Yoani Sanchez fez um apelo a nossa presidenta…

A jornalista e filóloga cubana Yoani Sanchez fez um apelo especial ao Brasil e a nossa presidente Dilma Rousseff, manifestando seu desejo de vir ao país, para participar do lançamento oficial do documentário em qual foi uma das personagens. O documentário “Conexão Cuba Honduras” foi produzido em 2009,  pelo documentarista brasileiro Dado Galvão. O lançamento do documentário foi adiado por duas vezes, em solidariedade à Yoani, pois seus pedidos feitos ao presidente Lula, não foram levados em consideração.

Yoani Sanchez (Havana, 4 de setembro de 1975) é licenciada em Filologiapela Universidade de Havana, ela alcançou fama internacional e numerosos prêmios por seus artigos e suas críticas da situação social em Cuba sob o governo de Fidel Castro e de seu sucessor, Raúl Castro. Ficou conhecida por seu blog ‘Generación Y’, editado desde abril de 2007, com dificuldades, porque não pode acessá-lo de casa e por isso definiu-se como uma blogueira ‘cega’.

A revista TIME  a incluiu em sua lista de ‘100 pessoas mais influentes de 2008’, relatando:

debaixo do nariz de um regime que nunca tolerou dissensão, Sánchez exerce um direito não garantido aos jornalistas que trabalham com papel: liberdade de expressão

Eu particularmente acompanho Yoani através do twitter e sua atitude de extrema coragem e cidadania é um exemplo que precisa ser reconhecido. Impossível imaginar que o Brasil não interceda por ela, sendo que seu trabalho já tenha reconhecimento internacional. Eu lhe pergunto: – Você teria coragem de contrariar um governo? Arriscar sua vida para defender os direitos alheios? Assumiria os riscos de mostrar a situação social do seu país em plena ditadura?

A petição on-line feita pela fotógrafa brasiliense Xenia Antunes tem apenas 700 assinaturas, das 100.000 necessárias. Nestes momentos me sinto envergonhado de ser brasileiro.

Por gentileza, já que estamos em um momento em que os olhos do mundo se voltaram para a internet, ajude a divulgar o vídeo e assim fazer sua parte para que o desejo de Yoani se realize. A realidade de Cuba nos parece muito distante, seus problemas não parecem nos afetar, mas devemos isso como humanos, como semelhantes, por compaixão e respeito.

Michel Teló mordeu a maçã do paraíso…

Há muito tempo eu queria escrever um artigo sobre o Michel Teló, que teria hoje, ares de profecia, demorei e agora se tornou apenas mais um relato fácil e provavelmente repetitivo e desnecessário.

Se alguém soube dar significado a expressão “bola da vez”, este foi o cara. Após emplacar um sucesso nacional com uma música rejeitada pelos próprios compositores Thiaguinho (Exaltasamba) e Rodriguinho (Ex-Travessos), no caso “Fugidinha”, então Teló ouviu uma versão de “Ai, se eu te pego”, cantada pela banda “Garota Safada” (uma das 350 versões já gravadas), que abriu um dos seus shows. Não existe qualquer possibilidade de tirar de Teló a capacidade de enxergar potencial comercial de uma música. Composta por Antônio Dyggs, em parceria com Sharon Acioly, acredite, a mesma do hit ‘Dança do Quadrado’, Teló resolveu fazer a sua versão da música.

Está em todos os sites, nas redes sociais, jornais e revistas pelo Brasil e mundo à fora, o sucesso de ‘Ai, se eu te pego’ chegou em todas as partes do mundo. Assim como eu inconsequentemente estou fazendo agora, milhares de pessoas teorizarão sobre como ele conseguiu alcançar este nível de “viralidade”. Publicitários e marketeiros transformarão Michel Teló em tema de estudo, teorias e cases. Facilmente explicarão como um fenômeno acontece, basta ligar os pontos, como fazia Steve Jobs, teorizando sobre sua vida e seus insights épicos.

Estranhamente ainda não vi ninguém fazer esta associação, que me parece a mais conveniente e óbvia. Mesmo não estando mais entre nós, o espólio de Jobs parece continuar produzindo virais no mundo da música, como fez com tantos e tantos músicos mundo a fora. Demorou, mas a iTunes chegou ao Brasil e com ela, Teló virou arquivo digital para ser comprado em qualquer parte do mundo, por meros $ 0,99.

