Xingu – Igualmente belo e ‘covarde’

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Xingu é sem dúvida alguma um belíssimo filme, arriscaria dizer que um dos mais belos filmes nacionais já produzidos. Positivamente ou não, sua extrema qualidade técnica já era esperada, já que se trata de uma produção da o2 Filmes, produtora de longas e principalmente de filmes publicitários. Infelizmente é esta extrema qualidade que imprimem sobre o trabalho que parece deixar em segundo plano o roteiro dos filmes produzidos. O filme menos técnico, ao menos para um leigo como eu é Domésticas, filme de 2001 com uma linha condutora simples, porém um filme extremamente simples, divertido e tocante.

Esquecendo que estamos no Brasil e o quanto a O2 consegue produzir filmes no nível hollywoodiano, deixando de lado todo este apelo visual do filme e se concentrando na história, achei a proposta pouco corajosa. Não creditando a culpa ao diretor Cao Hamburger e nem a produtora, talvez a tentativa foi buscar uma linguagem mais mediana, mais ampla e menos segmentada, talvez existia restrições dos patrocinadores e apoiadores, quem sabe até um receio de cunho político, pois para contar a história na íntegra seria necessário ‘dar nome aos bois’. O detalhe que impede Xingu ter se tornado o melhor filme nacional de todos os tempos, foi a leveza com a qual a história foi contada. Leveza extremamente necessária e extremamente pertinente na produção de ‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’, do mesmo diretor.

Xingu poderia ter sido um marco para a história do cinema nacional e na história de Cao Hamburger, que durante muito tempo trabalhou com projetos infantis como Castelo Rá-Tim-Bum, Disney Club, Menino Maluquinho. Faltou uma coragem a la Guy Ritchie.

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João Miguel é um ator diferenciado e certamente o responsável por carregar grande parte da qualidade da produção. É extremamente convincente no seu papel, o único entre os três atores que de fato, parece vivenciar a história como ela deve ter sido. Posso estar enganado mas tive a impressão até mesmo de ver João Miguel mais magro conforme a história é contada, demonstrando toda a debilidade causada pelos mais de 40 anos vividos em função dos índios. Talvez tenha sido uma impressão minha, mas o filme não mostra com uma intensidade relevante, a realidade da atrocidade cometida no Brasil, iniciada por Getúlio Vargas, para tomar posse das áreas inexploradas do Brasil Central. O que fica claro na história, a do filme e a nossa (brasileira), é que teria sido incalculavelmente pior e cruel, sem a interferência dos irmãos Villas-Bôas. Existem duas cenas que conseguem dar o tom dramática e denso que a obra merecia. O momento em que no início da expedição, a equipe de sertanistas é cercada por uma tribo, que os envolve em uma névoa de fumaça e sem dúvida a invasão dos brancos a uma aldeia indígena, onde um corpo de um índio morto é preso em um tronco de uma árvore dentro do rio.

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O roteiro falha em não conseguir construir a história com um começo, meio e fim bem definidos. Já de início, o filme não apresenta a vida pregressa dos três irmãos Villas-Bôas e mais grave ainda, não explica a motivação de Orlando. Ele recebe uma carta de seus irmãos, já integrantes da expedição e sem explicação ele integra o grupo. Fica muito subjetivo o quanto eles deixaram para trás, nas suas vidas urbanas. Talvez a complexidade da história, os mais de quarenta anos de história, foram difíceis de resumir em um longa. Se esta história fosse americana, certamente teria virado trilogia:

Villas-Bôas I – Do Rio das Mortes ao Alto Xingu
Villas-Bôas II – Da Serra do Cachimbo ao Tapajós
Villas-Bôas III – Os Txikãos

Seria muito interessante, ver em mais detalhes como cada acontecimento aconteceu. Entender o que fazia dos Irmãos Villas-Bôas, os únicos capazes de fazer contato com tribos indígenas até então isoladas do contato com os brancos. Ainda assim, com esta visão rasa sobre a história, com a dificuldade de perceber um fio condutor delimitado na história, o fim é tocante para aqueles que defendem o direito a vida e respeitam as culturas de outros povos, principalmente indígena, com todas as suas infinitas variações, rituais, cultura e dialetos. Fico triste de ver novamente a Maria Flor em um filme da produtora de Fernando Meirelles. Além da sua ponta ser quase imperceptível, fica completamente deslocada do contexto.

Assista o filme pois é muito bonito. Releve minhas críticas, apenas queria ainda mais do filme, coisa que só cobramos daqueles que sabemos que seriam capazes de fazê-lo. Quero ressaltar o trabalho de criação do poster do filme que ficou particularmente bonito.

Ficha Técnica

Título Original … Xingu
Origem … Brasil
Gênero … Drama
Duração .. 102 min
Lançamento … 2012
Direção … Cao Hamburger
Roteiro … Cao Hamburger e Anna Muylaert

Elenco

João Miguel como Cláudio Villas-Bôas
Felipe Camargo como Orlando Villas-Bôas
Caio Blat como Leonardo Villas-Bôas
Maria Flor como Marina

 

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