Quase sempre…

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Incongruências do Coração

francine-gelo-negroMe arrisco a dizer sem temer o erro, que o amor é sem dúvida a ciência mais inexata conhecida. Inevitavelmente as pessoas não entendem as razões do coração, que se mostra cada dia mais inadequado e pouco harmônico em suas convicções. Somos vítimas de nossas conclusões equivocadas. Os motivos que nos aproximam de alguma pessoa, ainda que tivéssemos personalidades e intenções inertes ao longo da vida, se mostrariam pouco úteis a longo prazo. Em resumo, o que nos une hoje, nos separa no futuro e a recíproca se mostra verdadeira. O que repele pessoas hoje, fará falta no futuro.

Por isso tantos relacionamentos tomam rumos tão diferentes daquilo que eram no início. Por isso o amor parece virar ódio. Que fique claro, isso não é uma teoria de que devemos nos envolver com pessoas que nos desentendemos desde o início, para a coisa melhorar do meio para o final. Em geral, pessoas que brigam no início continuarão brigando ao longo do tempo de relacionamento. O que acredito ser fato é que as características importantes e relevantes no início do relacionamento, não são os mesmos no decorrer da vida.

Some a isto o tesão, que costuma limitar nosso campo de visão e deixar características decisivas em uma zona de desfoque. Por isso os cafajestes são grandes amantes e péssimos maridos. Como se não bastasse o comprometimento lógico sofrido pela tentação inicial, temos que lembrar das mudanças pessoais que cada parte sofre ao longo do tempo. Mudanças no relacionamento, causados pela rotina e mudanças pessoais, causadas pelas experiências de cada indivíduo, que necessariamente é diferente em cada ser. Ainda que ambos vivenciem a mesma vida, a mesma rotina, a resultante é individual e única. O que pode gerar uma desconexão com o outro. Passam a ver a vida de maneira diferente, muitas vezes conflitante.

Então o relacionamento enfim chega a uma encruzilhada decisiva. Tentar recriar uma motivação para um motivo novo para se amar a mesma pessoa, viver em um relacionamento de comodidade e nenhuma relação afetiva ou decidir pela separação e a busca de uma nova história. História que sofrerá todas as dificuldades encontradas em qualquer outra, amenizadas e muitas vezes ignorada pela comparação do novo com o velho ou ainda a esperança vã de que aprendemos como se constrói uma relação melhor, evitando os erros anteriores, evitando a rotina, evitando as brigas, as ofensas.

O fato é que não importa o quanto mudamos, vamos recorrer em outros erros. Além de tudo, cada ação possui necessariamente uma reação, que é diferente em cada ser. Portanto, pouco da relação anterior será útil na nova. Parece uma equação sem resolução e de fato é. Todo este cenário desconexo, ainda não inclui aqueles que mentem, que fingem ser, que manipulam e acabam machucando a todos que se entregam de verdade.

Para transformar tudo em algo mais infundado é preciso acreditar, fazer planos, se entregar, criar expectativas, o que inevitavelmente nos traz decepções. E se tudo desse certo, você poderia encontrar a pessoa certa, no momento errado. Seu, dela ou de ambos. Sempre disse isso, não queira encontrar lógica no ilogismo. Não queira estatizar sentimentos e pessoas. Não busca encontrar receita para aquilo que costuma desandar ainda que com ingredientes e medidas certas. Talvez essa instabilidade sentimental que vivemos, seja a regra normal imposta e necessária para o amor acontecer. Talvez ele sempre foi assim e o único erro que cometemos, que torna essa fórmula inexata é a tentativa de eternizar o que necessariamente é passageiro. Independente do tempo de sua passagem. O amor é intensidade e duração. A altura pode determinar a distância percorrida ou apenas o tamanho do tombo.

A vida é um desencontro de tempo e o amor é consequência desta desordem. Buscamos o eterno e esquecemos que até mesmo nós somos fim.

Texto: J.R. Wills – Foto: Jeff Skas

A

A, ela, mulher.
Quando não, menina.
Feminina porém, sempre.
Ela é assim, delicada.
Na boca.
Na voz.
Na pele.
No toque da mão.
Podia ser Sol, preferiu ser a Lua.
No vento se tornou a brisa.
No mar se tornou a onda.
No céu se tornou a nuvem.
No temporal se tornou a tempestade.
Jamais poderia ser algo que não comece com a letra ‘a’.
No sorriso se tornou a risada.
No choro se tornou a lágrima.
No sofrimento se tornou a dor.
No amor se tornou a paixão.
No sempre se tornou a eternidade.
No desejo se tornou a excitação.
Porque ela só sabe ser A,
Só sabe ser ELA,
Só lhe resta ser MULHER.

J.R. Wills

Publicado originalmente em: 9 de abril de 2009 às 4:38

Efeito Colateral

Nada daquilo que escrevo possui poesia, se quer pode servir de estimulo, muito menos alguma pretensão de ser comovente. Tudo aquilo que exteriorizo é apenas efeito colateral. Uma resultante reativa de indignação positiva sobre todos os aspectos da vida que me parecem equivocados. Existe uma grande possibilidade do equívoco estar apenas e exclusivamente em mim, mas ainda assim, a reflexão precisa existir, nem que seja para constatar que estive sempre errado. Enquanto um esboço de resposta não se define, vou insistindo.

