Vai uma lata de vida ai?

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É estranho que, passado-se muito tempo, grandes nomes da propaganda internacional, questionem a eficácia e relevância do que está sendo feito em marketing voltado para o ambiente digital. Apesar de certas particularidades, sempre acreditei que dividir o mundo em OFF e ON era uma ignorância e limitação ótica.

Hoje em um grupo do Facebook que deveria estudar Branding, me deparei com uma publicação sobre McDonald’s, Burger King e a criação de uma linha vegana de lanches. Em um dos comentários, um profissional dizia que comeria lá, se a chapa na qual preparasse o lanche não fosse a mesma dos lanches tradicionais. Ou seja, o conceito, a ideologia, o lifestyle pouco importa. Para livrar sua consciência de consumir o pobre boizinho morto, bastava uma chapa diferente.

Acredito que em propaganda, é exatamente assim que se faz. Sempre acreditei que a propaganda era dividida entre idealistas e todo o resto que apenas justifica o valor que empresas investem em propaganda, para justificar que sejam pagos por ela.

É como aquela chapa do pseudo-vegano, que acredita que nesse ilogismo da livre consciência, está se salvando do purgatório. O mundo da propaganda, na regra e na média, nunca se preocupou com os rumos do mercado em si, da qualificação ideológica de seus profissionais. Fazemos piadas de nossas mazelas profissionais e achamos graça. Nosso mercado está cada dia mais repleto de pseudo-interessados, o que justifica a quantidade de peças fantasmas ou falsamente interessadas em causas nobres, na última edição de Cannes.

Em comunicação, estamos ali, defendendo ações de marketing, investimento em internet, análise de métricas, estudo de SEO, criação do um BigData, mas não temos a mínima noção do motivo, dos rumos, do caminho e de onde queremos chegar com tudo isso.

Não precisamos mudar a forma das pessoas enxergarem o mundo e as relações humanas. Nos preocupamos com o que colocamos para dentro do corpo, mas não o que colocamos para fora de nossas bocas. Somos como aquele cara, que se sente vegano trocando carne por soja. Que vai à uma academia fazer Yoga.

Buscando sua vida natural em lata…

Memes, Para Nossa Alegria, Pc Siqueira, Aborto…

Hoje estava vendo a galera que foi ao programa da Eliana, por estar famoso na internet. Entre eles meu chará Jefferson, a Mara e a Suelen, que protagonizaram o vídeo ‘Para nossa alegria’. Ainda participaram a Ana do Tá e Daí?, o Mc Maloka, o Breno que fez um App para sua ex-namora Natasha e mais uma galera. Achei bacana ver todo mundo dançando e cantando a música Galhos Secos (para nossa alegria) e se divertindo com algo tão simples. Me senti mal de alguma vez ter criticado essa gurizada da internet, achei que poderia ser mais tolerante, pensei: ‘no fundo todo mundo só quer se divertir’.

Infelizmente meu arrependimento não durou cinco minutos. Entrei no Youtube e um novo vídeo do Pc Siqueira estava listado entre os últimos vídeos publicados. No vídeo o Pc Siqueira fala sobre a nova lei aprovada sobre o aborto no caso de bebês com anencefalia. Até aí tudo bem, o problema foi ele dizer que é favorável a aprovação da legalização do aborto sem qualquer pré-condição, pela simples escolha da mãe.

Para embasar sua opinião, usou a opinião de líderes religiosos que são contrários a prática do aborto. Temos que sempre ter cuidado com a recíproca. O fato do Pc Siqueira ser ateu, não pode fazer com que ele acredite que todas as opiniões de um líder religioso não devam receber crédito. Eu não pratico nenhuma religião e não acredito na legitimidade do aborto, independente de consequências religiosas. Se uma mulher que aborta vai para o inferno, isso pouco me interessa. Cada um acredita no que quiser acreditar, mas religião ou a falta dela, não pode passar por cima de uma questão simples: o aborto apenas pela escolha de não querer continuar uma gravidez é sim um assassinato. Tirar a vida de uma criança saudável apenas por vaidade ou por medo das consequências é inaceitável.

Pergunte para uma mulher com dificuldades para engravidar, o que ela pensa sobre o aborto. Pergunte para uma criança que foi adotada, se ela preferia ter sido abortada. Tão ridícula quanto a defesa usada pela igreja contra a prática do aborto é a defesa usada por quem o defende: ‘a mulher tem direito sobre o seu corpo’. Tudo na nossa vida possui prioridades e a defesa de uma vida certamente tem prioridade sobre a preservação do corpo de uma mulher.

