Reinvenção

Após chegar aos trinta anos, olho para trás e em pouco me reconheço. Tentei me refazer ao longo do tempo, ao longo da vida, ao longo das situações. Tento a cada dia controlar meu ímpeto, absorver mais perspectivas, falar menos, ouvir mais, aconselhar menos, ser uma companhia mais suave, ser breve, ser leve e para de fato conseguir ser para sempre. Quero ser livre, dos meus preconceitos, do olhar alheio, de julgamentos precipitados. Quero ser justo com os outros e comigo mesmo. Quero sem menos em tudo, para ser mais no todo.

Muito pertinente compartilhar estes pensamentos que nos ajudam, nos guiam e orientam nesta busca que cada dia parece definitivamente sem fim.

O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção.

Rubem Alves

Fogo e Gelo – Robert Frost

Assim como Frost, obviamente eu acredito mais no gelo.

Fogo e Gelo

Alguns dizem que o mundo acabará em fogo,
Alguns dizem em gelo.
Do que provei de desejo sem arrogo
Eu fico com aqueles a favor do fogo.
Mas se houvesse duas vezes esse pesadelo,
Eu acho que sei do ódio o tom
Para dizer que para destruição o gelo
Também é muito bom
O bastante para sê-lo.

Tradução: Ricardo Cabús

Fire and ice

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

Stephenie Meyer não estragou apenas o poder da lenda do vampiro para toda uma geração. Estragou também um dos mais belos poemas de Robert Frost, poeta americano, um dos mais importantes do século XX, ganhador de nada menos que quatro prêmios Pulitzer. E neste singelo poema sobre os extremos da vida, Meyer fez uma analogia sobre a escolha que Bella precisa fazer entre Edward (Gelo) e Jacob (Fogo). Praticamente uma blasfêmia. Nem citei que Meyer destruiu uma das palavras mais bonitas que existe: ‘crepúsculo’.

Conversa de Botas Batidas

Que interessante, após tanto tempo de total torpor, até pensei ser incapaz de produzir uma lágrima que assim fosse. Então sento aqui e pesquisando pelo poema que foi acrescentado a canção ‘Conversa de Botas Batidas’, em uma versão da original dos Los Hermanos, cantada agora por Cícero, no projeto Re-Trato, novamente esbarro com Drummond. Estranho como a vida me parece levar sempre para os mesmos lugares, pessoas e sentimentos. De repente vem aquela cisma inexplicada e estranha, que se revela íntima e particular.

Desde que li um poema de Drummond, há algum tempo, corri por semanas, meses e livrarias em busca do seu livro ‘Confissões de Minas’. Ao mesmo tempo que ouvi esta versão pela primeira vez. Nem poderia desconfiar que se tratava novamente ele, além da curiosidade de quem seria o seu locutor. Quem melhor que o próprio? O poema se chama ‘Memória’ e diz mais ou menos assim:

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Não sei se sou capaz de entender o real sentido das palavras de Drummond, mas de alguma maneira elas me afetam, mais que profundamente: em definitivo. A junção do poema à uma canção tão contemporânea, mostra não só sua beleza e relevância, mas a capacidade de Drummond de ser atemporal. Lindo também é seu título da canção: ‘Conversa de Botas Batidas’. Gosto de músicas com nomes que não sejam retiradas de um trecho dela, mas que sintetizem o sentido do que o compositor quer dizer.

Bonito o trecho que diz assim:

A gente só queria um amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida

Não sei você, mas tantas vezes achei que Deus esqueceu de mim. Tantas vezes quando ouvi alguém dizer isso, pedi para que não repetisse. Talvez ele não tenha ouvido da primeira vez e tudo ficaria bem. Nossa pior herança do cristianismo: acreditar em um Deus vingativo, mesmo sabendo que a maior característica de um ser supremo é o perdão.

Fica a eterna dúvida proposta:

Quem é maior que o amor?

Ao Coração que Sofre – Olavo Bilac

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Ps.: Apesar de eu não gostar e não acompanhar as novelas da Globo, esta poesia foi lida hoje por Miguel Falabella na sua péssima novela ‘Aquele Beijo’.

Todas as cartas de amor…

Dia dos Namorados se aproximando, talvez não exista um poema mais simplista e verdadeiro que este. Então se você não sabe como demonstrar seu amor, use a poesia sincera de Álvaro de Campos.

Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmenteRidículas.)

Álvaro de Campos, 21-10-1935

Ps.: Álvaro de Campos é um heterónimo criado por Fernando Pessoa.

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Este texto é comumente atribuido a Oscar Wilde, apesar de nunca ter encontrado seu original em inglês na internet. Se alguém souber a origem correta, por gentileza, deixe um comentário.