Fórmula de Bhaskara

De uns tempos para cá, entenda que eu não sei precisar esse tempo. Me perdi entre dias, meses e anos. No fundo nem sei como cheguei até aqui.

Tenho me questionado sobre o quanto preciso para viver. Já vivi com tão pouco, que para tantas pessoas já era muito, enquanto para outras não era nada, que não sei fazer esta conta.

Poderia juntar os gastos mensais e estabelecer uma meta. Mas em determinados momentos precisamos mais do que este ‘mínimo’. Surgem gastos inesperados e você precisa resolver isto também.

Então estabelecemos que precisamos de mais. De uma reserva, um extra, uma garantia. Garantia do que? De quem? Para que? Como ter certeza que esta busca por algo mais, não transforme essa sobra no mínimo novamente. Nos acostumamos facilmente com o conforto. Como se manter inerte?

Me perdi entre a ideia de querer pouco, com a possibilidade da mediocridade de arriscar pouco. Será mesmo que me contento com menos do que a maioria ou apenas estou fugindo da realidade? Covardia ou simplicidade? É mais fácil lidar com pequenas expectativas. Pequenos tombos machucam menos.

Ou será que pulei esta etapa sem sentido que muitos vivem, na busca desenfreada em acumular riquezas para então descobrir que possuem mais do que o necessário, onde perderam tanto tempo em uma luta sem vencedores, que acabaram por trocar suas vidas por um punhado de papel?

A cada resposta que tento encontrar nesta direção, cem novas perguntas me faço. Saio para caminhar com um chinelo e uma roupa mal passada, tentando aproveitar essa morada em uma cidade que tantas pessoas sonham em viver, por conta de suas belezas naturais, mas o que vejo são prédios. Cada dia mais altos, robustos, imponentes. Toneladas de concreto e cimento, para ostentar uma conquista material que pouco me diz e muito me sufoca.

Me sufoca por que estamos caminhando para o lado errado ou apenas por uma espécie de recalque de não fazer parte deste mundo onde o dinheiro compra conforto e calma?

Quando cheguei aqui, em 2013, minha primeira ocupação fora do trabalho era ir até o posto de gasolina tomar um café e comer um salgado. Saia para esvaziar a cabeça, enquanto encontrava várias pessoas que já estavam na rua, buscando encher o estômago.

Eu definitivamente cheguei a um impasse. No fundo ainda ouço uma voz distante, sufocada, murmurando que erguemos muros que nos dão a garantia de que viveremos cheios, de uma vida tão vazia.

Queremos tantas coisas. Queremos um grande apartamento, bem localizado, com uma bela vista, duas vagas de garagem, para dois bons carros. E no fim desta história toda, nossa última morada física é uma caixa pouco maior que nosso corpo.

Tenho muitas dúvidas do que preciso para ser feliz. Por isso me dedico tanto para manter ao meu lado, quem eu preciso para ser feliz.

Talvez eu pense demais. Talvez eu viva de menos. Quem sabe, eu deveria ter prestado mais atenção às aulas de matemática. Preferi português.

Por isso só me resta escrever, sobre as contas que não aprendi a fazer…

J. R. Wills

Monoamor

Sabe estas pessoas que defendem poliamor? Que defendem a individualidade e a liberdade, como se qualquer forma de apego fosse aprisionamento?

Apesar de defenderem todas as formas de amor e a necessidade de dividir-se ao máximo, no fundo me parecem incapazes de se darem de verdade à alguém, profundamente, por inteiro. Será egoísmo ou uma dificuldade de se revelarem por completo?

Não existe nenhum erro em querer jogar sua âncora em algum lugar qualquer. Em querer aportar. Em pousar sobre algo.

A vida é sim um movimento constante, um eterno caminhar. Mas isso não significa que escolher em fazer essa caminhada ao lado de pessoas que amamos, seja uma forma de tornar a caminhada mais pesada. Basta você se certificar que as pessoas que estejam ao seu lado busquem uma proteção mútua.

Assim, pode não ser uma caminhada rápida, mas será facilmente longa. Na oposição de sentimentos apequenados, de egoísmo, de grosseria, de desamor, de posse, de inferiorização, acreditamos que o distanciamento de qualquer possibilidade de se aninhar, vira prisão. Ninho, não é gaiola.

Todos precisamos de um lugar para voltar. Independente de quão distantes sejam os caminhos quais vejam suas pegadas. Até que seja apenas como forma de medida, precisamos ter um ponto de partida, para medir o que é de fato longe. Longe do que? De quem? De onde?

Amor não é algo continuo e plural. Onde você pula de galho em galho tentando experimentar apenas o novo, o inédito. Proust sintetizou: “A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ver com novos olhos.”

O amor vem, diferente da paixão, para criar raízes, que sustentam. Não amarras, que sufoquem. Ele vem para se fazer presente nos momentos difíceis, pouco românticos, nada empolgantes.

Em um voo solo, continuo e sem direção, passamos a acreditar que qualquer pousar seja estagnação.

Pequena falha de interpretação, miopia ótica, estreitamento de nuances. Até quem pensa navegar em mar aberto, talvez não perceba que passou a vida inteira à deriva.

J. R. Wills

Para você nunca desistir…

Nunca desista de alguém. Como diria sabiamente Cortella: “Não nascemos prontos, nascemos não-prontos e vamos nos fazendo. Não somos como fogões, como eletrodomésticos, como um carro ou qualquer bem material que vem pronto de fábrica. Esses sim, vão se desfazendo, até se tornarem descartáveis”.

