Morar o Medo – Mia Couto

Incrível esta definição sobre o medo, lido pelo próprio escritor, o português Mia Couto.

Pudores

Os últimos dias estive longe do Gelo Negro, me espanto quando conto os dias e percebo que passou uma semana. Tenho me dedicado a mim um pouco. Como já disse aqui, por algumas vezes, eu sou diretor de arte, na verdade não sou diretor de nada, sou um criador apenas, buscando a cada dia encontrar uma forma para sobreviver disso. Neste tempo, passei a olhar um pouco mais para dentro de mim e para fora também. Olhar minha vida, tentar entender o que aconteceu até aqui, em meus vinte e nove anos de vida. É estranho como tudo me parece tão confuso.

Recebi um convite, muito generoso, de uma estudante de São Paulo (sou de SC), para participar de um documentário que ela está produzindo, para seu curso de Relações Internacionais. Aceitei o convite, mesmo com todos os pudores que eu sabia que teria que superar. Achei interessante a definição de ‘pudor’ do dicionário:

Talvez seja esta, a principal preocupação. É estranho você aceitar fazer parte de algo que fale de você, sem que isso afete seu sentimento de modéstia, sua vontade de ser muito menos significativo do que sua obra. Talvez eu tenha aceitado o desafio de me confrontar com meus receios, por saber, mesmo que de forma inconsciente, que isso me levaria por novos caminhos, abrindo novos horizontes. Nossa fé inoscente de que tudo que é novo, tem o poder de modificar o status quo. Incrivelmente uma nova perspectiva se abriu. Larissa, a até então desconhecida estudante paulista, estranhamente interessada em saber da minha vida, da minha relação com a arte, das minhas opiniões sobre estes assuntos, queria saber tudo o que nunca me foi questionado. Ninguém até hoje, havia tentado encontrar alguma relevância nas coisas que eu faço.

Venho aqui de tempos em tempos, colocar em textos os sentimentos que invento, das vivências que eu tenho, movidos pelas experiências que me acontecem, mas no fundo eu não sei para quem eu escrevo e pouco sei sobre a relevância daquilo que faço. É humano deixar reverberar por mais tempo e de forma mais intensa, as críticas mais contundentes. Em algum grau lógico, me parece dois lados de uma balança. Quem muito se importa com elogios, acaba por se envaidecer. O caminho da vaidade, é certamente o que esconde mais perigos, ao mesmo tempo que ele te traz confiança e se torna propulsor de seu próprio destino, você facilmente pode perder o controle da direção, fazendo seu caminho desviar por completo.

Em contrapartida, se importar com as críticas e desacreditar de si mesmo, criar uma incapacidade muitas vezes engessante. A vida é definitivamente complexa. Sabemos que o melhor caminho nisso tudo, é seguir o equilíbrio, o ecletismo, o problema é saber em que ponto do espaço e da mente ele está. Diante de críticas, elogios e nossas próprias convicções, perdemos facilmente o referencial, usamos uma bússula de vida, completamente sem norte, pouco confiável e pouco precisa. Me parece mais aceitável, uma combinação homogênea entre percepção, vigilância e sorte.

Parte do vôo é orientado por ventos que nunca sabemos para onde soprarão. Nestes últimos dias, a Larissa passou a ler, grande parte de tudo que escrevi aqui. Levantou dúvidas sobre mim que eu não soube explicar, lembrou de momentos que eu havia esquecido e me despertou um sentimento interno de estranheza. Será que eu me perdi entre as histórias que vivenciei e as que eu inventei? Enquanto tentava responder suas perguntas, tentava na verdade responder para mim mesmo: Afinal, quem é você?

Designo Divino

Hoje estava aqui, assistindo mais um vídeo, entre tantos outros com alguma história emocionante.  Repleto de clichés como: ‘Seu exemplo de vida nos faz perceber como nossos problemas são pequenos’. Tente ler cada frase deste texto com prudência. Talvez um caso emblemático seja o de Susan Boyle, uma jovem senhora de 48 anos, desempregada e solitária, que tem como única companhia um gato chamado Peebles. Susan nunca casou, na verdade nunca beijou ninguém. Susan vive na pequena cidade de Blackburn, Escócia. A aparência um pouco descuidada e a avançada idade diante da média dos participantes do programa ‘Britain’s Got Talent’ forçou uma baixa expectativa dos jurados, que se viram diante de uma atitude preconceituosa, quebrada pelo ‘inesperado talento de Susan’.

