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Archive for 'jr wills'

A

dezembro 31st, 2012 by , under jr wills, para sempre..., pensamentos, trovador templario. No Comments

A, ela, mulher.
Quando não, menina.
Feminina porém, sempre.
Ela é assim, delicada.
Na boca.
Na voz.
Na pele.
No toque da mão.
Podia ser Sol, preferiu ser a Lua.
No vento se tornou a brisa.
No mar se tornou a onda.
No céu se tornou a nuvem.
No temporal se tornou a tempestade.
Jamais poderia ser algo que não comece com a letra ‘a’.
No sorriso se tornou a risada.
No choro se tornou a lágrima.
No sofrimento se tornou a dor.
No amor se tornou a paixão.
No sempre se tornou a eternidade.
No desejo se tornou a excitação.
Porque ela só sabe ser A,
Só sabe ser ELA,
Só lhe resta ser MULHER.

J.R. Wills

Publicado originalmente em: 9 de abril de 2009 às 4:38

Contra Corrente

dezembro 30th, 2012 by , under jr wills, para sempre.... No Comments

Eu sempre fui uma pessoa de grandes certezas e por elas sempre me senti alguém preparado, definido, preciso. Nunca acreditei que poderia encontrar algum desvio no caminho, ao menos nada ao ponto de me desviar significativamente do objetivo principal. Com o passar do tempo e de todas as variáveis que a vida fez questão de me apresentar, forçadamente, comecei a entender a ineficácia de ter aquilo que muitos chamariam de personalidade forte.

Em geral, a rigidez que por um lado traz a resistência, por outro traz a imobilidade, poucas vezes é previsível saber qual qualidade seria mais importante: força de resistência ou agilidade de adaptação.  Os últimos doze anos da minha vida tem sido marcados por inúmeras provações e uma inconstante e provavelmente infindável necessidade de mudança e resiliente adaptabilidade.

Seguir mudando para poder seguir.

Conexões

outubro 19th, 2012 by , under jr wills. No Comments

De forma confusa e perplexa observo ao passar do tempo, que nos fadamos a um paradoxo triste, melancólico e por vezes patético. Na chamada era da informação, ficar calado se mostrou a forma mais eficaz de ser aceito. Entre alguns ‘Curtir’, compartilhamentos e views, ganhamos amigos como título e perdemos todos por merecimento. Em nosso momento histórico mais coletivo, nunca fomos tão individuais. Não conseguimos estabelecer comunicação entre tantas formas de conexão. No instante em que deveríamos presenciar uma revolução na convivência social, nunca fomos tão solitários.

Iludibriados pelos números, perdemos a noção da unidade. Nos tornamos um imenso e infindável conjunto vazio. Sabemos cada dia menos de mais assuntos. Conhecemos o mundo inteiro sem tirar os pés do chão. Essa sensação de mobilidade virtual limita de forma incalculável e imensurável nossa vivência humana, real, tática, olfativa, gustativa e limitadamente visual.

Pensamos estar, acreditamos estar, confiamos estar, mas não estamos. Não tivemos de esperar as máquinas riscarem o céu. Acabamos não precisando de cabos físicos conectados ao nosso corpo nos enviando informações, neste aspecto fomos mais ágeis, quase um sistema wifi. Nos conectamos apenas pela tela do computador, do smartphone ou da televisão. Preferimos fantasiar e nos entreter com uma realidade alternativa a enxergar nossa condição humana cada dia mais frágil e fadada a um fim sombrio.

De alguma forma, o que parecia ficção científica se tornou metáfora, um prognóstico pragmático. A única parte deste enrredo que não parece corresponder a história original é a possibilidade de pílulas azuis e vermelhas nos separarem do que é real daquilo que é apenas um futuro programado artificialmente, em código aberto e com cooperação massiva de uma parte de nós, enquanto a outra parte apenas repete aquilo que lhes é apresentado. De fato nossas pílulas são brancas, pequenas e possuem a função de nos manter tolerantes a todo desconforto psicológico, quem sabe a única esperança que poderíamos ter em manter algum grau de revolta e instatisfação, que poderia nos conduzir a esperança remota e pouco provável de salvação.

Talvez a ideia do escolhido nos remeta mais a uma esperança religiosa que científica. O mais preocupante e desolador no entando está na percepção de que, grande parte de nossa espécie humana, parece ignorar, não se importar e desprezar a possibilidade e necessidade de mudar nosso status quo. Enquanto isso sigo acreditando que, de alguma forma positiva, tudo que tem um começo tem seu fim.

Confiante que o futuro nos reserva um recomeço.

J.R.Wills

Um qualquer

julho 9th, 2012 by , under jr wills, para sempre..., trovador templario. No Comments

Qual importância você tem?  Alguma vez você se perguntou o quão importante é?
Não me refiro as pessoas com o ego inflado, que já se sentem extremamente relevantes, invariavelmente e paradoxalmente as verdadeiramente dispensáveis. Falo de você, falo de mim, que sempre imaginou ser apenas e unicamente só mais um.

Há tempos ou quem sabe sempre me senti assim, um cara comum, levando uma vida comum, com sonhos comuns, dentro de possibilidades cotidianas, tentando se acostumar com tudo aquilo que foge da possibilidade de controle. Hoje, em mais um dia qualquer, de um cara qualquer, recebi um recado que mal ocupava uma linha, mas que significou demais para mim. Uma pessoa muito importante lembrou de mim, justo de mim, o insignificante cara comum. E não era uma pessoa qualquer, por um assunto qualquer ou um motivo frívolo.

