Awakening

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Por vezes tenho a nítida sensação de que a cada vazio que tento preencher com palavras, torno-me cada vez mais solitário, oco e fragmentado. Levam mais de mim do que costumam me deixar. Em geral levam até o que trouxeram, sobrando apenas a lembrança do que perdi, de mim e dela.

Nesta troca sentimental em desequilíbrio me transformou em personagem. A placidez, a generosidade, a serenidade, o jeito calmo, que de forma mais jocosa poderia ser definido como ‘mosca morta’, revelam a minha própria transformação em um ser inanimado, torpor de mim.

Passei a existir como imaginário, me materializo em fantasias fugazes, me desfaço em um piscar de olhos. Sou o sonho bom que você lembra vagamente ao acordar e esquece por completo antes do próximo dia chegar. Você desperta, esquece e volta a viver seu cotidiano normal, sem graça, porém palpável.

Sou liberdade poética. Sou miragem. Sou improvável. Sou utopia. Sou conto. Sou fábula. Sou mentira conveniente.

Sou a história perfeita com o personagem errado. Sou aquele que você sonha e materializa em outro.

J.R. Wills

Quase sempre…

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Conjunto vazio

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Em certos momentos de sua vida, fica difícil explicar ou entender como acontecimentos se costuram diante do tempo. Aquilo que você gostaria que fosse diferente resolve deixar de existir, sem que alguém lhe peça permissão de lhe tirar algo tão precioso. E por mais que você busque não pensar, está em todos os lugares. No rosto de qualquer pessoa, no gesto de um estranho, no roteiro de um filme qualquer, na letra de uma canção que nem fazia tanto sentido no passado.

Aceitar o fim quando ele lhe é imposto e não uma escolha, causa um sofrimento diferente. Uma sensação incontrolável de sufocamento, desespero, incapacidade, anulação. Impossível não lembrar tudo que passou, os sonhos desfeitos, o futuro que não acontecerá, o tempo perdido. Perdido não no sentido de não ter valido a pena, mas de não ter terminado como deveria ou ao menos como se imagina que deveria terminar. Fica tudo assim, pela metade, inconclusivo, confuso, estranho. Então você se vê só, de uma forma que não havia planejado, sentindo coisas que não esperava sentir.

Alguns resumiriam de forma rasa como orgulho ferido. Outros dizem que é apenas a dificuldade de aceitar o fim. Para mim, a tristeza que me faz companhia a todo momento tem muito mais que isso. Tem tudo aquilo que nunca mais será, tudo que não foi, mas que dentro de mim já existia. Nunca, parece uma palavra forte demais. O tempo é tão longo para dizer ‘nunca mais’, porém existe algo imutável, algo que o tempo não apagará. A sensação da troca, de ser classificado como algo sem importância, de ser rebaixado a algo menor e indivisivelmente saber que perdeu valor, passou da validade, expirou o prazo.

Não sei mais,  quanto isso diz sobre o amor perdido ou sobre a parte de mim que deixou de existir juntamente. Temos que nos adaptar as perdas, mas neste momento é difícil viver sendo metade, sendo sobra. Para muitas coisas, a metade não é suficiente para funcionar corretamente. Um coração partido ao meio não bate pela metade, simplesmente não bate.

A

A, ela, mulher.
Quando não, menina.
Feminina porém, sempre.
Ela é assim, delicada.
Na boca.
Na voz.
Na pele.
No toque da mão.
Podia ser Sol, preferiu ser a Lua.
No vento se tornou a brisa.
No mar se tornou a onda.
No céu se tornou a nuvem.
No temporal se tornou a tempestade.
Jamais poderia ser algo que não comece com a letra ‘a’.
No sorriso se tornou a risada.
No choro se tornou a lágrima.
No sofrimento se tornou a dor.
No amor se tornou a paixão.
No sempre se tornou a eternidade.
No desejo se tornou a excitação.
Porque ela só sabe ser A,
Só sabe ser ELA,
Só lhe resta ser MULHER.

J.R. Wills

Publicado originalmente em: 9 de abril de 2009 às 4:38

Contra Corrente

Eu sempre fui uma pessoa de grandes certezas e por elas sempre me senti alguém preparado, definido, preciso. Nunca acreditei que poderia encontrar algum desvio no caminho, ao menos nada ao ponto de me desviar significativamente do objetivo principal. Com o passar do tempo e de todas as variáveis que a vida fez questão de me apresentar, forçadamente, comecei a entender a ineficácia de ter aquilo que muitos chamariam de personalidade forte.

Em geral, a rigidez que por um lado traz a resistência, por outro traz a imobilidade, poucas vezes é previsível saber qual qualidade seria mais importante: força de resistência ou agilidade de adaptação.  Os últimos doze anos da minha vida tem sido marcados por inúmeras provações e uma inconstante e provavelmente infindável necessidade de mudança e resiliente adaptabilidade.

Seguir mudando para poder seguir.

Conexões

De forma confusa e perplexa observo ao passar do tempo, que nos fadamos a um paradoxo triste, melancólico e por vezes patético. Na chamada era da informação, ficar calado se mostrou a forma mais eficaz de ser aceito. Entre alguns ‘Curtir’, compartilhamentos e views, ganhamos amigos como título e perdemos todos por merecimento. Em nosso momento histórico mais coletivo, nunca fomos tão individuais. Não conseguimos estabelecer comunicação entre tantas formas de conexão. No instante em que deveríamos presenciar uma revolução na convivência social, nunca fomos tão solitários.

Iludibriados pelos números, perdemos a noção da unidade. Nos tornamos um imenso e infindável conjunto vazio. Sabemos cada dia menos de mais assuntos. Conhecemos o mundo inteiro sem tirar os pés do chão. Essa sensação de mobilidade virtual limita de forma incalculável e imensurável nossa vivência humana, real, tática, olfativa, gustativa e limitadamente visual.

Pensamos estar, acreditamos estar, confiamos estar, mas não estamos. Não tivemos de esperar as máquinas riscarem o céu. Acabamos não precisando de cabos físicos conectados ao nosso corpo nos enviando informações, neste aspecto fomos mais ágeis, quase um sistema wifi. Nos conectamos apenas pela tela do computador, do smartphone ou da televisão. Preferimos fantasiar e nos entreter com uma realidade alternativa a enxergar nossa condição humana cada dia mais frágil e fadada a um fim sombrio.

De alguma forma, o que parecia ficção científica se tornou metáfora, um prognóstico pragmático. A única parte deste enrredo que não parece corresponder a história original é a possibilidade de pílulas azuis e vermelhas nos separarem do que é real daquilo que é apenas um futuro programado artificialmente, em código aberto e com cooperação massiva de uma parte de nós, enquanto a outra parte apenas repete aquilo que lhes é apresentado. De fato nossas pílulas são brancas, pequenas e possuem a função de nos manter tolerantes a todo desconforto psicológico, quem sabe a única esperança que poderíamos ter em manter algum grau de revolta e instatisfação, que poderia nos conduzir a esperança remota e pouco provável de salvação.

Talvez a ideia do escolhido nos remeta mais a uma esperança religiosa que científica. O mais preocupante e desolador no entando está na percepção de que, grande parte de nossa espécie humana, parece ignorar, não se importar e desprezar a possibilidade e necessidade de mudar nosso status quo. Enquanto isso sigo acreditando que, de alguma forma positiva, tudo que tem um começo tem seu fim.

Confiante que o futuro nos reserva um recomeço.

J.R.Wills

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