Após a gigantesca repercussão mundial, inúmeras outras histórias passaram a aparecer no mesmo programa e em outros do mesmo segmento. Mas não precisamos ir até o Reino Unido para encontrar outros programas que de certa forma, exploram algumas histórias comoventes. Seja na reconstrução de uma casa, a reforma de um carro ou na própria aparência física, estamos cercados de exemplos por todos os lados.

Compadecer do próximo, de uma vida que agoniza diante da sua, está muito longe de ser algo elogiável. É notório que a indiferença diante da dor alheia é um ato de indolência, o que não tranforma o seu oposto em ideal. Na realidade, a compaixão que necessita de exemplo, denota uma personalidade ignóbil.

Toda vez que vejo uma história como esta, de alguém pobre, atrás de um sonho aparentemente impossível, agradecendo apresentadores de tv por seus corações generosos, sempre me pego fazendo uma reflexão sobre essa realidade. Luciano Huck é um dos apresentadores que mais explora essas histórias. Segundo ele, histórias de vida o fascinam. E ele até se considera um caçador de belas histórias de vida. Talvez ignore ou seja apenas parte do show, fingir que cada uma delas, se trata de um grande achado, coisa do destino, designo de Deus.

Na realidade, a cada esquina, em cada bairro, de qualquer cidade do país, milhares de outras histórias iguais ou mais dramáticas, aumentam um estatística ignorada, negligenciada.  Agora mesmo, alguém próximo, um amigo, um familiar ou até mesmo você, poderia me contar uma história de luta e provações. Das contas que sobram no final do mês, da comida que faltou na mesa, dos sonhos frustados, do diagnóstico médico, da perda de alguém próximo, da falta de dignidade. Ao contrário da visão torpe de quem não conhece o sofrimento, agora, neste exato instante, alguém está morrendo, alguém está sofrendo, alguém sente falta, alguém sente fome, alguém sente a dor daquilo que não pode ter. Você não precisa presenciar o sofrimento esfregado na sua cara, para ter a certeza que a todo momento, o mundo torto que criamos, faz mais uma vítima do nosso descaso, da nossa capacidade de nos sentir tão distante do problema que não é nosso.

Definitivamente, não existe nenhuma atitude altruísta. Mesmo que você tende encontrar uma forma de contrariar essa afirmação, buscamos em todas as nossas atitudes de benevolência, algum tipo de compensação, de mérito, de reconhecimento. Nem mesmo que seja apenas para nos sentirmos diferente diante do habitual, afirmarmos nossa nobreza de espírito. Ah, que revigorante uma atitude de honestidade. Somente a impercepção das consequências pode tornar um ato legitimamente altruísta, o que nos coloca em um paradoxo: Podemos chamar o acaso de altruísmo?

Se você recordar do filme ‘Forrest Gump’, baseado no romance homônimo escrito em 1986 por Winston Groom, poderá confirmar essa possibilidade. De todas as histórias que Forrest conta sobre sua vida, para diferentes pessoas que sentam ao seu lado em um ponto de ônibus, independente das consequências positivas e generosas, ele não era capaz de entender sua parcela de contribuição ou talvez não era capaz de identificar mérito em qualquer uma delas. Para ele, a vida era vivida apenas porque assim deveria ser. Ajudar uma pessoa, era a única atitude a se tomar, sem julgamentos entre certo ou errado. Apenas deveria ser assim, pois este foi o ensinamento de sua mãe. Para ignorar a bondade, ignorava também a maldade. O preço de não ter ódio dentro de si, salvo em breves momentos, o impedia de entender de forma concreta, o que era o amor.