O sucesso de Teló no Brasil é simples de explicar. Vamos começar por um ponto importante: Como músico, ele tem talento, uma voz agradável e moldou em onze anos à frente do Grupo Tradição, toda a desenvoltura e domínio de palco que Luan Santana levaria três reencarnações para aprender. Junte a isso uma conjuntura no cenário da música brasileira, favorável ao estilo musical que Teló faz e mais três decisões inteligentes ou oportunas que fez em sua vida:

1. Deixar o Grupo Tradição e expandir suas possibilidades musicais em uma carreira solo;
2. Gravar ‘Fugidinha’ quando os próprios compositores não tiveram coragem para isso;
3. Gravar ‘Aí, se eu te pego’, deixando de lado qualquer preconceito ou elitismo musical;

Tudo isso no entanto só foi possível provavelmente, porque a simplicidade e maturidade musical de Teló o impediram de fazer qualquer plano mais ambicioso. Como disse  Tico Sta Cruz sobre a notícia de Michel Teló ter mais downloads na europa do que Adele e ColdPlay:

a internet e a maneira de disseminar conteúdo definitivamente se estabeleceu como “ANARQUICA”, fora do CONTROLE e isso é o suficiente para ter minha admiração

Independente de todas as teorias que se façam sobre quem tem mais participação neste sucesso, nunca alcançado por outro artista brasileiro (em números), para mim não existe uma explicação melhor do que o acaso, que juntou a música, o artista, o talento, o estilo musical, o cenário nacional, os humoristas como ‘O Pânico’, Neymar, Cristiano Ronaldo, mas ainda assim, no grau maior de importância, não do fenômeno ou mérito, mas de viabilizador de tudo isso, por incrível que pareça, novamente está nosso saudoso:

Steve Jobs

Sem o iTunes, não existiria nenhuma possibilidade desta quebra de fronteiras. Não existiria nada além de um viral do Youtube.

Ps.: Não posso esquecer de outro detalhe. Não podemos esquecer de agradecer Roberto Leal, que apesar de ter inspirado o penúltimo corte de cabelo de Michel Teló, cortou seu cabelo mais moderninho e inspirou Teló a fazer o mesmo. Podem discordar desta teoria, mas eu tenho certeza que ela é verdadeira.

Verdades que você precisa saber sobre a internet e ninguém teve interesse de contar…

Existem muitas coisas que acontecem na internet, que talvez você nunca parou para pensar como se desenvolvem. Você alguma vez já acessou algum vídeo, vlog, blog ou twitter com algum conteúdo nerd e se sentiu completamente idiota, pensando: “Mas do que é que eles estão falando?”. Já estranhou todo esse saudosismo com o Mário Bros., games, personagens de desenho animado que você só conhece por nome, histórias em quadrinhos ou detalhes de filmes que você só assistiu no canal aberto:  Robocop, Star Wars, Táxi Driver entre tantos outros?

Provavelmente você não é menos inteligente por não entender esse fanatismo todo. Quem sabe, assim como eu, você seja apenas pobre. Você parou para imaginar que nerds na média de 20 a 35 anos, são apenas pessoas que tiveram uma infância confortável financeiramente? Se hoje você acha difícil comprar um iPhone hoje em dia, tente imaginar como era ter um vídeo game há 20 anos. Tente imaginar quanto custava uma câmera fotográfica ou o preço da mensalidade da tv por assinatura.

Toda a tecnologia que eu tive acesso só aconteceu quando já era algo popular e acessível. O vídeo cassete foi inventado na década de 70, me recordo quando meu pai comprou o nosso, quando eu já tinha uns 14 anos, ou seja, 24 anos depois. Tínhamos duas televisões em casa, uma na sala e uma pequena na cozinha. Eu fui ver uma família com tv nos quartos, quando comecei a namorar minha atual noiva, com 18 anos de idade.

Meu primeiro computador foi comprado aos 18 anos, em um consórcio (acredite, consórcio, igual de carro, onde você tinha que esperar ser sorteado), em 24 vezes, onde eu e minha mãe dividíamos a parcela, pois eu já trabalhava desde os 14 e tinha meu salário. O meu salário aliás, que ajudava nas despesas de casa, pagava meu ônibus para o trabalho e escola, além de pagar meu almoço, quando eu podia almoçar.

