Designo Divino

Hoje estava aqui, assistindo mais um vídeo, entre tantos outros com alguma história emocionante.  Repleto de clichés como: ‘Seu exemplo de vida nos faz perceber como nossos problemas são pequenos’. Tente ler cada frase deste texto com prudência. Talvez um caso emblemático seja o de Susan Boyle, uma jovem senhora de 48 anos, desempregada e solitária, que tem como única companhia um gato chamado Peebles. Susan nunca casou, na verdade nunca beijou ninguém. Susan vive na pequena cidade de Blackburn, Escócia. A aparência um pouco descuidada e a avançada idade diante da média dos participantes do programa ‘Britain’s Got Talent’ forçou uma baixa expectativa dos jurados, que se viram diante de uma atitude preconceituosa, quebrada pelo ‘inesperado talento de Susan’.

Após a gigantesca repercussão mundial, inúmeras outras histórias passaram a aparecer no mesmo programa e em outros do mesmo segmento. Mas não precisamos ir até o Reino Unido para encontrar outros programas que de certa forma, exploram algumas histórias comoventes. Seja na reconstrução de uma casa, a reforma de um carro ou na própria aparência física, estamos cercados de exemplos por todos os lados.

Compadecer do próximo, de uma vida que agoniza diante da sua, está muito longe de ser algo elogiável. É notório que a indiferença diante da dor alheia é um ato de indolência, o que não tranforma o seu oposto em ideal. Na realidade, a compaixão que necessita de exemplo, denota uma personalidade ignóbil.

Toda vez que vejo uma história como esta, de alguém pobre, atrás de um sonho aparentemente impossível, agradecendo apresentadores de tv por seus corações generosos, sempre me pego fazendo uma reflexão sobre essa realidade. Luciano Huck é um dos apresentadores que mais explora essas histórias. Segundo ele, histórias de vida o fascinam. E ele até se considera um caçador de belas histórias de vida. Talvez ignore ou seja apenas parte do show, fingir que cada uma delas, se trata de um grande achado, coisa do destino, designo de Deus.

Na realidade, a cada esquina, em cada bairro, de qualquer cidade do país, milhares de outras histórias iguais ou mais dramáticas, aumentam um estatística ignorada, negligenciada.  Agora mesmo, alguém próximo, um amigo, um familiar ou até mesmo você, poderia me contar uma história de luta e provações. Das contas que sobram no final do mês, da comida que faltou na mesa, dos sonhos frustados, do diagnóstico médico, da perda de alguém próximo, da falta de dignidade. Ao contrário da visão torpe de quem não conhece o sofrimento, agora, neste exato instante, alguém está morrendo, alguém está sofrendo, alguém sente falta, alguém sente fome, alguém sente a dor daquilo que não pode ter. Você não precisa presenciar o sofrimento esfregado na sua cara, para ter a certeza que a todo momento, o mundo torto que criamos, faz mais uma vítima do nosso descaso, da nossa capacidade de nos sentir tão distante do problema que não é nosso.

Definitivamente, não existe nenhuma atitude altruísta. Mesmo que você tende encontrar uma forma de contrariar essa afirmação, buscamos em todas as nossas atitudes de benevolência, algum tipo de compensação, de mérito, de reconhecimento. Nem mesmo que seja apenas para nos sentirmos diferente diante do habitual, afirmarmos nossa nobreza de espírito. Ah, que revigorante uma atitude de honestidade. Somente a impercepção das consequências pode tornar um ato legitimamente altruísta, o que nos coloca em um paradoxo: Podemos chamar o acaso de altruísmo?

Se você recordar do filme ‘Forrest Gump’, baseado no romance homônimo escrito em 1986 por Winston Groom, poderá confirmar essa possibilidade. De todas as histórias que Forrest conta sobre sua vida, para diferentes pessoas que sentam ao seu lado em um ponto de ônibus, independente das consequências positivas e generosas, ele não era capaz de entender sua parcela de contribuição ou talvez não era capaz de identificar mérito em qualquer uma delas. Para ele, a vida era vivida apenas porque assim deveria ser. Ajudar uma pessoa, era a única atitude a se tomar, sem julgamentos entre certo ou errado. Apenas deveria ser assim, pois este foi o ensinamento de sua mãe. Para ignorar a bondade, ignorava também a maldade. O preço de não ter ódio dentro de si, salvo em breves momentos, o impedia de entender de forma concreta, o que era o amor.

A compaixão deveria ser, por excelência, o usual, o óbvio. Toda vez que nos chama a atenção uma atitude de bondade, é preciso entender que algo está na contramão. Nos tornamos indiferentes ao sofrimento e nos orgulhamos do que deveria ser apenas rotina. Não é.

Meu querido Luciano Huck, que representa tantos outros casos semelhantes. Você não é bondoso. Você não é sensível. Ao contrário de tudo aquilo que o dinheiro pode lhe comprar em vida, pouco ou nada pode lhe comprar no céu. Se você acredita que as poucas histórias de vida que você conta, lhe transformam em uma pessoa melhor, saiba que está na hora de baixar os vidros blindados e olhar mais para os lados. Quem sabe trocar um helicóptero por uma ajuda mais substancial. Quem sabe tentar de alguma forma, ajudar alguém, sem que isso se torne uma matéria para a televisão, nem um tweet no seu iPhone. Não sofrem apenas as pessoas que você tão generosamente conserta um carro sem garagem ou uma casa financiada por patrocinadores, sofre toda a humanidade. Você está na área vip mas, apesar do que possa parecer, não existe nenhum mérito.

‘I dreamed that God would be forgiving’

 

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