Reinvenção

Após chegar aos trinta anos, olho para trás e em pouco me reconheço. Tentei me refazer ao longo do tempo, ao longo da vida, ao longo das situações. Tento a cada dia controlar meu ímpeto, absorver mais perspectivas, falar menos, ouvir mais, aconselhar menos, ser uma companhia mais suave, ser breve, ser leve e para de fato conseguir ser para sempre. Quero ser livre, dos meus preconceitos, do olhar alheio, de julgamentos precipitados. Quero ser justo com os outros e comigo mesmo. Quero sem menos em tudo, para ser mais no todo.

Muito pertinente compartilhar estes pensamentos que nos ajudam, nos guiam e orientam nesta busca que cada dia parece definitivamente sem fim.

O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção.

Rubem Alves

Ao Coração que Sofre – Olavo Bilac

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Ps.: Apesar de eu não gostar e não acompanhar as novelas da Globo, esta poesia foi lida hoje por Miguel Falabella na sua péssima novela ‘Aquele Beijo’.

Rima LII (53)

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y otra vez con el ala a sus cristales
jugando llamarán.

Voltarão as escuras andorinhas
em tua varanda a fazer seus ninhos,
e outra vez com a asa em tuas janelas
batendo chamarão

Pero aquellas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha a contemplar,
aquellas que aprendieron nuestros nombres…
¡esas… no volverán!.

Porém aquelas que o voo refrenavam
tua formosura e minha alegria ao contemplar,
aquelas que aprenderam nossos nomes…
essas… não voltarão.

Volverán las tupidas madreselvas
de tu jardín las tapias a escalar,
y otra vez a la tarde aún más hermosas
sus flores se abrirán.

Voltarão as densas madressilvas*
de teu jardim os muros a escalar,
e outra vez na tarde, ainda mais formosas,
suas flores se abrirão.

Pero aquellas, cuajadas de rocío
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer como lágrimas del día…
¡esas… no volverán!

Porém aquelas flores, coalhadas de orvalho
cuja as gotas olhávamos tremer
e cair, como lágrimas do dia…
essas… não voltarão.

Volverán del amor en tus oídos
las palabras ardientes a sonar;
tu corazón de su profundo sueño
tal vez despertará.

Voltarão o amor em teus ouvidos
ardentes palavras a soar;
teu coração de seu profundo sonho
talvez despertará.

Pero mudo y absorto y de rodillas
como se adora a Dios ante su altar,
como yo te he querido…; desengáñate,
¡así… no te querrán!

Porém mudo e absorto** e de joelhos
como se adora Deus ante seu altar,
como eu te quis… desengana-te.
assim… não te quererão!

Gustavo Adolfo Bécquer

*tipo de planta trepadeira
**concentrado em seus pensamentos, estasiado

O ator Luis Gustavo, recebia uma homenagem no programa da ‘Xuxa’, quando resolveu declamar a Rima LII para ela, em agradecimento ao convite que recebeu. Por gentileza, tente ignorar a Xuxa e preste atenção apenas na rima, tão belamente recitada por ele.

Gustavo Adolfo Bécquer foi um escritor e poeta espanhol, pertencente ao final do romantismo, é considerado pós-romantismo, além de ter escrito dentro do realismo. Bécquer nasceu em 17 de fevereiro de 1836, em Sevilha na Espanha e faleceu ainda jovem, aos 34 anos, em 22 de dezembro de 1870 em Madri. Nunca teve um livro publicado em vida, porém hoje é considerado um dos escritores mais importante da Espanha.

 

José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse….
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Drummond de Andrade

Todas as cartas de amor…

Dia dos Namorados se aproximando, talvez não exista um poema mais simplista e verdadeiro que este. Então se você não sabe como demonstrar seu amor, use a poesia sincera de Álvaro de Campos.

Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmenteRidículas.)

Álvaro de Campos, 21-10-1935

Ps.: Álvaro de Campos é um heterónimo criado por Fernando Pessoa.

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Este texto é comumente atribuido a Oscar Wilde, apesar de nunca ter encontrado seu original em inglês na internet. Se alguém souber a origem correta, por gentileza, deixe um comentário.