A compaixão deveria ser, por excelência, o usual, o óbvio. Toda vez que nos chama a atenção uma atitude de bondade, é preciso entender que algo está na contramão. Nos tornamos indiferentes ao sofrimento e nos orgulhamos do que deveria ser apenas rotina. Não é.

Meu querido Luciano Huck, que representa tantos outros casos semelhantes. Você não é bondoso. Você não é sensível. Ao contrário de tudo aquilo que o dinheiro pode lhe comprar em vida, pouco ou nada pode lhe comprar no céu. Se você acredita que as poucas histórias de vida que você conta, lhe transformam em uma pessoa melhor, saiba que está na hora de baixar os vidros blindados e olhar mais para os lados. Quem sabe trocar um helicóptero por uma ajuda mais substancial. Quem sabe tentar de alguma forma, ajudar alguém, sem que isso se torne uma matéria para a televisão, nem um tweet no seu iPhone. Não sofrem apenas as pessoas que você tão generosamente conserta um carro sem garagem ou uma casa financiada por patrocinadores, sofre toda a humanidade. Você está na área vip mas, apesar do que possa parecer, não existe nenhum mérito.

‘I dreamed that God would be forgiving’

 

Mate Pastor

Eu sempre imaginei, na infância e durante a adolescência, que eu seria alguém muito importante. Não sei se acreditava de fato nisso ou se era apenas um desejo que eu alimentava. Estranhamente eu não tinha o desejo da fama ou do poder, mas da relevância. Eu queria na verdade, saber que eu vim para este planeta por algum motivo realmente relevante. Sempre me imaginei como algum astro do cinema, um grande herói, um policial destemido ou mesmo um cidadão comum que por um instinto qualquer, salvasse a vida de alguém em perigo.

Talvez todos já tenham tido este pensamento em algum momento da vida, não é um pensamento original mas, para mim, isto era quase que a única forma de encontrar alguma motivação na minha vida. Sabe aquele pensamento piegas, na busca de uma explicação para a própria existência?

Meu pai sempre foi muito ligado aos esportes e de alguma forma, um atleta carrega este estigma sublime. Não deu muito certo, eu era um jogador de futebol esforçado e inteligente. Em minha mente aconteciam as melhores e mais fantásticas jogadas, dribles e gols. Na prática as pernas não conseguiam acompanhar a habilidade da minha imaginação. Tentei o volei, o tênis de mesa, a corrida, o ciclismo. De fato eu até acumulei algumas medalhas em todos estes esportes, mas muito longe da genialidade que eu buscava ou mesmo o suficiente para ser notado pelas garotas do colégio.

Lembro de um campeonato estudantil, entre os colégios da cidade, onde fui o único disposto a competir em Xadrez. O máximo que eu sabia do jogo era a movimentação. Peão para frente, Torre para todos os lados e quantas casas necessárias, cavalo em ‘L’ e sabia que precisava proteger a rainha e o rei. Em cerca de um minuto ou menos, meu breve sonho de ser um Kasparov se desmantelou diante de um tal de Mate Pastor. Por um tempo passei a odiar criadores de ovelhas e líderes de igrejas evangélicas.

Essa busca constante por ser notado, por ser notório, continuou por muito tempo. Em uma família de três crianças, eu fui o caçula. Passei grande parte do início da infância sozinho em casa, enquanto meus irmãos estudavam ou estavam envolvidos em atividades do colégio ou com amigos. Eu mudei muitas vezes de colégio, fugi da creche porque não gostava de dormir, durante um tempo eu viajava com meu pai, mas muitas vezes eu ficava em casa completamente sozinho. Jogava futebol sozinho no jardim, driblando poste de luz, pedras, tocos de árvore e fazendo de trave, o espaço entre uma árvore e o portão. Ganhei todos os mais fantásticos e importantes campeonatos mundiais do mundo imaginário.