Assim como se defende a ideia de que, ao beber e dirigir você assume o risco de matar alguém, ao transar sem camisinha ou qualquer outro contraceptivo, assume-se as chances de engravidar. Não consigo entender o que justifica a morte de uma criança, apenas pelo desejo de não levar uma gravidez adiante. Com a aprovação de uma lei legalizando o aborto, quantos namorados poderiam convencer suas namoradas a abortar. Quantos pais conseguiriam convencer suas filhas a abortar. Quantas mulheres poderiam agir por impulso e se arrepender depois.

Não é novidade os casos de mulheres que tentam abortar, não alcançam êxito em sua empreitada e em pouco tempo acabam aceitando sua gravidez. Fico decepcionado de ver um cara como o Pc Siqueira, falando qualquer coisa sem ao menos ponderar sobre o assunto, sabendo da idade de seus seguidores e não se preocupando com a influência que possui diante de crianças que estão formando seu caráter e seus valores. No fundo talvez essa nem seja de fato sua opinião, mas falar de aborto é sempre um assunto que rende e é de acessos que estes caras vivem.

Criar uma geração que acha normal o aborto é no mínimo terrível. Isso não tem nenhuma relação com religião, você não precisa ser temente a nenhum deus para acreditar na defesa da vida. Se existe ignorância por parte das religiões, existe uma ignorância ainda maior por parte daqueles que se intitulam ateus.

Em toda a história sobre ‘este tal Jesus’, contata nos evangelhos, sua mensagem era apenas de paz, amor e tolerância. Isso não impediu que guerras e massacres fossem comandados ao redor do mundo, em seu nome. Até hoje, não vi um relato que credencie a Jesus, o desejo de morte, de vingança. Por isso repito: ‘a recíproca nem sempre é verdadeira’. Ser favorável ao aborto por ser ateu é completamente ignorante. Temos que ter a capacidade de analisar o que é certo, diante de nossos próprios valores. Seguir cegamente uma religião é igualmente equivocado a acreditar que tudo que uma igreja defende, deve ser aplicado de forma inversa.

Os canais de televisão estão cheios de pastores e padres em busca de suas realizações pessoais, usando o nome de Jesus como justificativa. Isso não precisa me impedir de acreditar na existência de um Deus.

Para nossa alegria… – Os acasos da banda Catedral

A banda de rock Catedral tem uma história interessante, repleta de acasos. A banda que nasceu no Rio de Janeiro em 1987, passou desconhecida do grande público por mais de uma década. Focada no mercado gospel, a banda gravou nada menos que nove álbuns dentro do tema religioso, porém sempre com uma pegada pop/rock.

Em 1999 a banda então decide ampliar sua atuação e consegue assinar com a Warner Music, retira o título de música gospel e entra para o mercado ‘secular’, título que me soa bastante ignorante e preconceituoso por parte do público evangélico. Como ironia, provocação ou apenas simbolizando o momento, o Catedral lança o álbum ‘Para todo mundo’, uma clara referência ao fato de sua música estar agora, direcionada para todo tipo de público, sem os limites religiosos.

Um grande acaso acabou favorecendo a banda. A Legião Urbana havia perdido seu líder. Renato Russo morreu em 1996 e o ano de 1999 marcou o lançamento do álbum ‘Acústico MTV Legião Urbana’, onde Renato Russo cantava pela primeira vez na carreira da Legião, músicas de autoria de outros artistas, claro que Renato não esperava que estas músicas seriam lançadas em cd e dvd, tanto que a gravação havia acontecido sete anos antes, em 1992. As semelhança dos timbres vocais de Renato Russo e Kim, vocalista do Catedral criaram uma grande confusão. Durante um breve periodo, a canção ‘Eu quero o sol deste jardim’ foi confundida como alguma gravação inédita na voz de Renato Russo.

A confusão foi tão grande que muitas pessoas que não conheciam a banda Catedral, ou seja, a grande maioria, achou que Kim imitava o Renato Russo como alguma tentativa oportunista de embarcar na falta que os fãs sentiam do líder da Legião Urbana. Confusão desfeita, era tarde demais para desfazer o sucesso que a música alcançou, projetando o Catedral nacionalmente. Este álbum tem um lugar especial na minha memória. Comprei o cd de presente para a Lu, minha namorada na época e acabei levando para o trabalho, uma agência de propaganda que eu trabalhava na época, época que tenho muita saudade.