Para quem mora no interior, ter acesso a canais de televisão, só aconteceu com a criação das antenas parabólicas. Minha infância inteira foi assistindo Globo e SBT. Por isso talvez, hoje os programas que lembram a minha infância seja Globo Rural, Pequenas Empresas, Grandes Negócios, Jô Soares.

Você também se sente deslocado por não ter um Playstation 3 ou XBOX? Sente-se ignorante por não falar inglês e nunca ter viajado para fora do país? Não se preocupe, você não é menos inteligente que ninguém, você apenas não teve acesso a toda informação e entretenimento que o dinheiro pode proporcionar. Antes de existir a Wikipédia, conhecimento era algo limitado para quem podia pagar por ele. Um bom colégio particular, livros, enciclopédias, viagens culturais.

Você gostaria de ter um blog com muitos acessos? Um vlog com muitos views? Um twitter com muitos seguidores? Alguma vez você parou para analisar que grande parte da galera que detém os maiores números de acessos no Brasil, são pessoas que em parte, ainda moram com os pais e são no mínimo de classe média, ou seja, podem perder muito tempo na internet, pesquisando inutilidades e gravando vídeos, enquanto ‘pessoas normais’ estão trabalham.

Antes de querer se tornar o mais novo Felipe Neto, você já imaginou se sua realidade é compatível com a realidade da internet?

Você que assim como eu, trabalha desde a adolescência e passou grande parte da sua vida trabalhando e estudando, não pode se dar ao luxo de perder horas jogando algum player qualquer. Eu não tenho um computador e uso internet por inclusão social e digital, trabalho com criação gráfica desde os meus 15 anos de idade e  somente por isso eu tenho um blog e um computador para postar nele. Se isso não fizesse parte do meu dia-a-dia, provavelmente eu não estaria aqui, o Gelo Negro não existiria e eu teria usado o dinheiro para alguma necessidade básica mais urgente.

Para piorar a situação, a internet transferiu todo o elitismo da vida real para as redes sociais. Gente ‘famosa’ só possui amigos famosos. Blogueiros, vlogueiros e twitteiros famosos, só trocam conteúdo entre si. Não se promove nada de qualidade na internet, o que importa são os números. Se você possui muitos acessos, talvez entre para o ‘clube vip da internet brasileira’, mas se tem apenas um conteúdo interessante, tá fora. Salvo quando alguma destas ‘webcelebrities’ enxergam em você alguma forma de acumular mais acessos. Não existe mais inoscência, cada atitude, cada palavra, cada link, cada tweet tem um preço, pagos em reais, em troca de falta de caráter.

Enquanto nós continuamos a nos sentir ‘estranhos no ninho’, estamos criando e alimentando monstros, colaborando para construir muros e grades invisíveis, porém igualmente intransponíveis. Estas pessoas esqueceram os princípios que fundamentaram a internet, só promovem conteúdo inútil ou aquilo que lhe agradam de forma pessoal. Você tem dúvida da existência deste elitismo? Quantas vezes você já ouviu frases como:

‘Orkut é coisa de pobre’
‘Culpa da inclusão digital’
‘O Facebook é o novo Orkut’

Fazem a associação: pobreza = ignorância. Se incomodam com alguém que faz uma foto em baixa resolução na favela, enquanto vlogs como do Galo Frito, falam de sexo para internautas de 8 anos de idade, o Rafinha Bastos pode escrotizar tudo e todos, o Felipe Neto pode falar de modinhas adolescentes, o Pc Siqueira pode reclamar das coisas inúteis de seu cotidiano, o Não Salvo pode publicar os vídeos mais bizarros da internet, como uma garota passando maionese nas partes íntimas, o Jacaré Banguela junto com o Kibe Loco podem publicar o que quiserem, inclusive capitalizando números através de todas as escatologias possíveis, o Chongas pode copiar artigos de sites mundo afora, tentando se passar por autor. Porém, quem está errado é o pobre coitado que tenta se virar para não se sentir excluído do mundo digital, já que do mundo real ele já foi.

– Não se preocupe se você não entender alguma piadinha nerd, você simplesmente fez mais da sua vida do que passar o dia inteiro em casa vendo tv.
– Não se preocupe se seu vídeo no Youtube não passou de 100 acessos, a maior parte destes acessos são de pessoas que você nem gostaria de conviver.
– Não se preocupe com seu status na internet, você pode e provavelmente tem uma vida mais real do que qualquer perfil famoso.

Qual o futuro do rap?