Eu nunca consegui de fato ser exemplar em nada. Eu não fui um aluno dedicado. Eu nunca tirei notas excelentes. Fiz sempre o necessário para passar de ano. Eu nunca fui notado pelas garotas do colégio, eu nunca fui um Ás do esporte, eu nunca tive uma legião de amigos, eu nunca fui destaque. Justo eu que precisava tanto de reconhecimento. Me lembro então de resgatar algo que sempre gostei de fazer, desenhar. Passava horas desenhando, virava madrugadas e me recordo da vez que passei três dias sem dormir, na tentativa de fazer alguma coisa realmente significativa.

Meu pai chegava de madrugada, após os campeonatos de futebol que ele ia. Por sorte sempre fomos pobres e o carro barrulhento se ouvia de longe, em meio a noite silenciosa da cidadezinha em que nasci. Eu apagava a luz do quarto antes que ele chegasse e só voltava a acender quando ele já estava no quarto. Algumas vezes ele me pegava desenhando e me dava uma bronca: ‘Isso não é hora de criança estar acordada, vai dormir moleque’.

No único momento de visibilidade que tive no colégio, durante a oitava série, usei das minhas capacidades artísticas para desenhar uma caricatura da menina mais chata da minha sala. Aquelas estudiosas que trazem fruta para os professores, copiam toda a matéria e não emprestam caneta e lápis para ninguém. Fui parar na direção do colégio, de carteira e tudo, sentado na entrada da sala, como cantigo. O momento foi um misto de medo dos meus pais saberem do acontecido e uma euforia interna de enfim ser visto. Voltei no outro dia como um ex-presidiário, cheio de experiências para contar. Infelizmente a fama de mau elemento, me rendeu outra advertência até quando eu não tinha feito nada.

Para dar sequência a minha sina de solitário, fui estudar em outra cidade durante o segundo grau. Depois de passar por inúmeros colégios no primeiro ano, impedindo de construir amizades de infância. No segundo maior colégio do estado, sendo o único estudante de outra cidade. Eu parecia um morador de alguma destas cidadezinhas de interior de novela indo para a capital. Era praticamente um extraterrestre.

Foram mais três anos de pura solidão. O máximo de atenção que eu encontrava era a tentativa de conquistar amigos, distribuindo os desenhos que eu acumulava em uma pasta. Eu também decorei uma pose qualquer do Scooby-Doo e sempre impressionava os menos atentos, me passando por um grande cartunista. Mas a fama era sempre em breves instantes. Um sorriso aqui e outro ali, de alguma garota bonita, que nunca passou disso.

Até um dia em que o colégio promoveu uma festa de Halloween. Inventei de desenhar uma teia de aranha no braço de uma garota, usando um lápis de olho. Virei o centro das atenções e uma garota inclusive me pediu para desenhar uma teia no meio do seu decote. Por um tempo quis virar um tattooador, mas imaginei que achariam estranho um tattooador sem tatuagens, já que meu pai jamais aceitaria isso, além de eu ser menor de idade.

A fama durou uma noite e na noite seguinte, ninguém se quer lembrava do meu nome. Outro evento cultural no colégio e me convidaram para fazer desenhos no rosto dos atores e atrizes de uma peça teatral. No final dos espetáculos, fui chamado ao palco e aplaudido por uma massa de gente, tudo do segundo e terceiro ano, que não faziam parte do bloco onde eu estudava, o que não me rendeu muita fama. Teve uma garota que ficou gamadinha em mim, mas como sempre, era a mais feinha da turma.

Ainda durante o colégio eu entrei para a primeira agência de propaganda da minha vida. Eu me sentia super importante, mas naquela época poucas pessoas sabiam de fato o que eu fazia, novamente não me rendeu nada socialmente. Diante da infância e da adolescência solitária, acabei em uma profissão onde o individualismo parece ser uma exigência.

Assim como em tudo que eu me propus a fazer na vida, na busca infantil em ser um super-herói, nunca fiz nenhum trabalho de muito destaque. Sou o cara bom, nunca fui o cara fantástico. Perdi inúmeras outras oportunidades na vida pela incapacidade de entender que sempre me coloquei em lugares onde eu sempre fui o estranho, o penetra, o turista. No fundo nunca encontrei um lugar onde eu pudesse me sentir notado, notório. Sou no máximo o diferente, longe de ser o ideal, o esperado, o destaque. Sou o inconveniente atrapalhando o rotineiro.