Infelizmente, invertemos os valores e descartamos pessoas, justamente por não virem prontas. Não existe nada mais belo que a sensibilidade de entender essa fragilidade humana. Mais interessante que buscar o seu crescimento pessoal é compartilha-lo com alguém que se ama. Aprender e ensinar mutuamente.

Acompanhar mudanças. Tentativas, erros, conquistas. Talvez essa seja a verdadeira manifestação do amor. Aceitar defeitos, relevar fragilidades, exaltar as qualidades e caminhar lado-a-lado. Em direção ao crescimento mútuo. Nem acima, nem a baixo. Nem à frente, nem atrás. A vida é certamente mais feliz de mãos dadas. O caminhar se torna mais leve.

Nunca, nunca perca a fé em alguém que vale uma jornada inteira de vida. Que nunca percam a fé em você. Que nunca desistam e que Deus, esteja sempre com todos nós. E que depois de erros, falhas, tentativas, fraquezas, medo, insegurança, novas tentativas. Que ainda exista amor. O suficiente para recomeçar. Preferencialmente sempre com a mesma pessoa. Não é justo entregar suas medalhas para alguém que não esteve ao lado na batalha.

Breve

Eu estarei aqui por pouco tempo.
Entrarei em sua vida e lhe deixarei confusa.
Causarei questionamentos que você não havia se feito.
No início você desenvolverá uma certa admiração.
Um encantamento arrebatador pela minha capacidade de persuasão.
Porém, tudo irá se desfazer quando enfim, mostrar a que vim.
Vim para tirar você do seu estado normal.
Para lhe colocar em desconforto.
Para te empurrar adiante.
Automaticamente, o encantamento se desfará.
Você passará a rejeitar a minha presença.
Eu vou insistir ainda assim, vou abrir o jogo.
Direi verdades inconvenientes,
tocarei em assuntos que você não quer lidar.
Vou iluminar a sua sombra lhe causando
um desagradável constrangimento.
E quando você passar a me odiar por isso,
eu partirei de sua vida.
Mas ainda que ausente,
as sementes que espalhei,
germinarão.
E sem que você perceba,
parte de mim terá ficado ali.
O tempo passará.
A história se repetirá.
Até que um dia, não sobre nada de mim para dividir.
Porém, dos mil pedaços que me partirei,
mil realidades afetarei.
E assim me desfaço em cada uma.
Até não existir mais nada.
Eu não estarei aqui por muito tempo,
mas as sementes, espalhadas e germinadas,
se abrirão em flores e perfume,
lembrando que eu já passei por aqui,
e esta pequena parte de mim se perpetuará em você.
E assim vou eternizando minha brevidade.

J.R.Wills

A

A, ela, mulher.
Quando não, menina.
Feminina porém, sempre.
Ela é assim, delicada.
Na boca.
Na voz.
Na pele.
No toque da mão.
Podia ser Sol, preferiu ser a Lua.
No vento se tornou a brisa.
No mar se tornou a onda.
No céu se tornou a nuvem.
No temporal se tornou a tempestade.
Jamais poderia ser algo que não comece com a letra ‘a’.
No sorriso se tornou a risada.
No choro se tornou a lágrima.
No sofrimento se tornou a dor.
No amor se tornou a paixão.
No sempre se tornou a eternidade.
No desejo se tornou a excitação.
Porque ela só sabe ser A,
Só sabe ser ELA,
Só lhe resta ser MULHER.

J.R. Wills

Publicado originalmente em: 9 de abril de 2009 às 4:38

Pra lembrar…

Esqueco pra lembrar.
Estranhamente existe, acredite,
coerência no ilogismo.
Serei dialético.

Esquecer é preciso, para recordar de algo que
a consciência nos impediu de lembrar.

Esqueço por exemplo,
das ofenças que me fizeram,
pra lembrar que existem gentilezas.

Esqueço das minhas falhas,
não por descaso,
apenas pra lembrar que existe
um jeito certo.

Tudo que nos parece tão errado,
possui de forma não clara e ainda
não explicada precisamente,
grande capacidade de reverberação e por isso,
tem efeito purificador dos sentidos e da mente,
essencialmente catártico.

Esqueço também de todos os olhares de desdem,
com a tentativa de diminuir meu espírito,
pra lembrar então, dos valores que levo comigo.

Esqueço dos maus e inconsequentes,
assim lembro daqueles que acreditam na bondade,
na compaixão e na nobreza de espírito.

Esqueço das promessas não cumpridas,
pra lembrar que promessas foram feitas,
para nunca serem quebradas.

Esqueço de todas as lágrimas que lhe causei,
pra lembrar do quanto é lindo seu sorriso.

Esqueço das mágoas que lhe fiz,
imaginando assim, lembrar porquê
me escolheu para ficar ao seu lado.

Esqueci das pessoas que já amei,
pra lembrar que meu coração,
poderia se apaixonar novamente.

Esqueço das vezes que meu coração foi partido,
acredite, não foram poucas, não pergunte quantas, esqueci.
Somente pra lembrar que encontraria alguém que quisesse respeitá-lo.

Esqueço por vezes dos erros do passado,
pra lembrar que não importa o que se faça,
sempre há tempo para se arrepender,
olhar para frente e escrever páginas mais sinceras.

Esqueci tudo o que eu gostaria de lhe dizer agora,
talvez seja uma reação involuntária,
pra que eu possa lembrar,
de sempre lhe dizer alguma coisa.

Assim terei tempo de esquecer o que lhe disse antes,
para lhe aconselhar algo totalmente diferente.
Talvez lembre você, de nunca esquecer.

Como garantia, escreverei num canto de jornal.
Só pra lembrar…
E não esquecer…

de mim.

Escrito por J.R. Wills
Ilustração por Cameron S. Reutzel

 

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