Motivada pelo sucesso de vendas do álbum, a banda engatou o lançamento de ‘Mais do que Imaginei’ (2001) e ’15º Andar’ (2002), ambos pela Warner Music. Um detalhe interessante, 15º Andar foi produzido por ninguém menos que Carlos Trilha, que produziu vários álbuns da Legião e todos os álbuns solos de Renato Russo. Apesar disso o álbum foi muito pouco divulgado pela produtora. A queda de popularidade soma-se a outra reviravolta na história da banda, em julho de 2003, o guitarrista José Cézar Motta, morre em um acidente de carro aos 33 anos. Cézar não era apenas o guitarrista da banda, mas irmão de Kim e Júlio (baixista).

Não posso precisar se estes fatos tiveram alguma influência, mas foi o último álbum da banda lançado por uma gravadora multinacional, retomando o contato com uma gravadora gospel. Após ’15º andar’, a banda lançou outros seis álbuns. O último, M.I.M. é uma edição de colecionador com apenas 3.000 exemplares e custa nada menos que R$ 189,90. O preço tem sua justificativa, se trata de um livro de luxo com textos, partituras, letras, fotos e claro, o cd inédito.

Então, após uma década de ‘anonimato’ o acaso entre Legião e Catedral acabou ajudando na divulgação da banda. Agora, novamente após uma década novamente no ‘anonimato’, outro acaso coloca novamente a banda em evidência nacional. O vídeo mais comentado na última semana, ‘Para nossa alegria’, trata-se da música ‘Galhos Secos’, canção regravada pelo Catedral. Originalmente no entando, foi composta e gravada por outra banda de rock evangélico, considerada pioneira no país, a banda Exodos, que causou muita polêmica na época, cantando músicas de tema evangélico, em ritmo de rock com todo o estereótipo de roqueiro da década de 70: roupas extravagantes e cabelos compridos. Infelizmente o pioneirismo da banda não encontrou todo o reconhecimento que merecia e encerrou suas atividades em 1977. Não consigo entender essa manifestação de preconceito tão forte que nasce dentro de ambientes religiosos. Enquanto a mensagem maior de Cristo foi a tolerância, parece que esta não é uma característica das igrejas.

Você tem dúvida que o sucesso do vídeo ‘Para nossa alegria’ ajudou a deixar o Catedral em evidência? Então dê uma olhada nas músicas mais consultadas no site Letras.Mus.br

 

Qual será o futuro de Charles Manson?

Caso você não saiba quem é Charles Manson, eu lhe explico. Manson ficou ‘famoso’ mundialmente após ser condenado à pena de morte pela morte da atriz Sharon Tate, então esposa do diretor de cinema Roman Polanski e mais quatro amigos que estavam em sua casa, após estes assassinatos, integrantes da seita criada por Manson, invadiram outra casa e matoram mais um casal.

Manson conseguiu provar que não se envolveu diretamente nas mortes, mas foi condenado como líder do grupo. Sua pena de condenação à morte foi reduzida para prisão perpétua por uma mudança na lei um ano após sua condenação em 1972.  Manson acreditava em algo que chamava de ‘Healter Skelter’, expressão que ele retirou da música homônima dos Beatles. Antes do crime que marcaria sua tragetória, Manson já havia passado praticamente a vida na cadeia por diversos outros crimes, solto aos 33 anos de idade.

Detalhe para a suástica que Manson tatuou na própria testa.

Nesta época Manson era um cantor e compositor que vivia à margem da indústria fonográfica de Los Angeles e era sócio de Dennis Wilson, fundador e baterista dos The Beach Boys. Após os crimes de assassinato e sua condenação, músicos famosos resolveram gravar suas músicas, entre eles: Guns N’Roses, White Zombie e Marilyn Manson, que inclusive tem este nome em sua homenagem. Axl Rose usou em diversos shows, uma camiseta com o rosto de Manson estampado.

A seita criada por Manson, em 1968, chamada ‘Healter Skelter’, ocupava duas fazendas abandonadas no deserto conhecido como Death Valley (Vale da Morte). Na primeira fazenda foram expulsos e na segunda, Manson convenceu a senhora que cuidava da fazenda, dizendo que os integrantes da seita eram na verdade músicos e lhe deu em contrapartida, um disco de ouro original do Beach Boys. Nesta época, Manson ficou obsecado com o lançamento do White Album, dos Beatles. Ele acreditava que o álbum trazia mensagens subliminares, que somente os integrantes de sua seita eram capazes de decifrar.

A seita mudou de sede, para um casa amarela em Los Angeles, que Manson apelidou de Yellow Submarine, outra referência aos Beatles. Eles aguardavam um apocalipse eminente. Segundo Manson, após a morte de Martin Luther King, os negros se revoltariam contra os brancos, promovendo um massacre étnico. Como todo doido varrido, suas ideias misturam inúmeras influências que não fazem sentido algum.