Quando conheci o trabalho do Emicida, totalmente por acaso, assistindo um documentário, pensei: ‘Esse é o cara que vai mudar a cara do rap nacional, fazendo a sua revolução silenciosa’.

Revolução Silenciosa pode parecer contraditório, diante do fato que,  sua voz é seu instrumento de modificação, de evangelização, de conscientização.

Mas a cada apresentação do Emicida em um grande canal de televisão, conforme sua popularidade aumentava, crescia junto o meu receio, imaginando como ele sobreviveria com tudo isso, todos estes holofotes, todo este assédio. Como absorver e digerir todas essas mudanças? Já temos tantos casos para tomar de exemplo, talvez venha daí o receio.

Sem dúvida, essa não é uma preocupação original, de fato talvez seja até a primeira questão levantada quando um artista da periferia conquista outras classes sociais.

‘Eu sou uma daquelas banda que ninguém bota fé
Até que um puto dá play e diz: Hey! legal né!’

Deixar de ser underground, deixar de ser ‘rua’, para frequentar o mainstream da música. Onde rola dinheiro e muito ego. Essa dúvida que paira no ar, não passou despercebida por ele mesmo, está em cada letra de música, em forma de resposta, em forma de defesa:

‘Uns rimam por ter talento, eu rimo porque eu tenho uma missão
Sou porta-voz de quem nunca foi ouvido
Os esquecidos lembram de mim porque eu lembro dos esquecidos
Tipo embaixador da rua’

‘Aqui cê tem que pedir desculpa por ter feito mais que os outros …’

É legítimo e inevitável o grito da conquista, a afirmação de: ‘eu cheguei lá’. Mas tão certo quanto isso, é a inevitável afetação que todas estas mudanças causam na mente de alguém. Seja você quem for, tenha você a origem que tiver, nos acostumamos muito fácil, é inerente ao ser humano. Nem se trata de princípios e nem importa seus valores, de fato é apenas a necessidade de adaptação. Assim como você um dia se adaptou na probreza, na falta, na dificuldade, agpra precisa se adaptar a fartura, ao dinheiro, ao meio, as pessoas, mentalidades, filosofias.

Tenho acompanhado dia a dia os passos do Emicida, cada declaração, cada apresentação, cada vídeo, cada registro. Me entenda, esta não é uma tentativa de cobrança ou condenação, não tenho esse direito, não sou juiz de nada e de ninguém, nem sei como seria na minha própria pele. No início todo mundo se garante, todo mundo diz que não vai mudar, mas infelizmente quando você percebe, é muito tarde para voltar atrás. É como atravessar um portal que se fechará após sua passagem. É inevitável e nem estou avaliando se esta mudança seja prejudicial, talvez, o futuro do rap nacional nunca esteve em melhores mãos. Talvez só achamos ruim, porque nós continuamos deste lado do portal.

O fato é que muito daquilo que foi dito, escrito e rimado, só continuará fazendo sentido para você e para mim, longes de toda essa afetação. Talvez, aquele Emicida que eu conheci e aprendi a admirar como porta-voz dos esquecidos, dos negligenciados, não seja mais o mesmo ou talvez não possa ser. Quem sabe aqueles que o cercam não sejam mais os mesmos, impedindo-nos de avaliar com mais clareza e justiça. O que sabemos com toda certeza é que será impossível continuar falando com a mesma profundidade e certeza, daquilo que antes era ferida aberta e agora é só cicatriz.

Será que perderemos mais um para o mundo fugaz? Hoje fiz um teste, sempre mandei recados para o Emicida, Lab Fantasma e Fioti. Até hoje, só fui replicado quando fiz algum elogio. Em todas as minhas perguntas ou em todos os emails que mandei, o silêncio prevaleceu. Nas atividades do twitter, vejo a cada dia estes perfis seguindo mulheres bonitas e gente famosa. Tudo bem, sabemos que as coisas acontecem assim, sabemos as regras do jogo, mas seria tão bom ver algo diferente acontecendo, vendo a mesma revolução das ruas sendo levada para a internet, tão carente de bons exemplos.

Usar toda a admiração conquistada, para de fato fazer a diferença, não só na ideologia e no discurso, mas nas atitudes, assim como o próprio clipe de ‘Então Toma!’ já profetizou. Escreve aí, hoje mandei um tweet, com a seguinte frase:

O poder, a fama e o dinheiro são implacáveis na sua missão de corromper mentes e corações. @emicida

Será que seguinte a cronologia normal do twitter, agora serei respondido?

