Pó de mim

Sempre fui julgado por pensar. Por perguntar por que? E insistir no: por que não?
Fui julgado ainda mais por verbalizar minhas opiniões e o que dizer de eterniza-las em escrita?
Nunca tive medo de viver, nunca tive medo da experimentação, nunca tive medo da derrota.
Jamais reneguei a tristeza, a decepção, o coração partido.
Para mim, aqueles que vivem sob o pretexto da ponderação escondem-se.
No fundo, viver em equilíbrio é se não apenas o medo de cair.
Ou ainda o receio de não conseguir se levantar da queda.

Eu no entanto sempre quis experimentar os limites da minha fé sobre mim mesmo.
Quando amei, me entreguei ao sentimento assumindo todos os riscos de perder.
Quando senti, falei sem rodeios, de coração aberto, sabendo que as pessoas preferem aqueles que jogam, que omitem.
Não sei ser pela metade, não sei ser meio termo, não sei ficar sobre o muro, ou é lá ou é cá.
Eu nunca voltei para o lado seguro da rua, do rio ou da ponte. Quando dei um passo a frente fui até o fim.

Ainda não entendo porque nós somos tão temidos.
Nós, os que ignoram quantas cicatrizes nos marquem.
Nós, os que quebrarão seus corações em migalhas até que sobre apenas pó.
Se foi dele que viemos, voltaremos na mesma forma.
Quero terminar pó de mim.

Quero terminar minha vida tendo experimentado todas as decepções.
Quero um dia ter a certeza que presenciei toda a capacidade humana de fazer sofrer.
Quero acreditar que suportarei tudo isso e assim, no fim,
eu possa lhe dizer o que você precisa evitar em sua vida.
Caso você seja uma destas pessoas com medo de sentir.

Deve existir um propósito simples e óbvio para lembrarmos mais de lágrimas que sorrisos.
Justificariam ser a característica humana de ser pessimista.
Prefiro acreditar que estes momentos guardam as melhores experimentações.
Afinal, você já chorou de felicidade, mas nunca sorriu de tristeza.

Apesar da minha tentativa de lhe parecer equilibrado e ponderado.
Apesar da minha adaptabilidade em disfarçar sentimentos rapidamente,
minha natureza continua intacta, apenas hoje mais controlada.
O importante definitivamente é isso. Indefere a sua natureza mais primitiva.
Evolução é saber controlar ela e não fazer com que ela deixe de existir.

Diante de tudo isso, sempre chego a conclusão de que ainda não superei
minha dificuldade de entender os covardes sentimentais.
Se escondendo atrás de sua placidez superficial a tentativa de parecer feliz.
Acontece que a vida só acontece em alta velocidade, grande emoções e inconsequências sentimentais.

John estava certo. Também tenho medo desta coisa de ser normal.
Prefiro queimar ou morrer de frio. Escolho o desconforto.
Prefiro a falta de fôlego do que a falta de ar.
Enquanto você se esconde atrás de sua vida normal,
vou seguir provando todas as formas de me decepcionar,
de me entristecer, de me arrepender, de querer voltar atrás,
de ser julgado, mal compreendido, descartado e vilipendiado.
Porque eu sei que suporto tudo e aprendo a ser outro.

Enquanto você. Bom, você pode ficar aí, sendo a mesma coisa de sempre.

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