Apenas uma Noite

Para falar deste filme, terei que recorrer novamente a seção ‘spoilerando’, onde eu comento tudo que achei do filme, no fim da postagem. Começar apenas com a indicação do filme não basta, precisa de um porém, um ‘ps’, um aposto, que só pode ser lido se você já assistiu o filme ou somente após assisti-lo. De qualquer forma, ‘Apenas uma Noite’, título que recebeu no Brasil, distorce a intenção original do título ‘Last Night’. Acredito que ‘Ontem a noite’ é uma expressão que faz muito mais sentido. Li algumas críticas do filme e talvez neste caso, o título além de ser um spoiler, conduz o expectador a outra linha de pensamento. Você concorda que o que você faz em ‘apenas uma noite’, nada tem a ver com o que você fez na noite passada. Apenas uma noite define um tempo, dá uma ponto final. O que você fez na noite passada, pode se repetir por uma vida inteira e talvez seja esta a grande reflexão do filme.

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‘Last Night’ traz Sam Worthington em uma atuação muito diferente dos filmes de ação/aventura como Avatar e Fúria de Titãs e apresenta o ator em uma temática completamente diferente, de onde ele se sai muito bem. Eva Mendes como sempre faz o papel da mulher irresistível que corromperia o mais fiel dos homens, mas também aparece inicialmente como uma mulher contida e sutil. Keira Knightley vem na sua zona de conforto, naquilo que ela sabe fazer bem. Guillaume Canet é a novidade para mim. Ator francês, certamente é o primeiro filme que assisto de sua filmografia. A direção é da estreante Massy Tadjedin, que já tinha uma experiência maior como roteirista. A bela trilha sonora é assinada por Clint Mansell, o experiente compositor que antes deste filme fez nada menos que a trilha de Cisne Negro (Black Swan).

Ficha Técnica

Título Original … Last Night
Origem … Estados Unidos / França
Gênero … Drama / Romance
Duração .. 93 min
Lançamento … 2012
Direção … Massy Tadjedin
Roteiro … Massy Tadjedin

Elenco

Keira Knightley como Joanna Reed
Sam Worthington como Michael Reed
Guillaume Canet como Alex Mann
Eva Mendes como Laura

Spoilerando

As críticas ao filme não são das melhores, mas lendo algumas delas, preciso discordar e elevar a nota do filme. Quando o assunto é traição, fidelidade, valores, dificilmente se encontra uma unanimidade de opiniões. Cada um possui sua visão particular do assunto e apresentar um situação digna de avaliações e interpretações é a proposta do filme. Sem mocinhos ou bandidos, sem julgamentos e punições, o filme deixa a cargo do expectador criar seus próprios julgamentos.

O que fica claro para mim é que Massy Tadjedin (diretora do filme), apresenta uma situação simples e direta, onde um casal se torna duplamente infiel. Tanto a esposa quanto o marido. Apesar de ambos traírem seu par, as situações acontecem de maneira muito diferente. O marido sucumbe a mulher extremamente sensual, sedutora e disponível a uma situação casual, onde a recusa soa no mundo masculino como desperdício. Recusar essa oportunidade seria o mesmo questionamento de ‘devo devolver uma maleta cheia de dinheiro e sem identificação?’.

Por inúmeros motivos e com diferentes justificativas, poucos seriam os homens capazes de resistir as investidas de uma Eva Mendes. Do outro lado está a esposa que é quase ‘reincidente’ na traição, pois em uma separação momentânea se envolve com outro homem, do qual se apaixonou mas que foi incapaz de manter um relacionamento duradouro, muito provavelmente pelo passado de galã conquistador do rapaz, voltando aos braços e ao porto seguro do marido. Somente neste ponto entram inúmeros questionamentos. Ela já havia traído o marido, já que a separação foi momentânea? Ela não traiu o marido pois estavam fisicamente separados? Cada um interpretaria de uma maneira, que realiza o ato se apoiaria na separação como fator determinante, enquanto a outra parte não consideraria a justificativa válida e se sentiria traído da mesma forma.

O filme apresenta ao mesmo tempo, na mesma noite, marido e mulher em cidades diferentes, tendo suas fidelidades testadas, onde ambos sucumbem a traição. Porém ela ama o amante, enquanto o marido comete um ato impulsivo. Seria a constatação da regra que homens traem por prazer e mulheres por amor? Talvez sim, talvez não. Pode ser apenas uma coincidência, onde as realidades funcionariam também se as realidades estivessem invertidas. Quem ‘pecou’ mais? O sexo casual ou o amor reprimido? Dói mais ser traído quanto envolve amor? Dóis menos se é ‘apenas sexo’,’apenas uma noite’? Por isso o título em português é péssimo, pois dá um ponto final ao filme que ele não tem. O filme acaba ali, mas a traição também acabaria? Dizem que quem faz uma vez, faz duas. Se era apenas uma noite ou a noite passada de muitas outras iguais, o filme não revela.

Fica claro no entanto que Massy Tadjedin apresenta homem e mulher tentando vencer seus instintos e controlar suas tentações. Mas desejar já é trair? Não consumar aquilo que tanto se deseja tem algum mérito? Traição é algo que se vê em preto e branco ou será que possui uns 50 tons de cinza no meio? Existem níveis de traição? Culpa maior e menor? O filme termina com Michael voltando arrependido para casa, enquanto vê o sapato social de Joanna jogados na sala. Ele desconfia apenas que ela possa ter escondido algo, ou tem certeza de sua traição e apenas se cala diante do sentimento de culpa. Chumbo trocado não dói? Será que foi a primeira vez que ele se sentiu traído pela esposa?

Joanna ainda conversa com Alex sobre seu marido e uma possível traição durante sua viagem, tratando o assunto normalmente, como se fosse uma mulher descolada e bem resolvida. Mas seria apenas um conforto para justificar a sua traição no passado e agora? O que parece é que todos nós temos desejos e vontade de realiza-los. Fantasias que precisam de justificativa para tirar o peso da consciência.

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