A Outra Terra

A Outra Terra (Another Earth)é um daqueles filmes que se tornam uma grata surpresa. Como é bom você assistir filmes que correm por caminhos alternativos, que não possuem uma publicidade gigante e que assim te surpreendem ainda mais. Ele estava lá, perdidinho na prateleira, o único recém chegado que não havia sido alugado. O que me chamou atenção no entanto, foi o título que recebeu no festival de Sundance. Caso você não saiba, o festival foi criado em 1985 pelo ator e diretor Robert Redford e tem como objetivo alavancar produções independentes. Na edição de 2011, este filme recebeu o prêmio ‘Dramatic Special Jury Prize’. Junto com ele, tivemos premiações para o documentário “Senna” e “Bastidores de um Casamento”, dois filmes que eu falei aqui no site. O filme é dirigido pelo jovem diretor Mike Cahill. Este é seu segundo filme, ambos com a protagonização da bela e talentosa Brit Marling, que além de tudo, co-roteirizou o filme ao lado de Cahill.

Sinopse

“A Outra Terra” conta a história e o drama pessoal de Rhoda Williams (Brit Marling), uma promissora estudante que é admitida pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology). Ela acaba de sair de uma festa e está dirigindo seu carro enquanto acompanha um programa de rádio que fala sobre a descoberta de um novo planeta, que até aquele momento era visto apenas como um ponto azul. Ela se distrai olhando para o céu, quando sofre um grave acidente.  Ela passa quatro anos na prisão, neste tempo, pesquisas da Nasa descobrem que o planeta até então desconhecido é muito parecido com o nosso e por isso é chamado de “Terra Dois”.

Na verdade este planeta vai se revelar mais do que parecido com o nosso. Apesar do roteiro ter este detalhe de ficção científica, a existência da Terra Dois tem um papel muito mais metafórico sobre a dualidade de nossas escolhas. Como teria sido nossas vidas se tivessemos tomado decisões diferentes? Como seria nossas vidas caso um determinado acontecimento não tivesse acontecido? O amor que não aconteceu, a oportunidade de não rolou, a pessoa que se foi.

Todos estes acontecimentos inesperados na vida de Rhoda lhe levará por caminhos muito distantes, dentro dela mesma.

Ficha Técnica

Título Original … Another Earth
Origem … USA
Gênero … Drama / Ficção Científica
Duração .. 92 min
Lançamento … 2011
Direção … Mike Cahill
Roteiro … Mike Cahill e Brit Marling

Elenco

Brit Marling como Rhoda Williams
Matthew-Lee Erlbach como Alex
DJ Flava como Ele Mesmo
William Mapother como John Burroughs
Meggan Lennon como Maya Burroughs
AJ Diana como Amos Burroughs

Spoilerando

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Impossível não se apaixonar e não se compadecer do drama de Rhoda. Brit Marling é certamente uma excelente atriz e muito provavelmente é um novo e forte nome que surge no mundo do cinema. Ela co-roteirizou o filme e tem experiência como produtora, editora, film-maker, câmera e diretora. O filme é repleto de sutilezas interessantes. Rhoda está feliz por ser admitida no MIT, uma chance para poucas pessoas, não precisa se dizer que ela é uma estudante brilhante. Ela sai de uma festa após beber um pouco, não o suficiente para não conseguir dirigir, mas o suficiente para se distrair e provocar um acidente que a mandou para a prisão durante 4 anos.

Ela perdeu a faculdade, perdeu a intimidade com a família e o irmão, afinal nenhuma família espera ver a filha que estava prestes a se tornar um grande talento, passando quatro anos presa. Eles não parecem a culpar pelo que aconteceu, mas nitidamente não fazem questão de ajudá-la a refazer sua vida, transferindo todas as expectaticas para o irmão mais jovem. Que não é tão brilhante quando Rhoda, mas que acaba de entrar na faculdade. Depressiva após os anos que o destino lhe tirou, ela se sente extremamente culpada pelo que aconteceu e mesmo com tudo que perdeu e o preço que pagou, a maior dívida ainda é consigo mesma. Ela não consegue esquecer o que fez e independente de julgamentos, ela se sente culpada.

É difícil saber de que lado ficar, mas é impossível não entender ambos. O marido que perdeu a esposa grávida e o filho pequeno ou a adolescente ‘descuidada’ que cometeu um crime sem querer. Impossível também não imaginar que uma história assim no Brasil, não teria levado ela para a cadeia. O que de alguma forma acaba moldando seu caráter, já que não dá para se saber como ela era antes de tudo acontecer.