Che Guevara disse uma vez: ‘A revolução se leva no coração, não na boca para se viver dela’. E agora José? Será que ficaremos novamente no discurso?

Novos desafios

Ontem encaminhei meu primeiro texto escrito para uma finalidade profissional. Apesar de me dedicar de coração para escrever algo realmente relevante e não somente mais alguma filosofia barata de Facebook, não está envolvendo a busca por resultados, o que torna a tarefa mais simples. Inclusive, em uma espécie de movimento contrário pela busca de acessos, já pensei diversas vezes em eliminar o sistema do contador, pois percebo a diferença que essa consciência nos traz. Tento não moldar meus assuntos conforme aquilo que notoriamente traz mais acessos, me soa falso, forçado.

Ontem no entando, tive que sentar para escrever meu primeiro artigo que será avaliado profissionalmente. Coincidentemente, foi ontem que comprei um teclado novo, baratinho, que encontrei no setor de eletrônicos do supermercado. Minha realidade financeira não permitia esse luxo de R$ 47,00, mas algum impulso dizia que valeria o esforço. Se este texto me trouxer uma resposta positiva para aquilo que estou buscando, vou achar que ele é ‘pé quente’. Um dia vou pendurar ele na parede, como lembrança da minha mudança de vida, será?

Não sei se alguém está interessado em saber sobre os acontecimentos da minha vida, grande parte dos acessos do site se dão por pesquisas de trilhas sonoras, filmes ou algo que não seja da minha autoria. De qualquer forma, como disse anteriormente, não posso me moldar pelos números. Quando escrevo qualquer coisa aqui, não espero que isso faça a diferença para milhares de pessoas, é fácil entender que a grande maioria dos internautas não possui tempo para perder, lendo qualquer bobagem na internet.

Escrevo necessariamente para mim, para lembrar destes sentimentos que nos invadem, motivados pelas circunstâncias e que talvez não façam o completo sentido depois. Se tudo correr como deveria, talvez em breve eu esteja vivendo uma realidade muito diferente da atual. Se não der certo essa tentativa, vou continuar na busca que iniciei há algum tempo, na tentativa de viver uma vida mais entusiasmante.

É estranho, mas um teclado novo nos traz a vontade de escrever coisas novas. Se lançar em novos desafios. As teclas suaves parecem ajudar na tentativa de transcrever de forma mais instantânea o que fervorosamente havia minha mente, que não para nunca, refletindo, pensando, analisando, lembrando, tentando encontrar respostas que só o tempo pode responder, no exato momento em que achar conveniente.

Nunca me imaginei vivendo da escrita, passei os últimos vinte anos vivendo das cores, dos traços, dos gráficos. De uma forma ainda pouco clara, me parece que acontecimentos recentes vieram afirmar a necessidade de arriscar, de tentar um novo caminho, menos provável, menos óbvil. Quem sabe este seja o meu momento de recomeçar, de voltar a acreditar, reconstruir minhas expectativas diante da minha vida, que parecia tão inerte. Assim como em um ambiente sem gravidade, preciso apenas de uma força propulsora para dar início a uma nova jornada.

Queria que Deus me olhasse por um segundo e dissesse: Fica tranquilo que este é apenas o começo. É chegada a hora, vá e cumpra o seu destino.

 

 

50 ANOS A MIL – Lobão

Sempre acreditei que um bom livro, uma boa música, enfim, começam com um bom título. Ou você nunca se convenceu a comprar algum livro ou ouvir algum canção pela curiosidade de encontrar uma justificativa, um significado que soe particular?

A minha história silenciosa com o Lobão, silenciosa porque ele nunca fez e provavelmente nunca fará ideia da minha existência, aconteceu na mesma intensidade de suas declarações. Me recordo de um epísódio bem particular. Acredito realmente que meu gosto musical tenha sido forjado as custas da minha realidade financeira, afinal um pobre querendo adquirir cultura, precisa escolher com precisão o único cd que eu podia comprar a cada mês. Era 1999 e Lobão era uma metralhadora (sendo cliché), mirando na cabeça da hegemonia das gravadoras, lançando algo que parecia apenas anarquia ou ressentimento, que mais tarde se revelou algo extremamente coerente. De maluco a visionário, talvez o caminho de todos eles.