Eu nunca salvei a vida de ninguém. Não ganhei um título no esporte. Não pintei nenhuma obra de arte. De fato estou longe de um Cannes. Eu nunca quis a fama, queria apenas sentir que sou um personagem importante da história em que eu faço parte.

Poderes Dominantes

Faz algum tempo que eu não escrevo, não significa que eu não tinha algo há dizer, eu até quis, fazer aquilo que sempre fiz, resumir dias de angustias em algum texto qualquer, na tentativa pouco eficaz de exorcismar sentimentos ruins. Posso garantir ainda assim, que quando eficaz para alguém, certamente não se tratavam de problemas relevantes.

Angústimas profundas não se desfazem no ar, apenas pelo ato de relatar este sofrimento em algum lugar qualquer. É bem provável que se a escrita tivesse esse poder expurgatório, pouco restaria para se falar da dor, da tristeza, da solidão. Pessoas que se sentem aliviadas após compor um texto, poderiam resolver seu problema com qualquer outra bobagem: um chocolate, uma viagem de férias, nada que o dinheiro não possa pagar.

Os fantasmas que assombram a minha mente, são certamente mais persistentes que isso. Não se vendem tão barato assim, não aceitam cheque e nem cartão de crédito. No fundo eu acredito que eles estão comigo desde que tive consciência da existência do sofrimento. Quase como uma catarse, você passa apenas a enxergar o que antes era apenas vulto e bruma.  Com o risco de parecer pessimista ou depressivo, os fantasmas que nos assombram, não aparecem, não passam a existir, são inerentes a natureza humana.

Situações que colocam nossa resistência em xeque, apenas arrancam da nossa consciência, aquilo que nos impedia de ver o todo. Numa espécie de camadas de véu, passamos a compensar nossos sofrimentos com uma capacidade mais apurada de enxergar com maior nitidez. A cada grande sofrimento, um véu cai, se desfaz. Quase como uma troca infinita de lentes, na busca constante de enxergar aquilo que no princípio é apenas percepção. Algumas pessoas trocarão muitas lentes ao longo de suas vidas, podendo entrever o sofrimento com muita clareza, em toda sua forma. Ainda assim, indiferente ao grau de nitidez que você é capaz de enxergar o estigma das mazelas humanas, de perceber o sofrimento alheio, mesmo que por vezes sutíl, a forma que você reage à esta consciência provavelmente trilhará seu destino.

A compreensão pode lhe servir de arma, outras vezes de escudo. Um escudo capaz de lhe esconder da verdade. Na falsa sensação de que aquilo que não podemos ver, não pode nos atingir. Ignorar o poder do mal, não faz ele deixar de existir. Ignorar o sofrimento do próximo, não eximi você de culpa. Escrever um texto não apaga a existência da dor. Você pode se tornar tolerante a ela, você pode até criar resistência, pode por outro lado, utilizar formas de anestesiá-la. Sob nenhuma hipótese poderá extingui-la , se quer malbaratar. Qualquer tentativa nesta direção só causará frustração.

Nos alimentamos da dor, da mesma forma que nos alimentamos da felicidade. Alguns mais, outros menos. Alguns convertem dor em determinação, outros em aceitação.

Os fantasmas responsáveis por todos os sentimentos ruins que possuímos, fazem parte da nossa existência. Cabe a cada um entender de que forma eles se manifestam. De que forma eles influenciam você. De que forma eles lutam contra você. Cabe a cada um aceitar o desafio da luta eterna, aceitando a derrota ou acreditando na vitória eminente.

Parece que ultimamente eles ganharam algumas batalhas de mim, mas continuo acreditando que todas estas derrotas, só preparam meu corpo e meu espírito para uma batalha maior. Deixam a pele mais grossa, o coração mais forte e os olhos mais atentos, rumo ao meu próprio Ragnarök.