Ela ensaia a tentativa de pedir desculpas diretamente a John Burroughs e diante da situação acaba mentindo para não encarar o problema. Quando ela finge ser de uma empresa de limpeza, aos poucos ela percebe ali uma oportunidade de corrigir parte do que fez, devolvendo ao menos a vida dele, consumida pela tristeza de perder a família no acidente. A limpeza da casa de John é uma metáfora interessante para a organização da sua mente, do caos pessoal, da melancolia. Aos poucos a casa vai ficando limpa e iluminada, assim como a vida de John. Quando eles se envolvem intimamente, parece que ela poderá recompensa-lo completamente, se tornando sua nova esposa e possivelmente lhe dando um filho, tudo voltaria ao seu estado inicial. John, uma esposa e um filho. Mas não é tão simples assim.

Existem sutilezas muito tocantes e inteligentes no filme, o fato de não sermos apresentados para a Rhoda antes do acidente, nos deixa neutros ao julgamento de sua culpa. Ela era uma boa pessoa? Esse detalhe poderia mudar drasticamente a história. Quando este drama passa a se misturar com o roteiro de ficção científica, onde um planeta igual ao nosso aparece e se descobre que ele é igual ao nosso, mais precisamente uma réplica exata, passamos a imaginar se em algum momento, o outro ‘eu’ que vive neste outro planeta, tenha feito alguma escolha diferente das que nós fizemos. Poderíamos visitá-lo e mudar o passado ou o futuro?

A teoria que explica a aparição repentina do planeta faz Rhoda acreditar que na Terra 2, a família de John não tenha morrido, pois por algum motivo, houve uma falta de sincronicidade entre os dois planetas. Como ele apareceu antes do acidente, ali as histórias podem ter tomado caminhos diferentes. Ela então escolhe continuar vivendo sua realidade triste e melancólica, abrindo mão da viagem que ganhou para a Terra Dois, para que John possa talvez reencontrar a família.

No final do filme, ela se encontra consigo mesma, momento em que entendemos porque o velhinho que trabalhava com Rhoda na escola cegou-se a si mesmo dizendo ‘não aguentar se ver em todo lugar’. Fica uma dúvida importante. A Rhoda da Terra Dois viajou até a Terra Um, o que nos faz acreditar que ela de fato não cometeu o acidente na Terra Dois, se formou no MIT e muito provavelmente trabalha em programas espaciais? Ela não pode ter viajado por resultado do concurso, já que o velhinho comprava que as viagens já haviam iniciado antes disso, no entanto John talvez tenha de fato reencontrado sua família. O velhinho já havia encontrado o seu outro ‘eu’, muito antes de Rhoda, o que nos deixa confuso ao imaginar a quanto tempo este tipo de viagem entre os planetas já estava acontecendo. Por algum motivo, a Terra Dois enviou pessoas antes para a Terra Um. Isso significaria que nós seríamos na realidade a Terra Dois?

Confuso como qualquer teoria de universo quântico.

Muito provavelmente inúmeras teorias e intepretações sobre o filme existirão, mas é importante lembrar que a ideia de um mundo quântico só existe para nos questionar sobre nossas próprias escolhas, nosso destino, predestinação, enfim. A viagem mais distante de Rhoda não foi entre planetas, mas dentro de si mesmo.

Lindas imagens, ótima atuação de Brit Marling e uma ideia bastante interessante. Ótimas metáforas e analogias. Achei muito inteligente em nenhum momento conhecermos a fundo os personagens. Tudo que sabemos deles é apenas o que eles poderiam ter sido. Ela deixou de estudar e ele deixou a música. Quando se encontram tudo parece fazer sentido, tudo parece ter uma solução e a velha história de que algo que se quebrou jamais pode ser refeito surge com uma nova perspectiva, porém aos poucos percebemos que a vida é igual em todo lugar. Seja nesta Terra ou em outra.

Muito bonita a redação que ela escreve para o concurso, nos traz uma sensação interessante de como de fato funciona o mecanismo do desbravamento. Em tempos de ‘Curiosity’ o assunto não poderia ser mais oportuno.

One Response to A Outra Terra
  1. valentim

    Pelo que entendi, acho que se trata de um filme espírita, uma ficção além da vida, acho que no acidente, o filho e a esposa do compositor, não morreram, mas sim, a moça que dirigia o veículo a Rhoda, então é como se houvesse outra dimensão paralela da terra, onde as pessoas que já morreram não percebem muito as mudanças pelas quais elas passaram, e daí a Rhoda, com total sentimento de culpa, tente compensar de alguma forma o compositor, e acaba conseguindo, mandá-lo de volta, isso porque ele não morreu, ainda se encontrava em estado profundo de coma (quase morte). Por isso, se torna difícil entender aquilo que o autor tentou passar.

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