Põe no ‘mute’ e pega a letra…

Muitos pensamentos percorrem a minha mente a todo o tempo. Não sei se isto é um problema para mim, certamente é para os outros, quando tento verbalizar essa confusão mental. Desde que conheci o trabalho do Criolo, já escrevi algumas coisas sobre ele por aqui, mas me parece que este é só o começo de tudo, tenho tanta coisa a dizer sobre ele. Quando você pega o álbum ‘Nó na Orelha’ e o ouve do início ao fim, percebe que ele é um ramo central. Cada música, cada ritmo, cada estrofe inicia uma nova ramificação que se multiplica a cada caminho que você escolhe percorrer.

Assistindo aos vídeos que encontro na internet, nas minhas incessantes buscas, comecei a perceber uma característica muito interessante. Apesar dos holofotes sobre o rap nacional, tendo justamente como representantes mais populares: Criolo e Emicida, é nítida a diferença entre ambos. Enquanto Emicida curte a fama, Criolo me parece entender que recebeu o chamado ao qual esperou por toda a vida. Lindamente ele não se omitiu e não ignorou a chance que tanto buscou.

Lhe deram o microfone, lhe deram voz e a hora chegou. Chegou o momento da convocação, da revolução nada silenciosa, ganhada no grito, o fim da escravidão mental. Quase como um evangelizador, Criolo usa todas as oportunidades que lhe são dadas, para ser porta-voz dos outros, nunca advoga em causa própria, mas sempre em causas coletivas, perdidas, esquecidas. Eu sinto que esse chamado que ele tenta promover, ainda não atingiu a todos na profundidade necessária para causar uma revolução efetiva, mas ao mesmo tempo não o vejo fraquejar. Por isso seu grito ficou silenciado por tantos anos. Criolo foi forjado em aço, mais afiado que todas as lâminas, mais certeiro que bala perdida.

Este levante não é contra o governo, não é contra uma classe social, é contra a ignorância e a desigualdade, não social, mas a desigualdade mental. Somos tão capazes quanto e precisamos enxergar o próximo da mesma forma, lhe dando oportunidade de alimentar o corpo, o espírito e a mente.

Verdadeiros líderes não se criam do dia para a noite, levam tempo, precisam envelhecer, maturar. O ‘Doido’, que desavisados poderiam confundir por ‘insano’, ‘descrontolado’, ‘maluco’, na verdade retrata o incompreendido. Sua confusão mental só incomoda os desatentos, os superficiais, os rasos.

Criolo é um sobro de esperança, na crença sobre a possibilidade por tantas vezes utópica, do incorruptível, do íntegro, do justo. Criolo se tornou o escolhido e tem consciência da importância que sua voz tem. A voz que é feita do coro de todos aqueles que prendem o grito, que sufocam, que suportam calados, silenciados pela desigualdade, pelo descaso, pelo esquecimento.

Cálice (música de Chico Buarque) na versão de Criolo

Corre pro trabalho sem levar um tiro
Volta pra casa sem levar um tiro
Se as 3:00 da matina tem alguém que frita
E é capaz de tudo para manter sua brisa
Os saral tiveram que invadir os butecos
Pois biblioteca não era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silêncio
E uma gente que se acha, assim, muito sabida
Há preconceito com o nordestino
Há preconceito com o homem negro
Há preconceito com o analfabeto
Mas não há preconceito se um dos três for rico, Pai!
A ditadura segue meu amigo Milton
A repressão segue meu amigo Chico
Me chamam Criolo, o meu berço é o rap
Mas não existe  fronteira para minha poesia.
Pai! Afasta de mim as biqueira
Pai! Afasta de mim as biat
Pai! Afasta de mim a cocaine
Pai! Pois nas quebrada escorre sangue
Pai! …

Eu espero de coração, que toda a afetação desse mundo torto não seja capaz de desviar mais um do nosso fronte…

Humildade

Essa foto deve ser do final do ano passado, você até poderia argumentar que a foto é forjada, posada, mas eu ainda prefiro acreditar que existem pessoas que não esquecem suas origens. Essa foto inicia uma nova seção no site chamada REVERBERANTE, assim podemos lembrar da importância de pequenos gentos e sua capacidade de reverberação pelo tempo e sua potencialidade de ecoar para sempre.