J.R. Wills

Parênteses

Estava aqui pensando na vida, o que costumo fazer em grande parte do dia. Dormindo, sonhos e pesadelos atormentam, com desejos e frustrações. Por vezes sinto medo de enlouquecer ou pagar com saúde, física ou mental, pela incapacidade de desligar esse motor, girando a toda potência, que é minha mente. Os problemas de curto prazo que essa característica me traz, se traduzem em desatenção, desorganização e uma infinita incapacidade de lidar com o tempo.

É como se eu não tivesse a capacidade de acompanhar o compasso da vida, a marcação de tempo imaginária, que para a grande maioria parece tão comum e para mim, tão distante. Sempre fora do ritmo, sempre desajustado. Esse desajuste sempre foi classificado por preguiça, insolência, desrespeito e inúmeras outras classificações pejorativas.

Então olho para trás e lembro do primeiro emprego aos 14 anos e percebo uma incompatibilidade das realidades, a minha e a de todo o resto. Durmo pouco, trabalho muito, mas isso parece ser insuficiente para que a percepção de todas estas pessoas que me desaprovam, mude diante da minha verdadeira realidade. É normal que um dos objetivos da vida de qualquer ser, esteja na busca do reconhecimento. O meu no entanto, quando não totalmente inexistente, sempre vem acompanhado de uma vírgula, aposto, (parênteses), um mas, um porém, …, “aspas”.

Essas considerações que invariavelmente acompanham qualquer visão de qualidade minha, tendem a superar o seu poder e importância. A balança de prós e contras sempre pesa para o lado sombrio. O mais estranho em tudo, é imaginar que estes problemas se tornam gigantes por algo que poderia passar despercebido, mas transforma minha existência em algo perto do insignificante, tudo porque minha mente funciona em outro ritmo, que culpa eu tenho? Por este motivo sempre me senti o peixe fora d’água, a forma redonda no buraco quadrado, o desajustado, o incompreendido e consequentemente o rejeitado. Me sinto como um objeto que não passou na certificação, sem avaliação de reutilização, reaproveitamento, remanejamento ou reciclagem. Por não estar dentro das especificações, impostas pela maioria, sou simplesmente descartado para um depósito de resíduo social, que não possui tratamento e tão pouco utilidade.

É como não se sentir verdadeiramente humano, como se nunca pudesse fazer parte disto. Como em um filme de ficção científica onde a tecnologia não consegue reproduzir emoções humanas, o que traz diante da realidade inalterável, a percepção lógica da própria máquina, da limitação de sua existência, onde o tempo e a imortalidade perdem utilidade diante daquilo que nunca poderá reproduzir, o sentir, que sempre pareceu tão óbvio e simplório.

Então você percebe que não existe saída simples. Você pode desistir ou aprender a ser todo torpor, aceitando os aparentes benefícios da falta de terminações nervosas. Este dilema pode tomar grande parte do seu tempo, em uma dúvida que pode durar toda uma vida, procrastinando uma escolha, até o momento em que a própria vida faz a escolha por você.

Em uma realidade onde você só existem dois caminhos, sabendo que no final ambos se convergem, dirigindo para o mesmo ponto, parece que a escolha de fato já foi feita. Se você está vivo, lhe resta viver, um paradoxo do livre arbítrio. Seja com lamento e tristeza ou felicidade e leveza, o fim é igual para todos nós. É por isso que precisamos acreditar na existência divina, na continuidade da vida, para que a escolha do caminho mais longo, justifique não o fim, mas a continuidade, a plenitude, a eternidade.

Reclamar do hoje pode se revelar um equívoco quando de fato você desconhece o amanhã, que pode ser pior, revelando que sua reclamação antecipada era desimportante. O amanhã também pode ser melhor que o hoje, provando que o sofrimento antecipado foi ineficaz, o que me leva a presumir que a reclamação em ambas realidades é sempre ignorante.

Talvez um dia, tudo o que sinto agora, se mostre equivocado, até bastante provável, mas por enquanto, isto é só o que sei sentir. Espero entender melhor como cada realidade se configura, não apenas para compreender o olhar alheio, mas me salvar daquilo que eu deixei de ser em consequência de tudo isso, que hoje me afeta e limita.

J.R.Wills

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