Eu com minha sensação de inadaptável, de incompreendido, achei o máximo aquilo tudo. Um suicídio profissional e social ao mesmo tempo, é tudo o que alguém que se sente injustiçado e subestimado quer: performático, dramático, cinematográfico, sempre insólito.  Não restava dúvidas, no outro dia estava comprando ‘A Vida é Doce’, que acompanhava uma revista, quase uma espécie de encarte em formato A4. Quem não se recorda do episódio, Lobão lançou um formato de distrubuição de cds ainda inédito no país, através de banca de revistas e livrarias, segundo ele, nenhuma gravadora estava interessada em lançar seu trabalho. O formato independente que hoje deu vida a inúmeras carreiras, naquela época era quase um mundo paralelo.

Entranhamente, diante da morte do meu pai (2000), ironicamente uma canção com o título de ‘A vida é doce’ era uma das poucas que eu ouvia, na vivência consumista do meu luto. Suas apresentações completamente performáticas, recheada de gritos e revolta traziam um trecho que sinteticamente dizia: ‘que morreram, que fugiam, que nasciam, que perderam, que viveram tão depressa, tão depressa, tão depressa’. A música conta um pouco das vidas que se vão em vão, como eu achava que foi a perda do meu pai e para mim, aquilo fazia todo o sentido.

Ouça:

Depois vi uma entrevista do Lobão criticando o rock nacional e resolvi jogar o cd fora da janela, no terreno baldio que havia ao lado de casa, no único ato de rebeldia que me restava. Desde lá nunca mais ouvi nada dele e nunca me interessei em saber nada também. Sete anos depois, em 2007 ele lança seu Acústico MTV e fiz exatamente como todo mundo (leia-se muita gente), pensei: ‘Mas não era você o incompreendido? O revolucionário? Agora se rendendo para o maior celeiro de idiotices musicais? Quem diria, até tú, Lobão…?’

Fui voltar a ouvir Lobão após uma apresentação dele no Altas Horas, no mesmo ano, após trocar ‘ninguém pensaria que ela quer namorar’, por um silábico ‘ninguém pensaria que ela quer FUDEEEEERRRRR’, impedindo até que o programa colocasse um ‘píííííí’ gigante. Se faz algum sentido eu não sei, mas em volto a tantas críticas, vi que ele continuava o mesmo Lobão de sempre ou quem sabe o Lobão que eu queria parecesse para mim. Depois vi outras entrevistas dele e diante de tantos acontecimentos na minha vida, passei a entender que de fato, não existe nada incoerente em tudo isso. No fundo, um dia você acaba aprendendo, como ele mesmo disse, que é totalmente ingênua a esperança em querer mudar o mundo.

Não existe nenhum mérido em se tornar um mártir, você não vai desfrutar nada que vier in memoriam. Ninguém deveria enxergar qualquer mérito em ser póstumo, até porque não existe dificuldade alguma em se tornar santo depois de partir daqui. Não deveríamos nos importar tanto com as escolhas e ideologias alheias. Nossas escolhas são individuais e cabe a cada um pagar o preço por elas.

Todo o caminho que o Lobão conseguiu trilhar com o fim das drogas (?!) e com uma atitude mais tolerante, lhe deu a oportunidade de estar em muito mais lugares e propagar de forma muito mais eficaz alguns de seus pensamentos e existe muito mais mérito em fazer isso em vida do que esperar alguém fazer isso por você depois, corre o risco de nunca fazerem e além de incompreendido em vida, será um anônimo em morte. Escrever uma autobiografia como ele fez, com ’50 anos a Mil’, ajuda a colocar os pontos nos ‘is’, recontar a história segundo ele mesmo, reconstruindo a percepção das pessoas ou embasando algumas. Ele poderia ter feito tudo diferente, continuar vestindo a capapuça do algoz, continuar gerando conteúdo para um jornalista aqui e outro ali, aproveitando a sua possível ingenuidade de ser tão previsível. Quer polêmica? Entrevista o Lobão.

Não que ele tenha virado um cordeiro, no máximo uma sagaz raposa com pelo macio e branquinho. Agora suas críticas são muito mais colocadas, direcionadas e intencionais. Quando eu tiver condições ($) de comprar seu livro, quero muito ler e conhecer um pouco mais sobre tudo que aconteceu em 50 anos a 1000km/h.


‘As intempéries são meus halteres’

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