Manson já teve 11 pedidos de condicional negados. Em muitos deles Manson ofendeu ou ridicularizou os agentes de condicional, em outras ele nem apareceu. Este ano, Manson terá direito a um novo pedido, será que ele vai querer sair da cadeia?

De uma forma estranha, mas não menos óbvia, Manson se tornou símbolo da contracultura dos anos 60, após uma matéria de capa feita pela Rolling Stones em junho de 1970.  Sua história continua reverberando pelo tempo, eternizada em canções gravadas por bandas mais novas como Kasabian. O desenho South Park também já fez um episódio dedicado a Charles Manson. Seu registro como prisioneiro é 06660, o que muitos costumam relacionar com o número 666 da besta diabólica. Fato que só aumenta o folclore diante de sua história.

 

Renato Rocha e Legião Urbana

Hoje por acaso, vagando por vídeos no Youtube, fiquei sabendo da matéria que a Record fez com Renato Rocha, também conhecido por Negrete, baixista da Legião Urbana durante os três primeiros álbuns da banda. Na reportagem da Record, o Renato Rocha teria sido convidado para integrar a banda, para que Renato Russo pudesse ter mais liberdade para cantar, tese defendida pelo próprio Renato Russo na época.

Na realidade, todos sabem que Renato Russo havia cortado os pulsos e não conseguia mais tocar, por isso chamou o Renato Rocha para participar da banda de última hora, pois precisavam trabalhar com seu primeiro álbum. Negrete deixou a banda em 1989 de forma conturbada. Segundo Bonfá e Dado ele foi expulso por culpa de seus excessos e o descaso que conduzia a carreira. Sabe lá, talvez o Renato estava afim de voltar para o baixo. Posso estar enganado, mas ele sempre foi tratado como músico convidado e não como integrante da banda.

No fundo Bonfá e Dado nunca foram muito da onda do Renato e do Negrete, infelizmente tinham que se submeter aos caprichos de Renato, afinal era ela a alma da Legião. Já o Negrete era muito menos importante neste contexto e foi bem mais fácil entrar em um acordo (pé + bunda).

Agora não tem como um fã da Legião passar inerte ao fato de ver um cara que tenho na capa de inúmeros álbuns em minha casa, vivendo na rua. É chocante, é triste, é lamentável, é inaceitável. Eu sei que é difícil tirar alguém de uma situação como esta, mas certamente teria sido mais fácil evitar que acontecesse. Ao mesmo tempo que é aterrorizador, pareceria óbvio se não fosse a vida real. Um ex-músico famoso que acaba nas ruas, um filme com um roteiro assim nem chamaria muito a atenção. Me lembrou a história real de Nathaniel Ayers, o menino prodígio do violoncelo, retratado no filme ‘O Solista’ (The Soloist).

Já vivi uma situação muito parecida, com um produtor musical amigo meu. Pude presenciar seu começo, o sucesso das bandas que ele produziu, muito dinheiro entrando e saber que agora ele está na pior. Tentei falar com ele inúmeras vezes, seus telefones não existem mais, perdeu todas as bandas que atendia e a última notícia que tive dele não foi nada confortante. Queria poder fazer algo, mas não tenho condições financeiras de fazer nada. Moramos em estados diferentes e nem posso visitá-lo. Assim me sinto em parte, como fã, ao ver a condição atual do Negrete, impotente, desapontado.

Talvez a matéria o ajude de alguma forma. O que a fama lhe trouxe e lhe tirou, talvez lhe recupere de onde ele está hoje. E existem tantos mais exemplos assim que nem sabemos. Alguém já se perguntou que fim levou o Zina? Que por muito tempo gerou muita grana para o Pânico.

Não acho que precisamos apontar alguém que tenha responsabilidade sobre a realidade do Negrete. No fundo ele mesmo deveria ter sido senhor do próprio destino. Não cabe ao Dado, não cabe ao Bonfá, cabe a quem aceitar a missão, de quem acreditar que pode mudar esta realidade.

