A Bailarina e o Ladrão

Ontem assisti A Bailarina e o Ladrão (El baile de la Victoria), meu primeiro filme em blu-ray, que apesar de figurar na prateleira de lançamentos, originalmente o filme foi lançado em 2009, mas somente agora, três anos depois, chega enfim ao Brasil. É estranho pensar que qualquer baboseira americana chega rapidamente ao nosso país e boas produções ficam perdidas pelo tempo. Injusta essa demora do filme para entrar no mercado brasileiro, depois de tantas referências ao nosso país, feitas no filme. Em uma cena podemos ouvir um trecho de rap brasileiro, além de uma música de Milton Nascimento ter sido incluída na trilha sonora. Como se não bastasse, temos a presença da renomada bailarina carioca Marcia Haydée no papel de uma professora de dança. Aluguei o filme mesmo não tendo ouvido falar dele antes, obviamente pela participação de Ricardo Darín, ator que passei a admirar após assistir o filme ‘Um Conto Chinês’.

Sinopse

Com a chegada da democracia no Chile, após a saída do ditador Augusto Pinochet do poder, o jovem presidiário Angel (Abel Ayala) e o veterano Vergara (Ricardo Darín) são anistiados. Enquanto Vergara está disposto a abandonar o crime para se reencontrar com a família, Angel quer sua ajuda em um golpe idealizado por um companheiro de presídio. Angel conhece e se apaixona por Victoria (Miranda Bodenhofer), uma jovem muda que sonha se tornar bailarina e mudará parte dos planos de Angel.

Ficha Técnica

Título Original … El baile de la Victoria
Nacionalidade … Espanha
Direção … Fernando Trueba
Gênero … Drama
Duração … 127 minutos
Lançamento … 2009
Estréia no Brasil … 2012

Elenco

Ricardo Darín como Nicolás Vergara Grey
Abel Ayala como Ángel Santiago
Miranda Bodenhofer como Victoria Ponce
Ariadna Gil como Teresa Capriatti
Julio Jung como Alcaide Santoro
Mario Guerra como Wilson
Marcia Haydée como Profesora Danza
Luis Dubó como Rigoberto Marín
Luis Gnecco como Monasterio
Mariana Loyola como Lili
Gloria Münchmeyer como Directora Teatro
Gregory Cohen como Sergio Mendoza

Se você já assistiu o filme, pode ver o post completo e ler a seção Spoilerando onde deixo minhas impressões para você confrontar com as suas.

Spoilerando

A Bailarina e o Ladrão é um filme confuso para se avaliar. A atuação de Ricardo Darín é irretocável, o que não é comum em um filme que não consegue acompanhar sua qualidade como ator. O fato depõe contra o filme e de uma forma torta, engrandece ainda mais a qualidade artística de Darín, que consegue ser bom em um filme meio ruim.

A sensação que tenho é que dois ‘detalhes’ impedem o filme de se sair melhor: a adaptação do roteiro e a direção. Em momentos o filme me lembrou ‘Forrest Gump’, com seu amontoado de histórias desconexas. A diferença na comparação é que em Forrest Gump, a falta de sentido nas histórias, reafirmam a personalidade de Forrest, um homem com um QI abaixo da média, que alcança inúmeras façanhas que aguçariam as mentes mais ambiciosas, fazendo justamente o contrário, agindo por puro acaso alimentado pela inocência.

Não conheço o diretor Fernando Trueba, mas pelo pouco que li, parece um diretor prestigiado. Se ele é bom ou não, o que posso garantir é que esta não é sua obra-prima. Trueba tem dificuldade em transpor do papel para a tela, as cenas mais poéticas, como a cena do garoto cavalgando em plena cidade, assim como a cena onde Victoria diante do pássaro que a fita nos olhos, parece reconhecer o espírito de Ángel, que enfim está parece liberto. Temos também a cena de Ángel que causou sua prisão, ao roubar o cavalo que conviveu desde a infância, apenas para passar um dia em sua companhia. Porém, sem dúvida a cena que não faz nenhum sentido é de Victoria fazendo sexo oral em um cara qualquer em um cinema pornô. Não entendi se ele queria mostrar o passado de Victoria, que poderia ter se prostituido para sobreviver nas ruas ou se ela tem algum desajuste mental, motivado pelos traumas da infância.

Pior que a adaptação do roteiro (baseado no livro do escritor chileno Antonio Skármeta) e da direção de Trueba, só mesmo o ator Abel Ayala que não convence no papel do jovem Ángel Santiago. Achei no entanto, interessante as histórias do jovem presidiário que foi levado para a cadeia por um crime muito pequeno, sofreu as violências do sistema carcerário e saiu sem esperanças de um futuro construído com inocência. A mesma violência que sofreu a personagem Victoria Ponce (Miranda Bodenhofer), que também viu sua inocência perdida após a morte de seus pais, jogando-a em uma vida de solidão e desamparo.

De uma maneira muito particular, os dois jovens se identificam pelas mesmas dores sofridas. Talvez o filme tenha errado justamente em não mostrar estes sofrimentos de forma mais dura, deixando tudo no ar, falando de forma rasa, o que impede o espectador de se envolver mais com o drama pessoal dos personagens. No fim a sensação que você tem é de que inúmeras histórias foram contadas pela metade. Talvez conseguiríamos ver um resultado diferente caso o filme se concentra-se em se fixar em menos gêneros e histórias paralelas, optando por uma ou outra e se aprofundando nos dramas. Por isso tenho a sensação de que o livro talvez, cumpra melhor esse papel.

Ainda tendo todas estas falhas, não poderia dizer que me arrependi de assitir o filme. Gosto deste ‘ar’ não-americano que o filme tem. Não sei explicar, mas a temática, a narrativa, a fotografia é completamente diferente de um filme americano ou britânico. Exatamente a mesma sensação que tenho ao ver um filme francês, sempre com a percepção de que aquela história jamais poderia acontecer em terras onde se fala inglês. Além do mais, o filme não mostra um Chile caricato como sempre costumamos presenciar em filmes estrangeiros, onde a locação determina comportamentos e parte da história. Durante o filme todo, você nem se importa se o filme foi filmado no Chile, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai.

Uma curiosidade interessante é que o escritor do livro está no filme. Antonio Skármeta é o jornalista que escreve sobre a bailaria durante sua apresentação no Municipal. Este autor ficou famoso mundialmente, após escrever em 1985 o ‘O Carteiro e o Poeta’, que em 1994 recebeu uma versão para as telonas, se tornando um dos principais filmes da década de 90.

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