Orgen Oleg

Laços

 

Você possivelmente já ouviu falar do amor sob as mais diversas perspectivas. Das suas diversas manifestações. Quem sabe leu algo sobre a diferença entre amor e paixão. E sem dúvida cruzou com alguém que quis provar sua inexistência. Certamente amargurado com um amor perdido.

Quero contar sobre um tipo de amor em especial. Uma  forma de manifestação que não exige reciprocidade e que ainda assim não é platônico. Independe da distância, condições e lógica. Com ele apenas o desejo do querer bem, sem dores, cobranças, tristezas, decepções. É preciso lembrar que não exige condição ou lógica.

Sendo assim, continuo a cultivar este sentimento.

Passam os dias e em todos lhe desejo que sua vida siga um rumo bom e que suas escolhas sejam sempre acertadas. Desejo que ninguém lhe faça mal e que a sorte sempre caminhe ao seu lado. Desejo também que você ame e seja amada. Não necessariamente correspondida em exatas proporções, mas o suficiente para sentir que valeu a pena. E então, amando e sendo amada, que este amor se manifeste de diversas formas, porém intenso, verdadeiro e se assim quiser o destino, eterno.

De você não peço nada em troca. A motivação existencial do que sinto é apenas sua felicidade plena. Não sei explicar de forma clara ou coerente como de fato nasce este amor. Muito provavelmente se constrói ao longo de muito tempo, motivado pela nossa incapacidade de administrar os caminhos tão diferentes que cada vida segue. Quase me esqueço. Respeitar os caminhos naturais da vida, aquilo que alguns chamam de destino é ingrediente principal para sua manifestação.

Foi assim, quando nossos caminhos tomaram direções opostas que ele se manifestou enfim. Ou talvez o percebi transformado ou adaptado.

Hoje, conheço pouco sobre sua vida, sua rotina, seus anseios e amigos. Espero no estanto que sejam justos e divertidos. Hoje desconheço os seus planos para o futuro e nem espero que eu esteja neles, quero somente que você os alcance e que torne cada um realidade. Que ao olhar para trás, você se sinta realizada e orgulhosa de si mesma. Vai garota…

Hoje desconheço como são seus dias. Espero ainda assim, que sejam sempre ensolarados, com uma refrescante chuva no final da tarde. Talvez porque eu me sinta feliz em dias assim. E talvez você também se sentirá.

Eu não lhe vejo acordar todos os dias e por isso eu desejo que suas manhãs carreguem sempre a motivação necessária para começar sempre. Que então, a preguiça lhe encontre apenas nas manhãs de sábado para lhe fazer ficar até mais tarde na cama.

Eu nunca lhe disse, mas queria que soubesse. Quando inimigos se erguerem contra você, mesmo que um exército inteiro deles, você deve ter fé e não temer. Espere na fé de Deus.

Você nunca mais dividiu comigo os momentos ruins. Eu quero acreditar que eles não existem. Porém, se minhas orações não tenham sido suficientes para evitá-los, que você lembre que em mim tens minha eterna fidelidade que nunca lhe negará a mão.

Eu lhe percebo distante e só espero que seja sempre assim.
Que você esteja feliz como éramos quando criança.

À você,
minha irmã,
todo meu amor.

 

Pra lembrar…

Esqueco pra lembrar.
Estranhamente existe, acredite,
coerência no ilogismo.
Serei dialético.

Esquecer é preciso, para recordar de algo que
a consciência nos impediu de lembrar.

Esqueço por exemplo,
das ofenças que me fizeram,
pra lembrar que existem gentilezas.

Esqueço das minhas falhas,
não por descaso,
apenas pra lembrar que existe
um jeito certo.

Tudo que nos parece tão errado,
possui de forma não clara e ainda
não explicada precisamente,
grande capacidade de reverberação e por isso,
tem efeito purificador dos sentidos e da mente,
essencialmente catártico.

Esqueço também de todos os olhares de desdem,
com a tentativa de diminuir meu espírito,
pra lembrar então, dos valores que levo comigo.

Esqueço dos maus e inconsequentes,
assim lembro daqueles que acreditam na bondade,
na compaixão e na nobreza de espírito.

Esqueço das promessas não cumpridas,
pra lembrar que promessas foram feitas,
para nunca serem quebradas.

Esqueço de todas as lágrimas que lhe causei,
pra lembrar do quanto é lindo seu sorriso.

Esqueço das mágoas que lhe fiz,
imaginando assim, lembrar porquê
me escolheu para ficar ao seu lado.

Esqueci das pessoas que já amei,
pra lembrar que meu coração,
poderia se apaixonar novamente.

Esqueço das vezes que meu coração foi partido,
acredite, não foram poucas, não pergunte quantas, esqueci.
Somente pra lembrar que encontraria alguém que quisesse respeitá-lo.

Esqueço por vezes dos erros do passado,
pra lembrar que não importa o que se faça,
sempre há tempo para se arrepender,
olhar para frente e escrever páginas mais sinceras.

Esqueci tudo o que eu gostaria de lhe dizer agora,
talvez seja uma reação involuntária,
pra que eu possa lembrar,
de sempre lhe dizer alguma coisa.

Assim terei tempo de esquecer o que lhe disse antes,
para lhe aconselhar algo totalmente diferente.
Talvez lembre você, de nunca esquecer.

Como garantia, escreverei num canto de jornal.
Só pra lembrar…
E não esquecer…

de mim.

Escrito por J.R. Wills
Ilustração por Cameron S. Reutzel

 

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