Lago Negro…

É estranho como certas situações em nossas vidas se entrelaçam, um assunto resgata um pensamento aleatoriamente, remetendo a outro, passam a se repetir e lhe fazem pensar em algo que já estava perdido no tempo da memória. Recentemente uma situação me fez recordar de quantas vezes já fui classificado como alguém ‘pra baixo’.

De fato fui uma criança um tanto solitária, paradoxalmente ao fato de gostar de pessoas.  Meus irmãos mais velhos não compartilhavam do meu dia-a-dia. Fui um garoto circunstancialmente só, nunca fui distante ou anti-social. Drummond teria sintetizado: ‘Vai, Jeff! ser gauche na vida’.

Sempre vivi circunstâncias que me isolaram parcialmente, mudei muitas vezes de colégio e assim perdia constantemente as amizades que consquistava. Comecei a trabalhar aos quatorze anos, o que me afastou da possibilidade de encontrar os amigos depois do colégio. Aos quinze, quando iniciei o segundo grau, fui estudar em outra cidade, no segundo maior colégio do estado, onde necessariamente você acaba se sentindo um intruso, principalmente vivendo dentro de uma região de colonização européia, onde receptividade é artigo de luxo, com preço fixado.

Fiquei me questionando novamente, quanto deste ‘diagnóstico’ que me foi dado, por alguém que mal conheço, poderia de fato ser verdade. Então pensei nestes rótulos que nos são dados ao longo da vida, a bel-prazer. Refleti sobre a completa ineficácia de um pré-julgamento.

Todo rótulo, como a palavra sugere, é fixado no mesmo lugar onde são desenvolvidos: na superfície, na embalagem, no ‘lado de fora’ e inevitavelmente, apesar da tentativa de discriminar seu conteúdo, trata-se apenas de um rótulo, uma sugestão com pouca ou nenhuma garantia de assegurar seu conteúdo. Como somos mais complexos que uma fórmula química qualquer, rótulos não podem relatar todo seu contido.

A tentativa da pessoa em me colocar no balaio dos anormais, ironicamente usou como base os textos do Gelo Negro, olhou e disse: ‘Olha, o que eu disse? Tá aí, é depressão pura isso’.

Eu até poderia concordar, se misturado à toda essa ‘melancolia introspectiva’, não tivessem tanto conteúdo mais ‘suave’, como as belas canções, os belos vídeos, as histórias, os filmes, as fotografias. No fundo me considero uma pessoa de coragem e brio, afinal, mexer no seu lado mais obscuro e dar voz à coisas que você sente lá no fundo de sua alma, não é para qualquer um. Pode ser para qualquer um, mas poucos estão dispostos à isso.

Young explicaria melhor que eu…

Acredito que grande parte da sociedade em geral, esconde seus medos, frustrações e psiques em um lugar muito profundo, preferencialmente inalcansável.

De uma maneira prática, as possibilidades de eu desenvolver um surto psicótico, é menos potencial que naqueles que preferem ignorar sua própria sombra. Possuem medo de lidar com o desconhecido, como se tivessem um lado ‘sociedade secreta’. Um caminho que temem entrar e nunca mais voltar. Não sei precisar quais os benefícios desta fuga, talvez a recusa e anulação que muitas pessoas mantém sobre seu lado mais obscuro, seu lado socialmente não aceito, seja importante para lhes dar a classificação que todos desejam: ‘os normais’. Quem sabe, ignorar o ‘todo’, seja a maneira eficaz encontrada para sobreviver à algo que não conseguiriam suportar.

Partindo da ideia que pensamentos e traços de personalidade ficam escondidos em algum lugar inacessível, tentar entender-se por completo é como um mergulho apnéico em um lago de águas paradas e profundas (alguém já deve ter dito isso). Tão profundas que se tornam escuras, talvez esta tenha sido a origem da expressão ‘lado negro’. Um mergulho ao seu lado negro em seu fito, exige fôlego e a preocupação de manter a consciência durante a descida e seu retorno, qualquer distração ou inconsciência em um mergulho apnéico, pode fadá-lo a nunca voltar para a superfície.

Eu nunca me escondi de meus medos, sentimentos, angústias e depressões. Tentei me manter consciente em todas estas ‘viagens internas’, na tentativa camicase de sair delas: fortalecido, preparado, consciente, senhor de mim mesmo. É uma forma interessante de aperfeiçoamento pessoal, porém, lembre-se que em meio a tudo isso, estará o julgamento de quem não lhe conhece (e até de quem parece lhe conhecer), de quem enxerga apenas a superfície da escuridão de seu lago sentimental.

Este julgamento inevitavelmente virá daqueles quem possuem medo de enfrentar tudo aquilo que rejeitam. Por isso tentarão lhe colocar em uma posição afastada, classificando você de diferente, lunático, depressivo, melancólico e atormentado.

Indiferente do rótulo que vão lhe dar, como deram a mim, tudo não passa de uma busca desesperada de afastar de si mesmo, aquilo que acreditam não possuir.

Seu lado negro, seu lago negro, seu gelo negro…

One Response to Lago Negro…
  1. F,Champagne

    Mto inteligente seu texto cara, já pensava em mtas coisa que vc citou ae.
    Continue pensando(como se fosse possivel parar de pensar!) e expondo seus pensamentos , pode ser que poucos compreendam , mas pela profundidade das idéias , os que entenderem como eu, estarão satisfeitos em vê que existem pessoas que vão além.
    Abração!

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