A vida e suas efemeridades…

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo…

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder…

Que Deus lhe proteja Negrete e que o futuro lhe reserve alguma redenção…

Ps: O ignorante do Tico Sta Cruz querendo dar pitaco na história. O Tico Sta Cruz falando de alguém? Sério? O Renato Rocha tá com 50 anos de idade, é um senhor já. Nem me interessa o que ele fez ou deixou de fazer, sou da opinião que: se não é para ajudar, não atrapalha. A última coisa que alguém precisa quando está no ‘fundo do poço’ é da opinião de um músico sem talento, babaca, frustrado e bon vivant dando pitaco. Nessa hora ninguém pode ajudar, ninguém pode fazer nada. Pior que o Tico Sta Cruzcredo é a Record querendo promover um encontro entre ele e o Negrete. Sério Record? Vocês acham que o Tico Sta Cruz é o que? Representante do rock nacional? Por favor… Um retardado que fica usando mascarazinha de filminho de Hollywood… Ah não… Ah não…

Vai lá Anonymous, revolucionar o mundo usando um Twitter e um iPhone sentado no sofá de casa…

 

Põe no ‘mute’ e pega a letra…

Muitos pensamentos percorrem a minha mente a todo o tempo. Não sei se isto é um problema para mim, certamente é para os outros, quando tento verbalizar essa confusão mental. Desde que conheci o trabalho do Criolo, já escrevi algumas coisas sobre ele por aqui, mas me parece que este é só o começo de tudo, tenho tanta coisa a dizer sobre ele. Quando você pega o álbum ‘Nó na Orelha’ e o ouve do início ao fim, percebe que ele é um ramo central. Cada música, cada ritmo, cada estrofe inicia uma nova ramificação que se multiplica a cada caminho que você escolhe percorrer.

Assistindo aos vídeos que encontro na internet, nas minhas incessantes buscas, comecei a perceber uma característica muito interessante. Apesar dos holofotes sobre o rap nacional, tendo justamente como representantes mais populares: Criolo e Emicida, é nítida a diferença entre ambos. Enquanto Emicida curte a fama, Criolo me parece entender que recebeu o chamado ao qual esperou por toda a vida. Lindamente ele não se omitiu e não ignorou a chance que tanto buscou.

Lhe deram o microfone, lhe deram voz e a hora chegou. Chegou o momento da convocação, da revolução nada silenciosa, ganhada no grito, o fim da escravidão mental. Quase como um evangelizador, Criolo usa todas as oportunidades que lhe são dadas, para ser porta-voz dos outros, nunca advoga em causa própria, mas sempre em causas coletivas, perdidas, esquecidas. Eu sinto que esse chamado que ele tenta promover, ainda não atingiu a todos na profundidade necessária para causar uma revolução efetiva, mas ao mesmo tempo não o vejo fraquejar. Por isso seu grito ficou silenciado por tantos anos. Criolo foi forjado em aço, mais afiado que todas as lâminas, mais certeiro que bala perdida.

Este levante não é contra o governo, não é contra uma classe social, é contra a ignorância e a desigualdade, não social, mas a desigualdade mental. Somos tão capazes quanto e precisamos enxergar o próximo da mesma forma, lhe dando oportunidade de alimentar o corpo, o espírito e a mente.

Verdadeiros líderes não se criam do dia para a noite, levam tempo, precisam envelhecer, maturar. O ‘Doido’, que desavisados poderiam confundir por ‘insano’, ‘descrontolado’, ‘maluco’, na verdade retrata o incompreendido. Sua confusão mental só incomoda os desatentos, os superficiais, os rasos.

Criolo é um sobro de esperança, na crença sobre a possibilidade por tantas vezes utópica, do incorruptível, do íntegro, do justo. Criolo se tornou o escolhido e tem consciência da importância que sua voz tem. A voz que é feita do coro de todos aqueles que prendem o grito, que sufocam, que suportam calados, silenciados pela desigualdade, pelo descaso, pelo esquecimento.

Cálice (música de Chico Buarque) na versão de Criolo

Corre pro trabalho sem levar um tiro
Volta pra casa sem levar um tiro
Se as 3:00 da matina tem alguém que frita
E é capaz de tudo para manter sua brisa
Os saral tiveram que invadir os butecos
Pois biblioteca não era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silêncio
E uma gente que se acha, assim, muito sabida
Há preconceito com o nordestino
Há preconceito com o homem negro
Há preconceito com o analfabeto
Mas não há preconceito se um dos três for rico, Pai!
A ditadura segue meu amigo Milton
A repressão segue meu amigo Chico
Me chamam Criolo, o meu berço é o rap
Mas não existe  fronteira para minha poesia.
Pai! Afasta de mim as biqueira
Pai! Afasta de mim as biat
Pai! Afasta de mim a cocaine
Pai! Pois nas quebrada escorre sangue
Pai! …

Eu espero de coração, que toda a afetação desse mundo torto não seja capaz de desviar mais um do nosso fronte…

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