Lembrei do ensinamento de um amigo distante: ‘O herói tem seu poder medido pelo poder do seu inimigo’. Explicação eficaz quando passamos a perceber que vilões são sempre maiores, mais fortes e até mais ‘maneiros’ que os mocinhos. Explicação que justifica Rocky Balboa apanhar tanto antes de derrotar seus oponentes, assim como tantos outros heróis do cinema.

A provação, o sofrimento, a resiliência são necessárias para a construção do caráter.
Sendo assim, lembre-se que a importância que você tem é medida pela importância daqueles que lembram de você, não dos que já lhe esqueceram.

Enquanto você lembrar de mim e eu de você, nunca seremos apenas mais um.
Por si só, já somos dois.

Escrito por J.R. Wills

Ps.: Seria uma boa oportunidade de você lembrar de alguém.

Pour deux

fevereiro 7th, 2012 by , under conto, jr wills, trovador templario. 1 Comment

Luanne era como a chamavam, ninguém se interessou por seu verdadeiro nome, até ela o esqueceu. Há um velho ditado francês que diz: ‘Poulet qui a un nom ne va pas à vau-l’eau’. Não, certamente não existe ditado francês algum. Ela também não era, fantasiava ser, sentia-se verdadeiramente assim: estrangeira, distante, diferente deste mundo de estranhos. Não saberia mais discernir se houve escolha, sabia apenas que assim foi, esperando que não o seja, para sempre.

Em cada rosto desconhecido, na dor da entrega, fingindo prazer, fingindo suportar, contrariando Pessoa, fingia não ser dor, a dor que deveras sentia. Durante os suspiros que flutuavam no ar, fechava lentamente seus olhos e imagiva por um momento, ser capaz de se perder nas brumas do tempo. Se imaginava sentada sob a sombra de uma árvore, de uma tarde ensolarada, de brisa refrescante, admirando a leveza do dirigível que deslocando-se no ar, deslocava também o seu olhar.

De alguma forma desabitual, sua dor lhe conectava aos seus melhores devaneios, levando-a à uma dissonância sentimental. Questionava-se sobre a possibilidade de seus pensamentos desaparecerem junto ao seu sofrimento, que então serviam de portal. Que outra realidade devastadoramente imposta poderia lhe conectar à este mundo tão incrivelmente sedutor que habitava sua mente?

Apesar da sua capacidade de divagação aperfeiçoada pelo tempo, nem sempre conseguia abstrair-se da realidade, ainda não havia aprendido o gatilho que disparava sua quimera. Não havia coelho branco, nem chave sobre a mesa. Apesar de desconhecer o que lhe induzia entrar, sabia exatamente o que lhe despertava de suas fantasias: os suspiros cessavam e cada nota que lhe comprara seu pérfido prazer, matavam seu amor e lhe deixavam hematomas na alma. Em sua primeira vez, Luanne já pensava que encontraria o amor. Foi assim na segunda vez, na terceira e na quarta. Parou de contar, passaram-se dias, meses e anos, não passou a ideia que enfim seria o último, cessando aquela realidade com um olhar apaixonado e um convite para nunca mais voltar. Na tentativa de estar pronta, quando a chance parecia bater à porta, entregava-se sem pudor algum, para qualquer um.

Caminhando pela rua, às voltas com seu colorido cachecol, contrastando à monocromia do frio, agora por fora apenas. Sentava-se em um banco qualquer no Cafe de Flore, como em todas as tardes, entre frases de Foucault e imagens de Truffaut, enquanto o velho rádio lhe trazia Piaf: ‘Chanson d’amour’, sua predileta. Eram naquelas tardes bucólicas que esperava seu novo amor.

Acordou no entanto, recobrou-se de consciência, lamentou a realidade. Ao contar as notas que pousara à mesa de cabeceira, escrito em uma delas, em pequenas letras, assim ela o leu:

Eu lhe encontrei. Quem? Tu, eternidade.
És mar misturado ao sol.
Minh’alma imortal, cumpre a tua jura.
Serei sol estival e tu, noite pura.
Pois tu me liberas das humanas quimeras, dos anseios vãos!
Tu voas então, comigo?…

Ela o esperou e ele nunca mais voltou. Na realidade ela jamais saberia afirmar, não lembrara nada daquela noite, nem ao menos sua fisionomia. Das poucas lembranças que enganavam-na, reconstruiu um rosto de retalhos de tantos outros do passado. Escolheu a cor do cabelo, dos olhos, da pele, escolheu a boca, a voz, a barba. Ele nunca mais se manifestou diante da apatia de Luanne que nunca lhe retribuiu sua tentativa de dizer que a amou. Ela nunca percebeu seu olhar, seu carinho ou um beijo que lhe roubou. Estava sempre distante, desconectada.

Ele insistiu sem perguntar ao lhe encontrar diversas vezes, aguardando que ela o reconhecesse, esperando um gesto para sentir-se diferente, não queria lhe ser mais um estranho. Por fim, desistiu e nunca mais voltou. Ele jamais saberia, mas daquela noite em diante, ela nunca mais esteve sozinha em seus devaneios. Enfim ela o encontrou, sentado na mesa ao lado, lendo poesias de Rimbaud, ela levantou, ele a convidou para sentar, ela aceitou, ele lhe disse: ‘- você demorou..’, ela sorriu.

Inspirado na canção Chanson d’Amour de Renato Godá
Escrito por J.R. Wills