carinho nos cabelos e beijos na mão.
Me interessa que não importe quanto eu lhe agrade,
que nunca se acomode diante da minha entrega.
Me interessa que aceite ser minha namorada.
Me interessa que seja minha mulher e minha amiga.
Me interessa que queira filhos.
Me interessa que envelheça ao meu lado.
Eu te quero, por puro interesse…

J.R.Wills

(Inspirado no texto de Manu Berlanda intitulado Mulher Interesseira)

Previous Posts Next Posts

Gelo Negro

O Gelo Negro é um arquivo de lembranças. Nele registro os filmes que vi, as músicas que ouvi, as fotos que registrei, os livros que não li, as histórias que não vivi, as biografias que invejei, felicidades que inventei e as curiosidades que encontrei, tentando fazer algum sentido.

Âncora

Seções

Arquivos